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Portugal

No ramerrame se ganhou a quem se quer ir visitar num próximo inverno

Entre os golos de Ronaldo, José Fonte e André Silva houve um encontro sensaborão, que por vezes mais pareceu um jogo-treino, no qual Portugal ganhou (3-0) ao Catar, anfitrião do próximo Mundial, sem acelerar (ou entusiasmar) por aí além. Serviu, também, para Diogo Costa, Matheus Nunes e Rafael Leão se estrearem pela seleção

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Fosse este um caso de cozinha, se depositasse Catar e uma certa sigla futebolística no mesmo pote e se desse uso à batedeira, a mistela originada seria tresloucada, percetível para poucos se não houvesse direito a colherada para atestar o sabor e a única fosse a do olhar. Juntar a FIFA a este país do Médio Oriente com a ideia de lá sediar o próximo Mundial é obra que deu, e dá, barraca, porque já se teve de mudar o torneio por norma veraneante para o inverno do hemisfério norte, atender aos direitos humanos dos trabalhadores migrantes que ajudaram a construir os estádios é carência várias vezes denunciada e, como a seleção do Catar lá jogará por decreto, tem de arranjar quasi-competição onde conseguir.

Pela segunda vez em cerca de um mês, os jogadores cataris que culpa alguma têm nesta receita, partilham campo com a seleção de Portugal, é uma refeição com primeiro e segundo pratos vinda da espécie de forno sem jogos a sério que todo a nação que acolha um Campeonato do Mundo tem de temperar. E, sendo o Catar o que é no futebol, este jogo cheirava ao sabor que viria a ter: sensaborão em entusiasmo, insonso no ritmo e monótono nos 35, 40 metros da metade do campo onde se jogou.

O compromisso de reencontrar o Catar sem algo de palpável em causa e a fossa oceânica de diferenças entre os jogadores, fez a bola aninhar-se quase sempre em pés portugueses, havia a calma de William e João Mário a ordená-la e repentismo do irrequieto Matheus Nunes. Um dos motivos que sempre se tenta escavar deste tipo de partidas estava ali pelo centro, em ver a estreia de quem ainda há três anos nas distritais e, há um, era a fúria muitas vezes sentada pela pausa pensante com quem coincide no meio-campo.

Entre ele e João Mário, com posses de bola em que ambos os laterais se projetavam sem pudores e André Silva, na frente, a movimentar-se com desmarcações curtas para se entremear com o foco que é Ronaldo, a seleção acercava-se da área contrária em praticamente todas as jogadas. O avançado do Leipzig teve duas tentativas (6’ e 11’), houve uma na cabeça de Danilo feito central (12’), Guedes e Dalot arriscaram os seus na direita (16’ e 23’) e, depois, surgiu a fonte cheia de repuxos de golo.

Ronaldo entrou por uma das crateras entre os três centrais catari — bastava haver movimentações contrárias entre os avançados e entrar um passe diagonal, de fora para dentro — e, na cara do guarda-redes Al-Sheeb, desviou em demasia a bola (34’), mas, três minutos passados, estava na pequena área a aproveitar o final de uma jogada para encostar o seu 112.º golo na 180.ª internacionalização. Vivalma na Europa jogou mais vezes do que ele por uma seleção.

A precipitação intensa de Portugal sobre o Catar continuaria inquestionável, uns corpos saiam para outros entrarem e o fluxo prosseguia, como a torneira que aberta faz cair a água sempre da mesma forma, no mesmo sítio, com o mesmo caudal.

Nem quando a recarga de José Fonte aproveitou (48’) a bola não amarrada por Al-Sheeb, num livre curvado para a área, para ser o central a fazer o 2-0 (e, finalmente, ter um golo para juntar às quase 50 partidas feitas na seleção), o jogo sacudia a apatia e o ramerrame. À hora de acontecimentos, o Estádio do Algarve às vezes parecia ter aberto as portas para que houvesse gente a assistir a um jogo-treino.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Mais ou menos por essa altura, o Catar tão pouco pareceria ter capacidade para tentar o errático jogo de saídas curtas de trás, pelos centrais pouco assertivos no passe e ainda menos capazes de acelerar passes nos médios. Os cataris já batiam qualquer bola que recuperasse e não corriam atrás para se precaverem de nova vaga portuguesa; eram duas linhas coladas à própria área quando Portugal já era muito do que Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Rafael Leão faziam.

Viu-se na cara do último, e também estreante, a oscilação entre sorrisos rasgados enquanto corria com a bola ou gestos de boa frustração por cada coisa que não acontecia como magicara, por tanto estar à caça de um golo e, talvez, por também ter noção de que na passividade do adversário estava uma oportunidade para trincar uma primeira vez com uma bola atirada baliza dentro.

Quase parado, Rafael Leão puxou do seu jeito para rematá-la e o guarda-redes a desviar (73’), depois, acelerado, rompeu o espaço nas costas dos defesas cataris para receber outra no peito, ultrapassar Al-Sheeb a meias com um ressalto e, deslizando sobre a relva, desviá-la contra o poste (86’). Já se ia a rir, parecia certo. Pouco depois, seria um cruzamento seu a ir ter com André Silva para o avançado fixar o 3-0 na última de cinco, seis tentativas.

A ginga de criatividade de Rafael Leão foi do melhor visto na seleção nacional que, perante um bloco baixo do "Catar possível", como o descreveu, à "RTP", João Carlos Pereira, treinador da Académica com seis anos de trabalho na formação do país, redundou no jogo exterior em buscar de cruzamentos e, raramente, procurou combinações interiores. O "grande desafio" do Catar, disse o mesmo técnico, "é não passar uma vergonha no Mundial".

O de Portugal, caso lá chegue, terá mundos pelo meio por comparação com o anfitrião do torneio, que fora experimentar e dar minutos a jogadores, fazer estrear outros e engrandecer os recordes de um em particular, pouco sentido fará defrontar a meio da época.