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Rui Patrício: a história do homem de Marrazes que virou o primeiro centenário da seleção nacional entre os postes

Após uma década como dono da baliza portuguesa, o guarda-redes da Roma tornou-se no sétimo jogador a atingir as 100 internacionalizações, sucedendo a Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Figo, Pepe, Nani e Fernando Couto. "É um grande orgulho", diz o primeiro guardião a jogar uma centena de vezes por Portugal

Pedro Barata

Gualter Fatia/Getty

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A 24 de fevereiro de 2008, o Sporting visitou Setúbal para defrontar o Vitória de Carlos Carvalhal. Aos 18 minutos do encontro, um remate de Bruno Ribeiro foi direito a Rui Patrício, mas o jovem guarda-redes, que havia cumprido 20 anos há escassos nove dias, deixou a bola passar por entre os dedos, transformando um remate aparentemente inofensivo no golo que ditaria a derrota da equipa de Paulo Bento.

O erro no Bonfim não seria o único erro do guardião naquela temporada. Aposta firme de Paulo Bento, apesar da preferência de boa parte das bancadas de Alvalade pelo sérvio Vladimir Stojkovic, Patrício era desde muito novo considerado uma grande promessa das balizas (rótulo que cresceu quando, em novembro de 2006, defendeu um penálti na sua estreia na equipa principal contra o Marítimo), mas ia alternando exibições promissoras com erros que comprometiam a equipa.

Pouco a pouco, a confiança do jogador foi crescendo, com prestações que, muitas vezes, impediam males maiores para um Sporting a viver tempos conturbados. As dúvidas foram-se tornando certezas à medida que a consolidação na baliza de Alvalade foi acompanhada pela aposta na seleção, feita, também, por Paulo Bento. A 17 de novembro de 2010, num amigável contra a Espanha, deu-se a estreia da seleção nacional e, menos de um ano depois, em setembro de 2011, veio o primeiro encontro oficial, relegando Eduardo para o banco.

Mike Egerton - EMPICS/Getty

Dez anos depois, Rui Patrício já vestiu por 100 vezes a camisola da seleção de Portugal. Indiscutível para Paulo Bento, primeiro, e Fernando Santos, depois, o guardião dissipou as dúvidas para, pouco a pouco, tornar-se praticamente motivo de unanimidade no mesmo país que tanto o criticou quando era jovem.

Frente ao Luxemburgo, Patrício uniu-se a Ronaldo, Moutinho, Figo, Nani, Fernando Couto e Pepe no grupo dos centenários com a camisola das quinas vestida. Trata-se, assim, do primeiro guarda-redes a fazê-lo, cimentando o seu estatuto na história da seleção, na qual já está, há algum tempo, à frente em números de partidas de nomes de grande peso como Vítor Baía (80 internacionalizações), Ricardo (79 partidas), Manuel Bento (63 duelos) ou Vítor Damas (28 jogos).

Carlos Rodrigues/Getty

"Quando começamos, o objetivo é continuarmos a crescer, evoluir e jogar", disse o jogador da Roma depois do desafio frente ao Luxemburgo, vincando que é "um grande orgulho chegar às 100 internacionalizações", as quais são uma alegria não só para si, "mas também para todas as pessoas" que o "acompanharam ao longo dos anos".

Se o começo de Patrício no Sporting foi conturbado, primeiro pela sua irregularidade, e depois pela falta de competitiva do clube (como se vê pelo 4.º lugar de 2009/10 e 2011/12 e pelo 7.º de 2012/13, bem como pela ausência de títulos entre 2008 e 2015), o percurso do atleta de Marrazes na seleção até começou de maneira discreta.

O guardião foi chamado para o Euro 2008 por Scolari, mas não participou em qualquer duelo.

A estreia estava reservada, como vimos, para Paulo Bento, treinador com qual viveu o seu primeiro grande torneio, o Euro 2012. No desempate frente à Espanha, nas meias-finais, Patrício, aconselhado por Ronaldo, até começou por defender o remate de Xabi Alonso, mas teve de esperar quatro anos para viver a glória máxima com a seleção.

Com presença como titular em três Europeus e dois Mundiais, o ponto alto da carreira de Patrício na seleção viveu-se em 2016. O penálti defendido ao polaco Błaszczykowski, nos quartos-de-final, ou as defesas aos remates franceses durante os momentos de superioridade gaulesa na final do Euro 2016 deram-lhe o estatuto de um dos heróis do triunfo português na competição.

Patrício defende o penálti de Błaszczykowski, nos quartos-de-final do Euro 2016

Patrício defende o penálti de Błaszczykowski, nos quartos-de-final do Euro 2016

Alex Livesey/Getty

O brilhantismo de Rui Patrício nos momentos decisivos do Europeu valeu-lhe, inclusivamente, o 12.º final da Bola de Ouro 2016, à frente de craques como Ibrahimovic, Pogba, Lewandowski ou Iniesta. Após a conquista de França, Patrício voltou a ser o dono das redes lusas em novo triunfo, desta feita na Nations League 2018/19.

Aos 33 anos, e enriquecido por experiências internacionais em Inglaterra, onde em três temporadas fez 127 partidas pelo Wolverhampton, e Itália, onde agora é o escolhido de Mourinho para defender a baliza da Roma, Rui Patrício promete continuar a agarrar-se à titularidade da baliza da seleção.

Jean Catuffe/Getty

Com 16 jogos em fases finais de Europeus, cinco partidas em fases finais de Mundiais e participações na Taça das Confederações ou na Nations League, bem como presença nos dois únicos títulos conquistados pela seleção principal de Portugal, o legado que Patrício já deixa é evidente e não será fácil de superar por outro guarda-redes.

Com altos e baixos naturais de uma posição tão delicada, é indiscutível que, no futuro, falar da baliza da seleção portuguesa terá de ser falar de um guarda-redes de Marrazes. Um jogador que não teve um início fácil no futebol de elite, que muitas vezes foi motivo de crítica e debate dentro do seu próprio clube e figura muito presente no anedotário nacional, mas que conseguiu dar a volta por cima para ser, durante uma década, o guarda-redes da seleção nacional no período mais vitorioso da sua história. Tirar Patrício daquela baliza não será tarefa fácil.

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    Portugal goleou (5-0) o Luxemburgo, numa partida em que a equipa de Fernando Santos marcou três golos nos primeiros 18 minutos e ficou, assim, mais próxima da qualificação para o Mundial 2022. Ronaldo marcou três golos e já leva 115 tentos pela seleção na noite em que Rui Patrício chegou às 100 internacionalizações