Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Portugal

De tanto pensar na Sérvia, esqueceram-se de jogar na Irlanda

Portugal empatou (0-0) em Dublin, numa péssima exibição da seleção nacional. Fernando Santos deixou no banco cinco jogadores em risco de exclusão, mas o jogo luso foi pobre, caindo na tentação de entrar nos duelos físicos com os irlandeses, que agradeceram o favor para equilibrar um encontro tecnicamente desequilibrado. E, para piorar, Pepe, o jogador mais velho de sempre a actuar por Portugal, foi expulso e desfalcará a equipa na "final" contra a Sérvia

Pedro Barata

Eóin Noonan/Getty

Partilhar

No dicionário emocional do futebol português, e em particular da relação nacional com a seleção, há poucas ideias mais entranhadas, que necessitem menos de explicação, do que a da "calculadora nos apuramentos". Parece que, por mais que as fases finais aumentem de número de vagas ou que a equipa portuguesa cresça em estatuto e qualidade, é sempre preciso ficar a fazer contas até ao fim para assegurar as classificações.

Não é que Portugal pudesse, na República da Irlanda, impedir que a sua presença no Catar 2022 fosse decidida na última jornada do grupo A, na partida de domingo, 14 de novembro, contra a Sérvia. Mas, desde antes do apito inicial, pareceu estar na cabeça da equipa de Fernando Santos o duelo no Estádio da Luz, como se o conjunto tivesse sido invadido do espírito de "calculadora", de ficar a fazer contas para, num registo de serviços mínimos, assegurar o apuramento.

Portugal sai de Dublin com um entediante 0-0 que, na verdade, produz os mesmos efeitos matemáticos que teria produzido um triunfo: na recepção à Sérvia, basta um ponto para selar a presença no Catar. Mas foi este pensamento de serviço mínimo, de contas frias e calculistas, que esteve na base de uma das mais pobres exibições do passado recente da seleção.

Harry Murphy/Getty

Fernando Santos entrou para a partida com um olho colocado na Sérvia. Ao deixar cinco jogadores em risco de suspensão no banco (Fonte, Rúben Dias, João Cancelo, Renato e Jota), o técnico jogou em Dublin com um pé na Luz. Também sem o lesionado Bernardo e o castigado Nuno Mendes, o onze apresentava a estreia de Matheus Nunes a titular em jogos oficiais e a inclusão de Gonçalo Guedes, que de não constar da convocatória inicial passou a opção de início.

E rapidamente se percebeu que a partida traria dificuldades a Portugal. No estádio que acolheu a única final cem por cento portuguesa da história das competições europeias, aquele FC Porto - SC Braga de 2011, o começo da contenda foi quase como os cânticos do público: de cadência irregular, sem constância, sem se conseguir distinguir bem um ritmo ou uma intenção além de alguns gritos mais entusiasmados quando um duelo era ganho por um irlandês ou um gesto falhado por um português.

Um jogo de futebol em Dublin, num palco onde também se costuma jogar râguebi, é uma viagem a velhos hábitos e tradições britânicas, como festejar conquistas de bolas paradas ou vitoriar o ganho de alguns metros no terreno. A clarividência técnica não existia, mas essa não parecia ser uma preocupação nem do público nem dos jogadores.

No primeiro tempo, só um remate de André Silva levou algum perigo à baliza local. A circulação de bola lusa não gerava vantagens, levando a muitos duelos que agradavam aos irlandeses. No meio-campo rival, havia poucas soluções além de rodar a bola de lado a lado, sem jogo interior ou desequilíbrio.

Cada bola longa de Portugal a promover um duelo era um convite ao entusiasmo do público e a um nivelar de forças, como se o mais forte levasse o encontro para o único terreno em que este se igualava. Incapaz de se impor pela técnica, um remate de Robinson e um cabeceamento de Ogbene foram sinais de perigo para a baliza de Rui Patrício deixados por uns irlandeses que, tendo o duelo a disputar-se no terreno no qual se movem com gosto, aproveitavam para se sentirem ao nível de uma das mais cotadas seleções do continente.

Ray McManus/Getty

Na segunda parte, o cenário agravou-se. As posses de bola de Portugal repetiam, quase sempre, um padrão de baixa qualidade: alguns passes trocados entre os jogadores mais recuados, até um deles se sentir pressionado e bater na frente, onde um irlandês ganhava um duelo aéreo. Como os da casa por pouco tempo ficavam com o esférico, rapidamente este passava para pés lusos, que tratavam de garantir que a bola rapidamente voltava a voar pelos ares. E o ciclo recomeçava.

Para tentar alterar o estado de coisas, Fernando Santos lançou João Moutinho e Rafael Leão, mas a exibição nacional nunca passou da mediocridade. Ao minuto 67', após cruzamento de André Silva, Cristiano Ronaldo cabeceou perto do poste direito da baliza irlandesa, na melhor ocasião de perigo para Portugal.

Do outro lado do campo, Danilo, jogador do colosso PSG, sofria para travar Ogbene, futebolista do Rotherham, da League One, o 3.º escalão inglês, num bom exemplo de como a diferença de valia individual não se repercutia no guião do encontro.

PAUL FAITH/Getty

Aos 79', Cristiano Ronaldo voltou a levar perigo à baliza local com um remate ao seu jeito, mas aos 82' a má exibição portuguesa viu chegar uma contrariedade que afeta o duelo contra a Sérvia, aquele no qual tanto Fernando Santos pensou. Após alguma demora em soltar a bola, Pepe atingiu Robinson na cara, vendo o segundo amarelo e sendo expulso, o que o deixa de fora da "final" contra a Sérvia. Santos poupou vários jogadores para estarem no jogo de domingo, mas fica sem um dos seus principais pilares.

Pepe foi expulso na noite em que fez história pela seleção nacional. Aos 38 anos, 8 meses e 16 dias, o central tornou-se no jogador mais velho de sempre a vestir a camisola de Portugal. Um recorde que, certamente, terá a oportunidade de continuar a alargar em noites de maior felicidade que esta.

Nos últimos minutos da partida, Portugal praticamente só se preocupou em assegurar o nulo, com Fonte em campo para reforçar a defesa. Os irlandeses, sem grande precisão técnica, lançaram-se entusiasmados na direção da baliza de Rui Patrício, mas os rugidos das bancadas e a energia dos futebolistas não tiveram tradução na criação de real perigo que pudesse dar à Irlanda uma das melhores vitórias do seu passado recente.

Cristiano Ronaldo, mesmo em cima do apito final, ainda criou algum perigo, mas o capitão da seleção continuará a dois golos dos 800 na sua carreira. Numa exibição muito fraca de Portugal, com um nível técnico baixo e uma abordagem estratégica que permitiu nivelar um embate desnivelado, o único consolo para a equipa de Fernando Santos é que entrará em campo contra a Sérvia no cenário que pretendia: a precisar de um ponto para estar no Catar. Mas fá-lo-á sem Pepe e sob legítimos olhares de descrédito depois de uma prestação que roçou o penoso.