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Portugal

A fé não calça botas

Apesar do golo logo aos 2 minutos, Portugal foi sempre inferior à Sérvia, que acabaria por conseguir a reviravolta aos 90'. Bernardo, substituído aos 64', foi o melhor futebolista em campo do lado português. A seleção nacional vai disputar o play-off de acesso ao Catar 2022

Hugo Tavares da Silva

Carlos Rodrigues

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No passado, Portugal foi muitas vezes melhor do que os outros. Na técnica e na ousadia, na fineza e na beleza. Mas não venceu. O pragmatismo despiedado, filho da agonia e da desilusão, chegou com o triunfo. Em 2016, mesmo depois de três empates num grupo teoricamente acessível (em que se terminou em 3º, mais uma aberração do futebol moderno), o país lambeu as feridas e embebedou-se de alegria com a conquista do Campeonato da Europa. Chegou então a nossa vez de reinar. Como? “Pouco importa, pouco importa”, cantaram uns.

Mas importa, pois valida um caminho. A qualidade de jogo, mesmo com uma geração de futebolistas brilhantes, nunca foi prioridade no mandato de Fernando Santos e essa cultura, a tal do ser indiferente empatar 0-0 ou ganhar 5-0, precisa de pouca água para fazer espreguiçar as raízes e ganhar terreno. Portugal perdeu esta noite, no Estádio da Luz, contra uma belíssima Sérvia e desperdiçou a hipótese de se apurar diretamente para o Catar 2022. Vem aí o play-off.

O termo “a bola é que corre”, que tanto se ouve no futebol de formação e em qualquer esquina do país, não é popular na ideia de jogo da seleção portuguesa. Os jogadores correm demasiado com ela no pé. A equipa, desconfortável e aparentemente sem um idioma coletivo, não sabe viajar junta, desconhece rotas e hábitos para guardar o tesouro que é a bola de futebol.

Bernardo Silva foi, até ser substituído aos 64’ (pediu para sair, segundo Fernando Santos), o melhor português em campo. Esclarecido e corajoso, sabia de cor a urgência de esconder a bola. Para uns, aquando dos dribles e voltinhas, talvez estivesse a recriar-se com a bola, mas aquilo era necessidade. Melhor: era um pedido de ajuda. Quando não se tem a bola, corre-se atrás dela. E grandíssimos futebolistas como estes, e não são poucos do lado de Portugal, não estão habituados a abdicar dela. E naquele contexto fazem-no constantemente. Quase todos os jogadores surgem uns furos abaixo na seleção, desligados, e isso é responsabilidade do contexto.

Apesar de tudo, das dúvidas quanto à abordagem ao jogo, já que Santos deixou Bruno Fernandes no banco e colocou de início Danilo, Moutinho e Renato, a seleção portuguesa marcou logo aos 2’. Bernardo Silva, sábio mago que sabe morder, roubou a bola a Nemanja Gudelj e tocou para Renato, que chutou para o um-zero. O início prometia, mas rapidamente se percebeu o que ia acontecer nos seguintes 90 minutos.

Carlos Rodrigues

A Sérvia, honrando a Jugoslávia de outros tempos, é filha do bom futebol. À frente dos três centrais, o selecionador Dragan Stojkovic colocou Gudelj, Sasa Lukic, Milinkovic-Savic e o craque Dusan Tadic, estes dois últimos mais perto do avançado Dusan Vlahovic, que mais mês menos mês se comprometerá com um colosso do futebol europeu. Pelos lados, nas alas, estavam Filip Kostic e Andrija Zivkovic, o canhoto que conhece bem aquele corredor direito da Luz. Ou seja, era uma espécie de 3-6-1 com bola, tratando-a com o respeito que merece.

Portugal, encolhido atrás, insistiria nas bolas longas, transições austeras e nas correrias individuais. A ideia portuguesa estava mais focada em fechar caminhos para a baliza de Rui Patrício do que em manter a posse de bola ou respeitar a essência dos jogadores que estavam em campo. Ou no banco, se quisermos pensar em William Carvalho, Bruno Fernandes e João Félix, por exemplo.

Depois de um remate ao poste saído da canhota de Vlahovic, o golo da Sérvia chegou com naturalidade, apesar da fortuna no remate de Tadic: desviou em Danilo e traiu Patrício. Foi aos 33’.

O intervalo revelou que havia um homem pouco satisfeito com o que via em campo. Gudelj saiu e deu o lugar a Aleksandar Mitrovic, o poderoso avançado do Fulham de Marco Silva e melhor marcador do Championship. O desenho mudou para dois avançados e Milinkovic-Savic baixou um pouco no terreno, visando quem sabe refinar ainda mais a saída de bola e a ligação defesa-ataque.

Os quase 59 mil adeptos no Estádio da Luz sofreriam até ao final do jogo (alguns deles, lamentavelmente, assobiaram o hino da Sérvia). Quando um empate basta e a equipa tem dúvidas, antecipam-se problemas. E foi isso que aconteceu, de uma forma mais penosa ainda quando Bernardo saiu e Portugal perdeu o farol. A lanterna, frouxa, apagou-se definitivamente.

Renato Sanches, com várias más decisões, ia vivendo da sua energia e braveza. A utilidade do médio do Lille é inquestionável, mas ganha outro protagonismo numa floresta de incertezas. Esteve perto de marcar, quando deixou um ou outro rival para trás, mas não soube ter o discernimento para tocar para o lado, para Cristiano Ronaldo. O capitão da seleção portuguesa, com exceção para um livre direto e uma ou outra receção (servindo de pivô), assinou um jogo discreto, tal como Nuno Mendes, João Cancelo e Diogo Jota.

A 25 minutos do fim, mais uma surpresa por parte de Fernando Santos: três centrais, com Danilo a recuar para a defesa, fixando-se entre José Fonte e Rúben Dias. A ideia era vigiar Vlahovic e Mitrovic, naturalmente, mas perpetuava o foco na organização defensiva. E no medo de perder. Bruno Fernandes entrou e foi pouco influente, como vem sendo hábito na seleção. João Palhinha, competente, ajudou a travar os sérvios e a tapar buracos.

Gualter Fatia

Mitrovic deixou o primeiro aviso, de cabeça, depois de um bom cruzamento de Kostic. Faltavam sete minutos para o apito final. Sentia-se a tensão, tanto nos jogadores como nos adeptos e até em Fernando Santos, a cada bola parada. Numa versão em loop já com barbas, a bola voltou a ser esquecida e a fé vestiu o melhor fato, mas seria insuficiente. Defender o empate era a única missão daqueles futebolistas em campo. Ronaldo, desesperado, pedia à equipa para subir e pressionar mais à frente.

Em cima do minuto 90, um bom cruzamento de Tadic encontrou, no segundo poste, a cabeça de Mitrovic. Golo. Os sérvios fizeram a festa, o mérito fez-lhes justiça. Foram melhores e o futebol recompensou-os. A troca de André Silva por Danilo seria meramente protocolar, ou um gemido de impotência.

O desfecho que todos temiam e que, ainda assim, parecia distante aconteceu mesmo. Portugal encerra assim o Grupo A na segunda posição, estando agora apurado para o play-off de acesso ao Catar 2022, no qual será cabeça de série.