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Nem com Leão nem com Martelo, esta tarde tocou a música de Mercedes Sosa

Portugal perdeu com a Argentina (0-2) na segunda jornada da fase de grupos do Mundial sub-20 e não pode vacilar contra a África do Sul na sexta-feira. Argentinos já estão apurados. Jota e Florentino foram os melhores da equipa de Hélio Sousa

Hugo Tavares da Silva

Boris Streubel - FIFA

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Os argentinos foram argentinos, aqueles que sonham jogar como os heróis de antigamente, até que se lembraram que também eram argentinos, de uma geração que já não revela tanto carinho pelo estilo e pelo balón. Os portugueses, a famosa e gloriosa geração de 99, entraram mal, subiram, deixaram a Argentina completamente desconfortável, mas desanimaram com o golo sofrido. E duvidaram. E precipitaram-se. E foram para cima. E insistiram nas bolas longas, nos cruzamentos, e, apesar de alguma ansiedade, até souberam criar perigo. Na segunda parte, a história foi outra coisa, mais desinteressante. Mas o futebol, já sabemos, não tem consciência e muito menos bebe da garrafa da piedade: a Argentina ganhou a Portugal por 2-0.

PressFocus/MB Media

Hélio Sousa não mexeu nadinha relativamente ao jogo contra a Coreia do Sul (1-0). Os argentinos começaram com a pedalada toda e, mais perigoso, com vontade de jogar. Urzi, Álvarez, Gaich (uma torre de 1.87m na frente) e Barco tinham passaporte para visitarem todos os territórios do ataque. O último, um extremo de 1.68m do Atlanta United (bisou no 5-2 vs. África do Sul), foi o jogador mais desequilibrador, pelo menos no 1x1 e na condução. Era um quebra-cabeças.

Portugal voltou a revelar-se uma equipa mais talhada para os ataques rápidos, o que facilmente se pode confundir (ou acreditar, escolham) que falta criatividade no miolo. O veneno normalmente escorre das botas de Jota, Trincão e Rafael Leão (autor do primeiro remate perigoso aos 16’). É assim que a equipa parece estar mais confortável. Gedson e Miguel Luís voltaram a não impressionar na posição de interiores, à frente de Florentino Luís, pois dão poucas soluções por dentro, mas também porque criam pouco jogo. Gedson ainda tenta uma ou outra aceleração em condução, que pretende ver alguém dos adversários saltar da posição e pressionar, desmontando a organização defensiva alheia. Mas o jogo era dos argentinos nos primeiros 15, 20 minutos.

Y... "todo cambia".

Até que os portugueses se soltaram, mais exatamente Jota. O miúdo tem a ginga toda. “Queremos é jogar”, dizia naquele documentário da FPF sobre os campeões europeus em dose dupla. Ele só quer jogar futebol, driblar, desfrutar e tocar para os colegas. Florentino ia sendo o farol, na recuperação, na sensatez para não mandar a bola para longe (“quanto mais rápido vai, mais rápido vem”, dizem os sábios). Diogo Dalot ia sendo mais atrevido do que Vinagre.

Boris Streubel - FIFA

Portugal ia explorando as costas dos laterais Mura e Ortega. Rafael Leão é letal nas diagonais. Jota esteve muitas vezes 1x1 com o lateral, algo que foi corrigido na segunda parte por Sergio Batista, o selecionador argentino. Trincão, que seria substituído a meia hora do fim, raramente daria sinais de vida. Mas Portugal ia criando, aqui e ali, algumas situações de perigo. Não estava assim tão difícil chegar à área do adversário.

Numa fase em que a Argentina já estava desconfortável, Diogo Leite ameaçou o golo de cabeça, depois de um canto. Mas quem deu com as redes da baliza foi a tal bestia que mora na dianteira do ataque albiceleste. A jogada começou num pontapé de baliza, passou pelos pés de Barco e Álvarez, que encontrou na área o camisola 9: Adolfo Gaich, o killer do San Lorenzo. Todo cambia: um-zero (33’). Antes do intervalo, Jota ainda teve um livre direto que fez lembrar aquele contra a Finlândia, no Euro sub-19, mas o destino não foi o mesmo.

Portugal ia insistindo em demasia nas bolas longas, no futebol por fora para procurar o cruzamento para avançados que não estão desenhados para esses duelos. Na segunda parte, Vinagre começou a aparecer mais. E foi precisamente numa subida do lateral do Wolves, lançado por Jota, que a equipa de Hélio viveu o lance mais perigoso: cruzamento a rasgar ao segundo poste, Leão não chegou a tempo. Anibal Moreno, médio do Newell’s Old Boys, deu troco e, depois de deixar para trás um português, chutou a bola ao poste. Foi um tiro.

Mésaque Djú entrou por Trincão. Hélio preferiu não mexer naquele meio-campo que parecia ter pouca criatividade e dar poucas respostas. O extremo do West Ham entrou mexido, atrevido, mas as coberturas da Argentina já funcionavam melhor, havia menos liberdade nos corredores para forasteiros.

Jota, Vinagre e Gedson voltaram a visar a baliza de Manuel Roffo, o guarda-redes do Boca Juniors, bom de pés, que ainda está por se estrear na Bombonera e sentir o que fazem os nervos a uma pessoa. Por esta altura, os sul-americanos já jogavam a outra coisa, bem fechadinhos e, quando podiam, saindo rápido em contra-ataque, normalmente pelas galopadas de Barco ou Gaich. O futebol apoiado, curtinho, que terá feito suspirar César Menotti nos primeiros 20 minutos, desaparecera há muito.

Gaich ameaçou o 2-0, na cara de João Virgínia, que fez uma bela defesa. Mas esse 2-0 chegou mesmo (84'), depois de um livre lateral, que teve alguns minutos a ser mastigado pelo VAR. Depois de algumas dúvidas, o golo acabou por ser atribuído a Patricio Pérez (Atlético Madrid), embora Santiago Sosa (River Plate) possa reivindicar um pedaço dessa glória. Gonzalo Maroni (Talleres), que juntamente com Sosa é um dos talentos desta seleção, já estava em campo. Hélio lançara, sem grande efeito, Pedro Martelo e Pedro Neto.

Ponto final no Estádio Miejski w Bielsku-Bialej. A primeira parte teve momentos de promessas de amor ao futebol de qualidade, arrojado, com identidade. Mas essas ideias foram caindo: uns por impotência, outros porque ganhavam e optaram por menos aventuras. A Argentina já está apurada para os oitavos de final. Portugal terá de fazer o seu trabalhinho contra a África do Sul, na sexta-feira, porque o futebol não vive do passado e "todo cambia", como canta Mercedes Sosa.

Ver AQUI como se desenrolou o jogo.