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A inesperada queda

A geração que nos deu um Euro sub-17 e um Euro-19 caiu com estrondo na fase de grupos do Mundial sub-20, uma eliminação surpreendente depois de um empate frente à África do Sul por 1-1. Tudo isto num jogo em que Portugal falhou muitas oportunidades na 1.ª parte e uma grande penalidade na 2.ª, numa altura em que a equipa andava já há muito desaparecida do jogo, tal como andou meio desaparecida deste Mundial

Lídia Paralta Gomes

Boris Streubel - FIFA/Getty

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É uma frase feita e não há treinador que não a diga. Mesmo admitindo que Portugal era um dos favoritos ao Mundial sub-20, por estarmos a falar de uma geração campeã da Europa sub-17 e sub-19, Hélio Sousa dizia ainda antes da estreia com a Coreia do Sul que a Seleção Nacional não podia viver de êxitos passados. Porque se assim fosse, nem precisava de aparecer.

Acontece que Portugal, de facto, apareceu muito pouco neste Mundial sub-20 e pagou caro esse apagão. A vitória magra na estreia, com uma exibição mole, já deixava algumas reticências. A derrota com a Argentina mostrou uma equipa muito presa, sem ideias, estranho num grupo com tanto talento individual. E o empate frente à África do Sul, equipa muito frágil, a mais fraca do grupo, foi uma espécie de castigo divino. Portugal começou bem, mostrou nos primeiros 35 minutos algum do futebol que não tinha saído nos dois primeiros jogos, para logo voltar a adormecer, voltar a entrar numa espécie de marasmo de criatividade. E com a espada da eliminação a pairar, veio o nervosismo, a incapacidade de controlar o lado emocional - a grande penalidade falhada por Jota quando o jogo já estava empatado é exemplo desta falta de frieza.

Portugal está fora do Mundial sub-20 e a queda é inesperada. E vai doer muito neste grupo de jogadores, habituados a tudo ganhar. Talvez fique a lição: em três jogos, Portugal raramente funcionou como equipa e isso foi decisivo para a eliminação.

Boris Streubel - FIFA/Getty

Até porque quando funcionou, e isso aconteceu nos primeiros 35 minutos deste jogo com a África do Sul, houve mais variações de jogo e com isso mais oportunidades, que Portugal foi desperdiçando como quem tem prazer em se aproximar do perigo. A Seleção Nacional entrou bem e aos 14 minutos Trincão quase marcava depois de uma excelente combinação no lado esquerdo do ataque e um bom cruzamento de Vinagre. O remate saiu à figura do guarda-redes sul-africano.

O golo não tardaria a surgir: mais um jogada interessante de Portugal, agora pela direita, com Nuno Santos a combinar com Trincão, este a dar para Thierry Correia e depois o talento de Rafael Leão a funcionar. No coração da área, receção orientada e remate para a baliza, com o avançado a aproveitar também a molenguice dos defesas sul-africanos.

O atacante do Lille foi sempre um quebra-cabeças para os adversários, mas a finalização não voltou a aparecer. À passagem da meia-hora, Florentino deu para Leão, este recebeu bem e encontrou Jota, que permitiu a defesa de Kubheka. E aos 36, Leão não transformou em golo um passe de rutura de Vinagre, com Kubheka mais uma vez a defender.

Boris Streubel - FIFA/Getty

E a partir daí, deixou de existir Portugal. Não ajudou o desaparecimento de Gedson e principalmente de Nuno Santos no meio-campo, eles que tão importantes haviam sido nos primeiros minutos, a dar dimensões ao ataque português que até então se servia apenas de cruzamentos sem critério e de uma ou outra arrancada individual de Jota.

A 2.ª parte começou lenta, Portugal sem capacidade de encontrar o golo que permitisse à equipa descansar e um lance fortuito tudo complicou. Aos 53’, o árbitro da partida considerou mão na bola de Diogo Leite na área e na grande penalidade Thabiso Monyane enganou João Virgínia.

De repente, Portugal estava fora, mas com tempo para se reorganizar. Mas quando Jota falhou uma grande penalidade, apenas sete minutos depois e num lance muito parecido ao que havia acontecido na área portuguesa, a Seleção Nacional perdeu-se de vez, descompensou-se, deixou de ter a calma necessária para sair da encruzilhada em que se tinha metido. Trincão, aos 68’, e Diogo Queirós, num cabeceamento à barra, estiveram perto de marcar o golo que nos daria pelo menos um dos melhores terceiros lugares, mas a espada cairia mesmo, por pecados próprios, por incapacidade de sair de um espartilho tático ao qual Hélio não soube responder quando o talento individual falhou.

Diz-se que se aprende mais com as derrotas do que com as vitórias e estes jogadores terão aqui uma lição que provavelmente não esperariam. O talento sozinho não ganha tudo, mas convém também não esquecer que esta é a seleção que ganhou dois Europeus antes de chegar a este Mundial. É preciso voltar a ser essa seleção.