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Uma lição para alguns idiotas

A Inglaterra até começou a ganhar e parecia que ia conseguir chegar a uma final, 53 anos depois do Mundial 1966, mas os holandeses, habilmente liderados pela classe de Frenkie de Jong, deram a volta (3-1) e vão disputar a final da Liga das Nações contra Portugal

Mariana Cabral

Craig Mercer/MB Media

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Quando caminhava em direção ao estádio D. Afonso Henriques, na tarde desta quinta-feira, entre os milhares de ingleses que entupiam as ruas com cânticos e garrafas de cerveja, vi algo que, lamentavelmente, também já tinha visto no Euro 2016: um adepto, do nada, a subir para o capô de um carro em andamento.

Essa é, precisamente, uma das situações recorrentes entre os adeptos que viajam pelo mundo para apoiar a seleção, como retratou recentemente a Federação Inglesa, num vídeo, digamos, educativo, antes da partida da comitiva para a Liga das Nações.

Não há como escapar: os adeptos ingleses são vistos como uma cambada de arruaceiros e também não se pode dizer que os próprios ajudem muito a mudar a própria imagem - quarta-feira à noite, depois de uma altercação no centro do Porto, dois adeptos acabaram detidos pela polícia portuguesa.

Mas a Federação Inglesa está farta de ser repreendida pelos comportamentos menos próprios dos adeptos, daí que tenha então lançado o vídeo "não sejas esse idiota".

Sim, há muitos desses idiotas entre os adeptos ingleses, começando por aqueles que foram detidos, passando por aquele que subiu ao carro e acabando naqueles que não souberam estar calados durante o minuto de silêncio em memória do falecido Lennart Johansson, ex-presidente da UEFA, no início do Holanda-Inglaterra.

Mas também houve, ao mesmo tempo, os que disseram "shhhhhhhhssshh" - muitos deles, na verdade, holandeses -, procurando silenciar quem não sabe respeitar o próximo. Eles lá se calaram e, depois, aguardaram o momento certo para gritar a plenos pulmões "England", num espetáculo absolutamente ensurdecedor e/ou encantador, que é difícil transmitir a quem não o ouve, mas que fez lembrar, na verdade, um mini Anfield em Guimarães.

Nas bancadas, o duelo estava mais do que ganho para o lado inglês - "your support is fucking shit", gritaram eles arrogantemente para os holandeses presentes, a certa altura -, mas, no campo, o jogo começou por ser bem mais holandês. Com Virgil van Dijk e De Ligt a assumirem a construção a partir de trás, com a ajuda de um terceiro elemento - ou De Roon ou De Jong (que qualidade) -, a Holanda foi sempre tendo mais bola do que Inglaterra, ainda que as oportunidades de golo tenham rareado.

Ambas as seleções procuravam condicionar de forma evidente a construção alheia a partir do guarda-redes, mas ambas iam conseguindo, à vez, superar essa pressão, só que não chegavam com qualidade às zonas de criação.

Só em transições, com mais espaço dsponível, é que a bola começou a aproximar-se das balizas.

Primeiro, Wijnaldum não soube resolver adequadamente um dois para um, soltando demasiado cedo a bola em Depay - John Stones também defendeu bem o lance.

Depois, numa distração pouco habitual, De Roon atrasou para De Ligt e o central do Ajax - que anda a ser cobiçado por Barcelona e Liverpool - deixou a bola escapar: Rashford sentiu que a bola já não estava controlada e acelerou, e ganhou-a, e levou um pontapé de De Ligt, dentro da área.

Tim Goode - PA Images

Aos 32 minutos, mesmo sem fazer muito por isso, a Inglaterra ficava em vantagem, já que Rashford bateu calmamente Jasper Cillessen.

"It's coming home, football's coming home", começaram imediatamente a gritar os ingleses e a verdade é que o embalo das bancadas ajudou: Sancho isolou Rashford, depois de fazer uma cueca a De Ligt, mas o avançado do Manchester United, desta vez, não conseguiu marcar - Dumfries apareceu na hora certa a cortar a bola.

MIGUEL RIOPA

Mesmo antes do intervalo, a Holanda conseguiu a sua primeira grande oportunidade: num canto, a bola foi parar a De Ligt - que se eleva de uma forma impressionante -, mas o central cabeceou ao lado.

Ao intervalo, Gareth Southgate - que tinha deixado os finalistas da Liga dos Campeões e da Liga Europa praticamente todos no banco, por só terem treinado duas vezes com a equipa - tirou Rashford e colocou em campo Harry Kane.

Foi precisamente o capitão a aparecer sozinho na área para cabecear para golo, mas Cillessen apareceu-lhe pela frente.

Do outro lado do campo, já depois de um período em que os holandeses, aliando qualidade técnica a inteligência e velocidade na circulação, voltaram a dominar as operações, não houve guarda-redes que valesse: De Ligt voltou a elevar-se mais do que os outros - no caso, especialmente, de Kyle Walker - e cabeceou de forma certeira para o justo 1-1.

Soccrates Images

O que se seguiu, depois, foi um ritmo frenético, com oportunidades claras em ambas as balizas. Numa delas. iniciada através da classe de Stones a sair a jogar dentro da área (a seguir iria dar borrada, mas a vida de central que quer sair a jogar é assim - arriscada), Lingard isolou-se perante Cillessen e marcou - e um idiota irrompeu a correr pela tribuna de imprensa para festejar o suposto golo.

Só que o VAR anulou-o, por um fora de jogo milimétrico que deve deixar-nos a todos, no mínimo, embaraçados, porque se o videoárbitro serve para corrigir erros claros...

Já a Holanda não conseguiu ultrapassar Pickford, mas não se pode queixar de falta de oportunidades para tal: chegou várias vezes à área inglesa, mas tanto Bergwijn como Depay remataram sozinhos... ao lado.

Foi assim que se chegou ao prolongamento, com a Holanda claramente a subir e a Inglaterra claramente a descer, e foram os holandeses a ter bem mais oportunidades de golo nos 30 minutos extra.

Mas o golo, ainda assim, surgiu do nada. Aos 105', John Stones parecia ter o lance perfeitamente controlado, mas, perante a presença irrequieta de Depay, atrapalhou-se, rodou sobre ele próprio e perdeu a bola. Isolado, Depay rematou contra Pickford, mas, na recarga, Promes rematou contra Walker e a bola acabou por ir caprichosamente para a baliza. 2-1,

Steve Bardens - UEFA

A 2ª parte do prolongamento foi, obviamente, essencialmente inglesa, mas eram os holandeses a criar mais calafrios, agora em transições. Numa delas, habilmente resolvida por Walker com um chega para lá, a bola sobrou para um lançamento de linha lateral junto à área inglesa.

Mais uma vez, Stones parecia relativamente tranquilo, mas isto de ser um central do City tem muito que se lhe diga - em vez de soltar com mais segurança em Pickford, decidiu colocar no meio, em Barkley que, na teoria, também sabe bem o que é jogar sob pressão, com Sarri... só que passou mal a bola e ela foi parar aos pés de Depay, que ofereceu o golo a Promes.

3-1 e, bom, os idiotas calaram-se de vez. E ouviram o que não queriam, repetidamente, a partir da bancada holandesa: "Always look on the bright side of life!"