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Mais vale o proveito do que a fama

Num jogo em que foi superior à Holanda pouco "laranja mecânica", Portugal venceu, com um golo de Gonçalo Guedes, a Liga das Nações

Mariana Cabral

Steve Bardens - UEFA

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Não interessa se o jogo é distrital, de Campeonato de Portugal ou nacional: se há coisa que me deixa imediatamente rezingona é não chegar a um jogo a tempo de ver o aquecimento. Naquela meia-hora prévia ao jogo propriamente dito, parecendo que não, há muito para ver: o que fazem os treinadores, como se exercitam as equipas, em que estado entram os jogadores e, particularmente, a pataleca.

Se o leitor não sabe o que é a pataleca, aqui vai uma ajuda visual, cortesia dos suplentes da seleção nacional.

A pataleca da seleção

Parecendo fácil, porque, na verdade, trata-se apenas de manter a bola no ar, é particularmente difícil, porque há que cumprir determinadas regras: há que dar dois toques obrigatórios na bola e em caso algum é permitido utilizar a cabeça e a coxa. Depois, quem deixa a bola cair no chão leva, obviamente, um belo calduço.

Os suplentes da seleção nacional têm por hábito jogar este jogo no aquecimento, o que é divertido quando os executantes têm a qualidade técnica do nível de João Félix, Pizzi, Rúben Neves e afins.

A pataleca não tem, obviamente, grande objetivo, a não ser cumprir o seu espírito lúdico, e isto fez-me pensar que, este domingo, no Dragão, os holandeses devem ter decidido jogar a pataleca lá do sítio (alguém sabe dizer pataleca em holandês?) contra Portugal.

É que, na 1ª parte da final da Liga das Nações, a Holanda teve, de facto, muito mais bola do que Portugal, mas, na verdade, não fez absolutamente nada com ela. Ao intervalo, o marcador da posse de bola dizia que os holandeses - com o mesmo onze que derrotou a Inglaterra - tinham o esférico que dita o jogo em 58% do tempo, mas aquele foi um exemplo perfeito do que é uma posse de bola estéril - aquela que ficou conhecida por "tika taka" e que Pep Guardiola disse um dia que "odiava", precisamente por ser estéril.

"A posse de bola é apenas um método para ordenar a equipa e desmontar o adversário", explicou então, no livro "Herr Pep", mas esta Holanda de Ronald Koeman, tendo jovens de grande qualidade, como os óbvios De Jong (considerado o melhor jogador jovem da final four) e De Ligt, não é, ainda, herdeira da fama da "laranja" - é mais como a cor do equipamento que utilizou esta noite: (azul) bebé.

Dean Mouhtaropoulos

Obviamente, se uns não jogam, também é porque há lá quem não os deixe jogar - e essa foi a equipa de Fernando Santos, que todos sabemos que não tem lá grande fama, mas a verdade é que vai tendo o proveito. Como era esperado e adivinhado, o selecionador reverteu este domingo para o 4-3-3, para equilibrar a equipa defensivamente, depois de uma exibição pouco feliz nessa perspetiva no 4-4-2 losango perante a Suíça, e a verdade é que a estratégia funcionou perfeitamente.

Com Guedes na esquerda, Ronaldo a avançado, Bernardo (considerado - justamente - o melhor jogador da final four) na direita e William, Bruno Fernandes e Danilo a reforçar o meio-campo, a seleção foi sempre muito coesa em termos defensivos, bloqueando o corredor central aos holandeses e condicionando a construção adversária desde cedo.

Depois, ofensivamente, foi aproveitando os (muitos) remates de longe de Bruno Fernandes - e de Ronaldo - para se ir galvanizando e para ir assustando Cillessen frequentemente: Portugal terminou a 1ª parte com 12 (!) remates, enquanto a Holanda efetuou... zero.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Na 2ª metade, Koeman começava logo por tentar abanar a equipa, tirando de campo Babel e colocando Promes - e, 15' depois, foi a vez de Bergwijn dar o lugar a Van de Beek - e os holandeses de facto entraram com mais ímpeto, incomodando pela primeira vez Rui Patrício num ressalto em que José Fonte perde a bola.

Só que, depois, Portugal aproveitou a ajuda do público do Dragão para se voltar a galvanizar, ganhando uma série de cantos e empurrando os holandeses cada vez mais para trás.

Aos 60', Guedes recebeu a bola pela esquerda e aproveitou uma saída desajeita de De Ligt para isolar Bernardo. O médio do City, com a inteligência do costume, conduziu a bola para dentro da área, fixou o outro central, Van Dijk, e soltou à direita, no mesmo Guedes, que, por momentos, decidiu encarnar o espírito de Cristiano Ronaldo e enviar uma bomba para a baliza de Cillessen - o guarda-redes que dizem que o Benfica quer contratar ainda tocou na bola, mas ela foi mesmo para dentro da baliza.

Steve Bardens - UEFA

Depois de chorar, Guedes festejou e deu lugar a Rafa, outro que se fartou de criar problemas à defesa holandesa que, nos últimos minutos, já estava totalmente desorganizada.

Depay, com um cabeceamento na área, ainda assustou os portugueses, mas Rui Patrício defendeu, tal como fez com um desvio de Van de Beek.

Depois de conquistar o Euro 2016, Portugal foi um justo vencedor da Liga das Nações - com Cristiano Ronaldo, aos 34 anos, a ser o melhor marcador da prova. Fica assim esquecido aquele dia em 2004 em que o miúdo chorou baba e ranho. Agora é (quase sempre) tudo nosso - e muito lhe devemos por isso mesmo. Agora é festejar, porque, recordando outro herói chamado Eder, "amanhã é feriado, caralho!"

GABRIEL BOUYS