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Vai começar o espetáculo do futebol africano (mesmo com uma greve pelo meio) e isto é o que precisa de saber

A Taça das Nações Africanas, mais conhecida por CAN, começa esta sexta-feira com o anfitrião Egito a defrontar o Zimbabué (21h, Eurosport2) - e ainda sem se perceber se o detentor do troféu, os Camarões, cujos jogadores estão em greve, irá participar. Ainda assim, o analista Tiago Teixeira aponta as seleções que podem chegar mais longe e os jogadores que vale a pena ver

Tiago Teixeira (analista de futebol)

Os Camarões venceram a última edição da CAN, em 2017, ao derrotarem o Egito na final, por 2-1

Ulrik Pedersen

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Egito (no grupo A, com Zimbabué, Uganda e Congo)

Depois de três anos às ordens de Héctor Cúper, Salah e companhia são agora orientados pelo mexicano Javier Aguirre, que abraça a sua primeira experiência no continente africano, com o objetivo de levar o país anfitrião à sua oitava conquista.

Organizados preferencialmente no sistema de jogo 4x2x3x1, os comandados de Javier Aguirre são neste momento uma seleção que procura ter mais iniciativa de jogo do que acontecia com Héctor Cúper, embora a principal arma ofensiva continue a ser as transições rápidas.

Neste momento, destacam-se os dois extremos, Salah e Trezeguet, uma vez que são dois jogadores muito rápidos e com grande capacidade de ultrapassar os adversários em condução. Elneny, médio do Arsenal, é também muito importante no momento ofensivo do Egito, pela capacidade com que liga a fase de construção com a fase de criação através do passe.

JOGADOR CHAVE

Mohamed Salah, o jogador mais influente do Egito

Mohamed Salah, o jogador mais influente do Egito

Erwin Spek/Soccrates

Mohamed Salah, 27 anos. O extremo do Liverpool, que já leva 39 golos em apenas 63 internacionalizações, é a principal esperança do Egito para conquistar um troféu que já foge desde 2010. Seja em ataque posicional ou no momento da transição ofensiva, Salah será, de certeza, o grande desequilibrador ofensivo da seleção egípcia.

JOGADOR A SEGUIR

Trezeguet, 24 anos. O extremo do Kasimpasa da Turquia vem de uma época onde fez 9 golos e 10 assistências e é, a par de Salah, o principal desequilibrador ofensivo da seleção do Egito. Destaca-se pela qualidade no 1x1 ofensivo, sendo também um extremo muito rápido e que aparece com frequência em zonas de finalização.

Nigéria (no grupo B, com Madagáscar, Guiné Conacri e Burundi)

O experiente alemão, Gernot Rohr, 65 anos, que assinou pela seleção da Nigéria em 2016, continua como selecionador, apesar de no Mundial da Rússia ter ficado pela fase de grupos.

Deste então, a seleção nigeriana tem variado muito o seu sistema de jogo, tendo o próprio selecionador admitindo que, em função dos jogadores ofensivos que tem, mudar o sistema durante o jogo pode ser benéfico, uma vez que tem avançados que podem jogar no meio-campo ou no sistema 3x5x2.

Independentemente de qual for o sistema de jogo utilizado, a Nigéria procurará ser uma equipa ofensiva e chegar a zonas de finalização com muitos jogadores. Conta com elementos muito rápidos e fortes tecnicamente no setor ofensivo, como Ahmed Musa, Alex Iwobi e Samuel Chukwueze, pelo que os ataques rápidos e os movimentos de rutura para explorar a profundidade, serão das principais armas ofensivas da seleção da Nigéria.

JOGADOR CHAVE

Ahmed Musa, 26 anos. O avançado do Al Nassr, da Arábia Saudita, que já conta com 80 internacionalizações, nas quais marcou 15 golos, destaca-se principalmente pela sua velocidade e capacidade de explorar a profundidade, o que numa competição onde a maior parte das seleções revela muitas fragilidades defensivas pode ser decisivo.

JOGADOR A SEGUIR

Samuel Chukwueze, 20 anos. O extremo do Villarreal tem apenas três internacionalizações pela seleção nigeriana, mas vem de uma época em que realizou 47 jogos ao serviço da equipa espanhola, tendo marcado 10 golos e feito quatro assistências. Na CAN poderá demonstrar tudo aquilo que faz dele um dos jovens com mais potencial da atualidade: qualidade técnica em grandes doses (passe, remate e drible), muita velocidade e explosão.

Argélia (no grupo C, Tanzânia, Senegal e Quénia)

O argelino Djamel Belmadi é o selecionador da Argélia desde agosto de 2018, altura em que Rabah Madjer, ex-jogador do FC Porto, foi despedido. À procura de levantar o troféu que foge desde 1990 (primeira e última vez que conquistaram a CAN), a seleção argelina tem no seu ataque a seu maior força.

Organizados preferencialmente no sistema de jogo 4x2x3x1 (também usam o 4x3x3), a seleção argelina demonstra intenção de chegar ao último terço de forma apoiada, onde depois aparece a qualidade técnica e a criatividade de jogadores como Brahimi, Féghouli e Mahrez, capazes de criar bastantes desequilíbrios, mesmo que de forma individual.

O médio Ismael Bennacer é também fundamental no momento ofensivo, pela capacidade que tem de ligar a fase de construção com a de criação, quer através do passe quer em condução.

JOGADOR CHAVE

Michael Regan

Ryad Mahrez, 28 anos. O extremo do Manchester City, que na época de estreia na equipa fez 12 golos e 12 assistências, é o principal desequilibrador em termos ofensivos da seleção argelina. Com muita capacidade para manter a bola controlada mesmo sob pressão, qualidade técnica no 1x1, passe e remate, Mahrez será certamente uma dor de cabeça para as defesas adversárias.

JOGADOR A SEGUIR

Ismael Bennacer, 21 anos. O médio argelino foi um dos grandes destaques do Empoli, apesar da equipa italiana ter descido de divisão. Bennacer é um médio muito completo, que se destaca pela qualidade técnica – principalmente ao nível do passe – e critério que oferece no momento ofensivo, e pela capacidade de desarme no momento defensivo.

Senegal

Depois de no ano passado terem marcado presença num Mundial pela segunda vez (a primeira foi em 2002, quando chegaram aos quartos de final), a seleção do Senegal, comandada por Aliou Cissé, procurará agora ganhar a CAN pela primeira vez.

Organizada preferencialmente no sistema de jogo 4x3x3, a seleção senegalesa tem na velocidade e qualidade técnica dos seus avançados – Sádio Mané, Keita Baldé, Ismaila Sarr e Niang – as principais armas ofensivas, pelo que são uma seleção muito forte nas transições ofensivas e a explorar a profundidade.

No setor intermédio destacam-se os médios Idrissa Gueye e Badou Ndiaye, principalmente pelo que oferecem no momento defensivo, uma vez que são muito agressivos na recuperação de bola e muito fortes fisicamente.

Contam também com Koulibaly – melhor central africano da atualidade e um dos melhores do mundo – para sair a jogar com qualidade, e para liderar a linha defensiva.

JOGADOR CHAVE

Laurence Griffiths - FIFA

Sadio Mané, 27 anos. O extremo do Liverpool vem de uma grande época, tendo marcado 26 golos e feito cinco assistências nos 50 jogos em que participou. É, sem dúvida nenhuma, a principal figura da seleção do Senegal, e as esperanças em chegar longe na CAN passam muito pela sua potência, qualidade técnica e capacidade no momento da finalização. Tem 60 internacionalizações e 16 golos marcados.

JOGADOR A SEGUIR

Ismaila Sarr, 21 anos. O extremo do Rennes, que esta época marcou 13 golos e fez 11 assistências, é um dos jovens de grande valor que estarão presentes na CAN. Destaca-se pela sua velocidade, capacidade no 1x1 ofensivo e qualidade no momento da finalização. Tem 21 internacionalizações e três golos marcados.

Marrocos (no grupo D, com África do Sul, Namíbia e Costa do Marfim)

À imagem do que aconteceu no Mundial da Rússia, a seleção marroquina continua a ser orientada pelo francês Hervé Renard, o que, a juntar ao facto de a base dos convocados ser a mesma, faz com que as alterações no futebol praticado não sejam muitas.

O sistema de jogo varia entre o 3x4x2x1 e o 4x3x3, sendo que o último tem sido o mais utilizado. Em traços gerais, a ideia de jogo da seleção marroquina mantém-se a mesma: futebol ofensivo, de toque curto e muita mobilidade, e muita agressividade no momento da perda da bola.

Deste modo, a criatividade e qualidade técnica de jogadores como Younés Belhanda e Hakim Ziyech – jogadores com mais capacidade para construir e criar pelo corredor central – são potenciadas da melhor maneira. Há ainda jogadores como Sofiane Boufal (médio ofensivo/extremo), En-Nesyri (avançado) e Khalid Boutaib (avançado), pelo que a seleção de Marrocos tem qualidade individual suficiente para tentar conquistar um troféu que já foge desde 1976.

JOGADOR CHAVE

Hakim Ziyech, internacional marroquino

Hakim Ziyech, internacional marroquino

Ryan Pierse - FIFA

Hakim Ziyech, 26 anos. O extremo/médio-ofensivo do Ajax vem de uma época de enorme qualidade, tendo marcado 21 golos e feito 24 assistências nos 49 jogos que disputou. Muito do que a seleção marroquina for capaz de fazer na CAN, a nível ofensivo, passará pela qualidade técnica e imaginação de Ziyech, seja no momento da criação seja no momento da finalização.

JOGADOR A SEGUIR

Achraf Hakimi, 20 anos. O lateral do Real Madrid, que continuará emprestado ao Dortmund por mais uma época, é um dos jovens com mais potencial da seleção marroquina. Pode atuar como lateral esquerdo ou direito, e em ambos os lados destaca-se pelo critério e pela qualidade técnica que oferece no momento ofensivo. Esta época realizou 28 jogos pelo clube alemão, tendo feito três golos e 7 assistências.

Costa do Marfim

A seleção da Costa do Marfim, orientada por Ibrahima Kamara, procurará no Egito conquistar a sua terceira CAN, quatro anos depois de ter vencido pela última vez e de ter quebrado um jejum que já durava há 23 anos.

Organizados preferencialmente em 4x3x3 ou 4x2x3x1, a seleção da Costa do Marfim procura jogar um futebol rápido mas atrativo, contando para isso com a qualidade técnica de médios como Seri, Gbamin e Kessié, e dos extremos Wilfried Zaha, Nicolas Pépé, Maxwel Cornet e Max Gradel, que além de serem muito evoluídos tecnicamente são também muito rápidos e desequilibradores no 1x1 ofensivo.

Como responsáveis máximos pelo momento da finalização, surgem Wilfried Bony (15 golos em 52 internacionalizações) e Jonathan Kodjia (8 golos em apenas 16 internacionalizações).

JOGADOR CHAVE

Nicolas Pépé, 24 anos. O extremo do Lille tem apenas 11 internacionalizações e quatro golos marcados pela seleção da Costa do Marfim, mas depois da época que fez ao serviço do clube francês (23 golos e 12 assistências), tudo indica que será a principal arma em termos ofensivos da sua seleção nesta CAN. Destaca-se pela qualidade técnica com que executa todas as suas ações, pela capacidade de resistir à pressão adversária e pela velocidade de execução.

JOGADOR A SEGUIR

Maxwel Cornet, 22 anos. O extremo do Lyon vem de uma época onde participou em 36 jogos, tendo feito 12 golos e cinco assistências. Na seleção da Costa do Marfim conta apenas com 10 internacionalizações e três golos marcados, mas a sua qualidade técnica no 1x1 ofensivo, velocidade e capacidade no momento da finalização, fazem dele um dos principais jovens a seguir da CAN 2019.

Tunísia (no grupo E, com Mauritânia, Mali e Angola)

O francês Alain Giresse conta apenas com cinco jogos como selecionador da Tunísia - assumiu o cargo em dezembro de 2018 – mas o futebol praticado tem agradado e os resultados têm sido positivos. Na CAN 2019 vão procurar repetir o feito de 2004, altura em que a conquistaram pela primeira e última vez.

Organizada preferencialmente em 4x2x3x1, a seleção da Tunísia tem como intenção praticar um futebol curto e apoiado desde zonas recuadas, procurando chegar ao último terço nas melhores condições. Para tal, conta no setor intermédio com jogadores com qualidade técnica e capacidade para ligar o processo ofensivo, como Ellyes Skhiri e Ferjani Sassi.

Na frente de ataque, além do goleador Wahbi Khazri, destacam-se os extremos Naim Sliti e Youssef Msakni, que através da sua qualidade técnica e velocidade conseguem criar bastantes desequilíbrios pelos corredores laterais.

JOGADOR CHAVE

Wahbi Khazri, 28 anos. O avançado do Saint-Étienne (que também atuou alguns jogos como médio ofensivo), terminou esta época com o seu melhor registo goleador da carreira, tendo marcado 15 golos, os mesmos que tem ao serviço da seleção da Tunísia em 44 internacionalizações. Destaca-se pela capacidade física e pela qualidade no 1x1 ofensivo e na finalização.

JOGADOR A SEGUIR

Ellyes Skhiri, 24 anos. O médio defensivo do Montpellier que esta época realizou 38 jogos (três golos e três assistências), tem 17 internacionalizações, e destaca-se pela qualidade com que liga a fase de construção com a fase de criação, principalmente ao nível do passe.

Camarões (no grupo F, com Gana, Benim e Guiné-Bissau)

Anadolu Agency

A seleção dos Camarões é a atual detentora do troféu, depois de em 2017 ter batido o Egito, por 2-1, na final. Agora, com Seedorf como selecionador, vão procurar repetir o feito de 2002, altura em que se sagraram bicampeões da CAN.

Organizada preferencialmente no sistema de jogo 4x2x3x1, a seleção dos Camarões não é propriamente uma seleção criativa do ponto de vista ofensivo, procurando, na maior parte dos ataques, combinações pelos corredores laterais para posterior cruzamento, ou ataques à profundidade.

Apesar de não serem uma seleção recheada de talentos, contam com alguns jogadores na frente de ataque que podem fazer a diferença, como são os casos de Choupo-Moting, Christian Bassogog, Joel Tagueu (jogador do Marítimo) e Karl Ekambi.

JOGADOR CHAVE

André Onana, 23 anos. O guarda-redes do Ajax é um autêntico monstro entre os postes – muita capacidade no 1x1 defensivo e capaz de deslocamentos muito rápidos – sendo também muito competente com os pés, como demonstrou esta época na excelente caminhada do Ajax, tanto a nível interno como na Champions. Tem apenas oito internacionalizações mas promete ser chave na caminhada dos Camarões na CAN 2019.

JOGADOR A SEGUIR

Pierre Malong, 23 anos. O médio do Mainz está agora a dar os primeiros passos na seleção dos Camarões (apenas 5 internacionalizações), mas, depois da época que fez ao serviço do clube alemão, tem tudo para ser uma das revelações da CAN 2019. Destaca-se pela agressividade nos duelos defensivos, pela velocidade e pela capacidade de sair para o ataque em condução.

Gana

A seleção do Gana é das mais tituladas da CAN - levantou o troféu por quatro vezes - mas já não o conseguem fazer desde de 1982. Agora, comandados por Kwesi Appiah, vão procurar voltar a sagrar-se campeões africanos, embora a tarefa não se preveja nada fácil, uma vez que a qualidade individual já não é a mesma de outros tempos.

Organizada preferencialmente em 4x3x3 (também usa o 4x2x3x1), a seleção ganesa procura sair a jogar de forma apoiada desde zonas recuadas, e tem nos médios Mubaral Wakaso e Thomas Partey os principais responsáveis por fazer a bola chegar ao meio-campo ofensivo. Apesar de não serem uma seleção tão forte como em anos anteriores, jogadores como André Ayew, Jordan Ayew e Christian Atsu podem fazer a diferença no último terço, através da sua qualidade técnica e velocidade.

Destaque também para a presença do avançado Asamoah Gyan, que voltou atrás na decisão de abandonar a seleção – dois dias depois de ter a comunicado – após uma conversa com o presidente do Gana.

JOGADOR CHAVE

Thomas Partey, 26 anos. O médio do Atlético de Madrid, que vem de uma época onde realizou 42 jogos, tem apenas 20 internacionalizações, mas já leva sete golos marcados. Destaca-se pelo equilíbrio que dá defensivamente, sendo também muito forte e agressivo nos duelos individuais. A nível ofensivo, não sendo um médio exuberante, é muito competente ao nível do passe.

JOGADORES A SEGUIR

Kasim Adams, 23 anos. O central do Hoffenheim, que esta época participou em 16 jogos, tem apenas cinco internacionalizações, mas poderá aproveitar a CAN para demonstrar que é um jovem com uma grande margem de progressão. Destaca-se sobretudo pelo que oferece no momento defensivo, uma vez que é muito rápido e muito forte no jogo aéreo.