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Há quem lhe chame o Mundial da vergonha e os jogadores começaram a fazer algo em relação ao Qatar

A qualificação para o próximo Campeonato do Mundo, em 2022, arrancou esta semana e os jogadores da Noruega e da Alemanha exibiram t-shirts com mensagens de alerta para os trabalhadores migrantes no Qatar, que a Amnistia Internacional diz serem 95% da força laboral no país - e alvo de constantes ameaças aos seus direitos humanos. Os futebolistas já escolhem não se preocupar apenas em jogar futebol

Diogo Pombo

TOBIAS SCHWARZ / POOL

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Os anos passam, os quadriénios cumprem-se e costuma chegar o dia confortável no sofá, em que o adepto ou interessado pela vida com bola nos pés do seu país entra no Campeonato do Mundo atina a televisão para ver como a seleção se vai safar no evento-rei da selva futebolística. No caso de Portugal, começou esta semana a trabalhar para estar no seu sexto Mundial seguido.

Por um parágrafo, consideremos o futebol como um produto e o adepto logo fica como o seu recetor final, uma cadeia onde no meio há tudo e mais alguma coisa e o elo comum entre direitos televisivos, publicidade, marketing, estádios e infraestruturas seja o dinheiro.

A FIFA escolheu o Qatar para receber a próxima edição do Mundial, muito antes de entender que porventura não fosse a melhor ideia realizar a prova como habitualmente, durante o verão do hemisfério norte, porque os termómetros derretem por essa altura no país do Médio Oriente e com eles sofreriam os jogadores que correm atrás da bola. Mexeu-no no costumeiro e deslocou-se o Mundial para entre novembro e dezembro, sempre com um ruído de fundo presente.

Em causa está a terra onde, pelos cálculos feitos pelo "The Guardian" morreram cerca de 6.500 trabalhadores migrantes desde 2010, quando se soube que lá seria o palco do próximo Campeonato do Mundo, um dos eventos desportivos mais rentáveis do planeta (o "New York Times" estimou que a edição de 2018 renderia €6.1 mil milhões em lucros para a FIFA).

E o barulho parece agora estar a querer inundar as salas onde, hoje em dia, são o único espaço possível para a mensagem chegar ao produto final.

Na quinta-feira, alinhados antes do jogo contra a Islândia, os 11 titulares da Alemanha despiram os casacos e mostraram uma t-shirt preta com letras garrafais brancas usada: "Human Rights", lia-se. "Direitos Humanos", as duas palavras para as quais a cara fechada, comum a todos, queria centrar a atenção das câmaras e de quem via a transmissão televisiva. "Defendemos os direitos humanos, independentemente da localização. Estes são os nossos valores", defendeu Joachim Löw, treinador da Alemanha, conquistadora de quatro Mundiais (1954, 1974, 1990 e 2014).

Os jogadores noruegueses, alinhados antes do jogo contra Gibraltar. Não há uma foto de frente disponível na base de dados da Getty Images

Os jogadores noruegueses, alinhados antes do jogo contra Gibraltar. Não há uma foto de frente disponível na base de dados da Getty Images

JORGE GUERRERO/Getty

Na quarta-feira, os jogadores da Noruega já tinham feito algo semelhante.

Uns e outros aproveitaram a ocasião e o simbolismo, executando o ato nos respetivos jogos inaugurais da fase de qualificação para o Mundial de 2022. A Federação Norueguesa de Futebol foi a primeira a anunciar essa intenção. "Trata-se de pressionar a FIFA a ser ainda mais direta e firme com as autoridades do Qatar, para imporem medidas mais rígidas", dissera o selecionador Ståle Solbakken, antes do jogo em Gibraltar, onde os jogadores vestiram t-shirts brancas com a mensagem: "Respeito dentro e fora de campo".

O capitão norueguês, Martin Odegaard, também dera conta de que "muitos jogadores" estavam "determinados em fazer alguma coisa", isto já depois de o Molde, clube que compete na I Liga do país, apelara publicamente à federação para boicotar a participação no Mundial, caso lograsse qualificar-se. Outras equipas fariam o mesmo e já foi noticiado que, em junho, a entidade discutirá o tema em assembleia-geral.

Os jogadores sobre quem tanto se ouve - às vezes, até dos próprios - que devem permanecer apolíticos, contidos nas mensagens e neutros nas posições em favor de se preocuparem apenas com jogar futebol, agiram em prol do que consideraram correto. E a FIFA considerou correto informar que "nenhuma ação disciplinar será tomada em relação a este assunto", declarando-se crente "na liberdade de expresso e no poder do futebol como força do bem".

Em dois dias seguidos viram-se estas mensagens sobre o que a Amnistia Internacional tem catalogado, nos últimos anos, como "o Mundial da vergonha": calcula que exista 1.7 milhões de trabalhadores migrantes no Qatar, o que representará perto de 95% da força laboral do país. A maioria serão oriundos do Nepal, Bangladesh e Índia.

Um trabalhador no estádio Al-Bayt, em Doha, no Qatar

Um trabalhador no estádio Al-Bayt, em Doha, no Qatar

GIUSEPPE CACACE/Getty

A Amnistia Internacional revelou, por exemplo, que vários trabalhadores migrantes que participaram na construção do estádio Al-Bayt, em Doha, não receberam qualquer ordenado durante sete meses.

A organização dedicada aos direitos humanos tem detalhado a exploração destes trabalhadores, revelando "mentiras" e promessas não cumpridas em relação a salários, além do atraso no seu pagamento; expondo condições de alojamento "inseguras e sobrelotadas"; relatando situações em que os passaportes são confiscados e denunciando "ameaças e intimidações" cometidos pelos empregadores.

Esta quinta-feira, um porta-voz da organização do Mundial no Qatar, citado pela agência "Reuters", garantiu que sempre houve "transparência sobre a saúde e segurança dos trabalhadores", dizendo que houve "três mortes relacionados com trabalho desde que as [obras de] construção começaram em 2014".

No dia em que a bola ganhou vida na qualificação para o primeiro Campeonato do Mundo que acontecerá no Médio Oriente, a Amnistia Internacional apelou, em comunicado, à FIFA para "viver de acordo com as suas responsabilidades" e "prevenir, mitigar e remediar os riscos para os direitos humanos" relacionados com a prova.

Os jogadores da Noruega e Alemanha escolheram agir e mostrar, publicamente, que não se estão a limitar a jogar futebol. Em novembro de 2020, a Amnistia Internacional escreveu a 27 federações nacionais de futebol com um apelo - "assumam um papel ativo para garantirem os direitos humanos dos trabalhadores migrantes". E consciencializem os adeptos de que também está em causa no Mundial de 2022.