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Bruno de Carvalho: uma candidatura de carisma, wi-fi, newsletters e estátuas

O presidente destituído quer voltar a ser o presidente eleito, embora não haja a certeza de que possa ser candidato a presidente. Ainda assim, apresentou-se em conferência de imprensa e repisou os seus méritos na gestão que cessou quando foi demitido com 71% de votos contra a sua continuidade: mais sócios, mais modalidades e mais títulos nas modalidades, e, claro, a reestruturação financeira

Pedro Candeias

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Bruno de Carvalho tem queda para o dramatismo e para as grandes entradas e por isso ninguém se admira que a conferência de apresentação da sua candidatura tenha começado assim: um escurecer de luzes, uma música meio épica, um púlpito iluminado com um fotografia do próprio atrás dele e o lema "Leais ao Sporting"; e um vídeo tipo motivacional com uma espécie de best of dos seus tempos de presidente.

E, quando as luzes se ligaram, ouviram-se aplausos e apoios, viu-se um segurança a trazer BdC ao palanque e alguns abraços a sócios. Seguiu-se o discurso com um crachá redondo na lapela direita e um pin do Sporting na da esquerda.

Um candidato a preceito.

"Boa noite a todos", disse Bruno de Carvalho, pondo os óculos no rosto, pegando um molho de folhas que passou a ler. "Sou candidato à presidência do Sporting Clube de Portugal. Tomei esta decisão após uma reflexão sobre os últimos cinco anos e sobretudo sobre estes últimos meses". Falou, então, de erros cometidos que não podem repetir-se e de amor ao clube, um amor que só ele, que tem "carisma e integridade", o tem e pode oferecer.

Invulgarmente rápido na leitura do documento, Bruno de Carvalho disse querer "um futuro apoiado por todos", apostando, por isso, numa equipa forte para o Conselho Diretivo, onde a comunicação iria ter um papel importante. Apresentou a composição da Mesa da Assembleia Geral, do Conselho Fiscal e Disciplinar caso venha a ser eleito, constituída peles nomes que estiveram com ele nos últimos tempos - exceto Elsa Judas, Rui Caeiro, José Quintela, Carlos Vieira, etc.

Dito de outra forma: caso venha a ser eleito em eleições nas quais não está garantida a legalidade da sua candidatura. Recorde-se que BdC está suspenso e proibido de entrar nas instalações do clube e às voltas com um processo disciplinar.

Sobre isso não falou, nesse momento, nem tão pouco ao que aconteceu em Alcochete e que terá precipitado a queda irreversível nos índices de popularidade - e de tolerância a um presidente sui generis mas que mostrava obra feita .

Em vez disso, BdC referiu-se aos méritos dos seus cinco anos à frente do clube, entre 2013 e 2018, que deviam ter sido oito, porque perdeu as de 2011, segundo ele, de forma menos clara: o aumento exponencial do número de sócios, que quer reforçar, por exemplo, através da "captação de sócios no estrangeiro" ou pela criação de "mais Lojas Verdes".

Aliás, todo o seu discurso foi virado para os sócios, propondo mudanças objetivas, que vão da forma como se entra no estádio ao smart stadium, substituíndo os écrãs ultrapassados por "outros, de nova geração". E tecnologia, muita tecnologia.

"Com isto, vamos ganhar cerca de 900 lugares no estádio e vamos ter o maior écrã outdoor do país e rede wi-fi gratuita para todos". Viva, gritaram os apoiantes, enquanto Bruno de Carvalho apresentava maquetes do estádio remodelado na mão esquerda.

Prosseguiu: "o envio de uma newsletter gratuita, reforço do 'Dia de Sporting' com um bilhete que dá entrada a dois recintos e no Museu do Sporting". E aqui entrou o autoelogio do costume, embora merecido, à edificação do pavilhão para as modalidades amadoras. "O Pavilhão João Rocha continuará sempre a ser do Sporting do Clube Portugal. Fomos campeão de voleibol logo no primeiro ano. Fomos campeões no hóquei, título que nos fugia há trinta anos. No andebol parámos a hegemonia de um nosso rival e fomos bicampeões. E, desculpem puxar os galões, nós sagrámo-nos tricampeões de futsal. Este foi o melhor ano de sempre das modalidades do Sporting Clube de Portugal".

Às tantas, BdC largou uma novidade: tentar trazer o basquetebol e o râguebi de volta ao clube. O nosso objetivo é ultrapassar o Barcelona ao nível de títulos". Melhor do que tudo isso: "queremos ganhar um título europeu no futebol".

Obviamente, palmas. E palmas. E mais palmas.

Em seguida, Bruno de Carvalho repisou os argumentos que tanto pisou quando era presidente e se sentia atacado: a reestruturação financeira. Sem esta, diz ele, o Sporting corria um risco grave, que incluía a perda de todas as modalidades, exceto, "talvez, o futsal".

Discorreu o jargão económico financeiro e os números e os milhões como uma metralhadora em ritmo de cruzeiro. "Queremos manter esta estabilidade como? Com este rigor, para que a SAD fique nas mãos do Sporting Clube de Portugal, o investimento na equipa de futebol através de um acordo já celebrado com a banca."

[A esta hora, o Inglaterra-Croácia acabava empatado (1-1) e o jogo preparava-se para ir a prolongamento. Bruno de Carvalho também não iria parar]

"Vamos continuar a lutar por Peyroteo, Francisco Stromp, o cartão Game Box, recentrar o ADN dos sportinguistas. E fazer uma estátua de homenagem aos cinco violinos. Temos de continuar a honrar a história do Sporting."

Para o fim, o slogan que é um lema e que levantou os apoiantes: "Feitos de honra. Leais ao Sporting".

E foi assim que Bruno de Carvalho se reapresentou ao mundo.