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Frederico Varandas: "Posso ser o general mais competente do mundo, mas, se os meus soldados não forem solidários, perderemos as batalhas"

Depois do ato eleitoral mais concorrido de sempre, Frederico Varandas, na primeira entrevista que concedeu como presidente dos leões, revelou, à "Sporting TV", que já falou com José Peseiro, que vai reunir, esta segunda-feira, com toda a estrutura do futebol, e que nada se ganhará se não houver "um grupo saudável"

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RODRIGO ANTUNES/LUSA

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O dia das eleições

"Foi um dia especial, de grandes emoções. Sempre acreditei que a minha equipa sairia vencedora. Sou uma pessoa muito determinada e sigo muito o meu instinto, em tudo na vida. Não é arrogância, sou um homem de fé e de convicções, e sabia que ia vencer. Tem grande significado para mim.

Sou Sporting, nasci Sporting, cresci Sporting, mas não sou o Sporting. O meu dever é servir o Sporting da melhor forma possível e colocá-lo num patamar cada vez melhor. Obviamente, isto mexe com as emoções, porque não é um simples trabalho. Quando era diretor clínico já não sentia que isto era um trabalho, o Sporting faz parte do meu coração.

Sinceramente, nunca imaginei, nem tive o desejo pessoal, de ser presidente do Sporting Clube de Portugal. Era a pessoa mais calma da candidatura. Fui visitar o meu avô, que está num lar, o primeiro grande leão da minha família, e disse-lhe que ia ser presidente do Sporting e que não o ia desiludir. Fui informá-lo porque sabia que ia vencer."

Quando soube que tinha sido eleito

"Estava fortemente convicto que ia vencer, mas, mesmo nessa altura, quando toca o telefone e o Jaime Marta Soares me dá os parabéns, a dizer que era o futuro presidente do Sporting, o coração disparou. Não consigo explicar... Caiu-me logo o peso da responsabilidade, não senti vontade de dar saltos. A minha cabeça começou logo a pensar no que tinha de fazer.

Tudo o que tenho feito na vida tem-me acontecido demasiado cedo - diretor clínico do Vitória de Setúbal, diretor clínico do Sporting, presidente do Sporting. Porque sigo sempre o coração, já podia ter tido melhores condições financeiras, mas nunca fui por aí. Sou muito determinado. É difícil pararem-me e dificilmente não chego lá.

A missão do cargo

"Não vou misturar o Sporting com a minha vida pessoa. É a missão mais importante da minha vida, não tenho a menor dúvida de que estou preparado. Há mais uma oportunidade de abrirmos uma nova página e liderarmos o futebol português - em princípios éticos, e também desportivamente."

Represento o Sporting a cada minuto do dia. Tenho de ter maior responsabilidade e sentido de estado para não desiludir qualquer sócio. Não tenho a menor dúvida de que vou errar, e de que posso falhar, mas posso dar uma garantia - vou fazer tudo, tudo, para não desiludir os sócios."

O futebol e as reuniões a ter

"Não vou mentir, dormi muito pouco. Mal acordei, de manhã, falei com o treinador e com o secretário técnico, e depois organizei o dia de amanhã [segunda-feira], à tarde com reunir com o treinador [José Peseiro] e toda a estrutura do futebol.

Conheço toda aquela estrutura. Sei as condições ideais para trabalharem. Eles foram fundamentais para aguentarem o barco à superfície e todos temos de estar agradecidos a essa estrutura que, enquanto não havia uma direção realmente eleita, foram inexcedíveis.

O Sporting é muito mais do que o clube que eu gosto. Eu arrepio-me. Em sete anos como diretor clínico do Sporting uma pessoa habitua-se e pode haver a tendência para se deixar de dar valor às coisas. Nunca me aconteceu. O ano passado, quando o autocarro se aproximava do estádio, num jogo difícil, fora, ficava arrepiado e virava-me para os jogos e dizia: 'Estão a ver o que isto é?'."

"Vou agradecer ao treinador por receber o clube em primeiro lugar do campeonato. A ele e a toda a estrutura técnica, ao motorista, aos seguranças, aos fisioterapeutas, toda a gente. É extremamente importante termos um grupo saudável para triunfar. Assumir o futebol é isto, é garantir que o grupo seja saudável, desde o roupeiro ao capitão e ao team manager."

A unidade de performance que pretende criar

"Vamos organizar a Academia com cabeça, tronco e pernas. O futebol é fácil, na formação vai demorar mais tempo a ter as pessoas certas e implementar valores e coordenação. Temos que investir, porque a Academia, sozinha, não chega para o que precisamos."

A sua equipa e a exigência

"Há dois pré-requisitos que exige a toda a gente: lealdade e competência. É isto que quero para o Sporting. Vou ser muito exigente, como sou comigo mesmo, se calhar até demasiado. Vou exigir a todos, sejam vice-presidentes, jogadores ou atletas. Mas, também, dando-lhes condições para lhes poder exigir.

Ou seja, dar-lhes tranquilidade, segurança e confiança para poderem fazer o seu trabalho."

A medalha de vice-campeão da Taça, que mostrou na noite da vitória

Guardei a medalha dentro de uma gaveta, numa mesa de cabeceira. Ontem, quando saí de casa, por volta das 23h, para ir para a minha sede de campanha, tirei-a de lá e pu-la no bolso. Porque estou aqui graças aquela medalha. Quando formos campeões nacionais, aquela medalha vai para o museu juntamente com o troféu. Porque representa a gota de água que me levou a estar aqui.

Da mesma maneira que fui ter com o meu avô e disse que ia ser presidente do Sporting, também sei, e sinto, que vou ser campeão nacional com o Sporting."

As fraturas dentro do clube

"Começámos a vencer o pior adversário que já tivemos, que é um Sporting fragmentado. A liderança mais forte é através do exemplo. Vivo muito bem com a crítica, quero um Sporting livre. O que não quero é controlar aquele ou outro comentador do Sporting. Defendo que haja direito à opinião. Durante a campanha, aprendi e cresci com as críticas que me foram feitas.

As palavras para João Benedito

"Tenho ainda mais responsabilidade por o João Benedito ter tido 36% dos votos. O João vai sempre fazer parte da história do Sporting e o Sporting precisa dele. O Sporting precisa de ter os seus heróis dentro de casa. Há-de ser sempre uma grande figura do clube - eu serei um presidente que está apenas de passagem."

Uma mensagem para os sócios

"Peço aos sportinguistas para vencermos, de vez, o nosso maior adversário, que é a fragmentação do Sporting. Não digo isto por dizer. Temos todas as condições para bater os nossos rivais, todas, mas a primeira é sermos unidos. Posso ser o general mais competente do mundo, mas, se os meus soldados não forem solidários, perdemos sempre as batalhas.

Vem aí uma nova era, confiem em mim e na minha equipa. Preciso de todos vocês porque, todos juntos, é muito difícil pararem-nos. Peço que encham os pavilhões e os estádios, porque o Sporting vai crescer e vai galgar, obstáculo atrás de obstáculos, até ficarmos no primeiro lugar.

  • Frederico Varandas ganhou com 42,32% dos votos: "É um momento histórico para mim"

    Sporting

    Numa votação histórica em Alvalade, o antigo diretor clínico do Sporting foi eleito o 43.º presidente do clube, batendo a concorrência de João Benedito (36,84%) que, ainda assim, teve mais sócios a votar nele do que em Varandas. A diferença esteve na antiguidade da filiação que garante mais votos. No momento de subir ao palco, Varandas agradeceu aos candidatos concorrentes, pediu a Benedito para não se afastar do clube, e deixou uma promessa, ao retirar a medalha de vice-campeão da Taça de Portugal: "Vou juntar a medalha de campeão nacional. Prometo"