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As respostas que se dão sem abrir a boca

Antes do jogo frente ao Sporting, Abel Ferreira não quis falar abertamente sobre um dos assuntos da época: é ou não o Sp. Braga candidato ao título. Não foi preciso. O que o treinador dos minhotos não disse em conferência de imprensa, disse em campo, ou ao lado dele. Porque o triunfo do Sp. Braga por 1-0 frente aos leões também é o triunfo de um treinador que soube ler o jogo no meio da anarquia, dizendo-nos assim, sem palavras mas em ações, o que vale esta equipa

Lídia Paralta Gomes

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/EPA

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Há frases que se dizem e que nada querem dizer. Ou então querem dizer tudo. Ou então, servem só para mudar de assunto, ou para baralhar ainda mais.

Até começar o Sp. Braga-Sporting, confesso que não sabia muito bem qual destas opções estaria na cabeça de Abel Ferreira quando na antevisão ao encontro com os leões, questionado se os minhotos estavam no grupo dos candidatos ao título, atirou a seguinte afirmação aos jornalistas:

Vocês são pessoas inteligentes, conhecedoras da história. E por isso não vou dar essa resposta.

Hum. Ora aí está uma frase críptica. Mas agora que terminou o jogo na Pedreira, agora que o Sp. Braga continua invicto e líder do campeonato ao lado do Benfica, após uma vitória por 1-0 frente aos leões, agora que tudo isso aconteceu eu recordo a frase e acredito que o que Abel nos queria dizer era “esperem para ver em campo”.

E nós vimos, em campo vimos as respostas que se dão sem abrir a boca. E que há jogos que valem mais que mil conferências de imprensa. O Sp. Braga, sim, é candidato ao título, sem anúncios, sem frases bonitas, com pragmatismo e competência, numa vitória que teve muito de treinador.

Teve dedo de treinador porque numa altura em que o jogo pendia entre o anárquico e o exasperante, ali pelos 62 minutos, Abel apostou em Eduardo Teixeira, brasileiro que só tinha jogado na 1.ª ronda. Cinco minutos depois de entrar, Eduardo fez o cruzamento que encontrou Dyego Sousa demasiado sozinho na área do Sporting e o ponta de lança, oportuno, meteu o pé quando meter o pé era tudo o que era preciso para que a bola fosse para as entranhas da baliza de Salin.

Ora aí está o primeiro banho de realidade do Sporting esta época

Ora aí está o primeiro banho de realidade do Sporting esta época

HUGO DELGADO/LUSA

Eduardo, como disse o seu treinador no final, não deu só aquele golo, que valeu nova vitória do Sp. Braga frente ao Sporting na Pedreira por 1-0 - já assim tinha sido há uma época. Deu definição, a organização que estava a faltar e que o Sporting nunca teve. Bruno Fernandes está uns furos abaixo do jogador do ano passado, Battaglia e Gudelj não são exatamente criadores. E ao Sporting está a faltar criatividade.

Criatividade e faro. Sem Bas Dost, o Sporting é uma equipa sem golo, que deixa de ser viperina e que tem de confiar demasiado nas forças da natureza que são Raphinha e Jovane Cabral - já tinham sido eles a resolver frente ao Qarabag e esta noite, na Pedreira, voltaram a ser os mais inconformados. O brasileiro teve nos pés duas das melhores oportunidades dos leões, dois poderosos obuses aos 16 e aos 82 minutos. E Jovane, mais uma vez, mexeu com o Sporting, deu sentido de baliza e aos 88’ esteve quase a fazer aquilo que tem feito sempre que Peseiro lhe tem dado minutos: criar oportunidades, marcar ou dar a marca. Desta vez, não resultou.

A viagem à Pedreira é muito possivelmente o primeiro banho de realidade do Sporting este ano, um banho de realidade que, diga-se, talvez muitos pensassem que chegaria antes. Mas aquele lançar de Luc Castaignos para virar o jogo diz muito das opções (ou falta delas) que os leões têm. Questões de timing à parte, o que parece certo é que por estes dias o Sp. Braga é uma equipa mais madura que o Sporting, mais capaz de reagir e encontrar soluções.

E é por isso que, quer queiram, quer não, com frases mais ou menos crípticas de Abel, o homem que adora ganhar ao Sporting (venceu em Alvalade no seu primeiro jogo pelo Braga), os minhotos são candidatos ao título. Já podemos falar disso abertamente, não podemos?