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Invasão a Alcochete: Geraldes diz que foi Bruno a alterar a hora do treino, Bruno diz que foi Jesus e Jesus diz que foi Bruno

Depoimentos de André Geraldes e de Bruno de Carvalho sobre a alteração do horário do treino da equipa de futebol no dia da invasão da Academia de Alcochete são contraditórios. O treino era para ser realizado às 10h mas acabou por ser adiado para as 16h. A invasão aconteceu uma hora depois

Pedro Candeias e Hugo Franco

José Coelho/Lusa

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A trama sobre quem sabia o quê sobre a invasão da Academia de Alcochete adensa-se depois da detenção do oficial de ligação dos adeptos do Sporting, na última terça-feira em Lisboa.

No seu depoimento ao juiz de instrução criminal do tribunal do Barreiro, Bruno Jacinto garantiu ter avisado André Geraldes, na época team manager da equipa de futebol leonina, que um grupo de adeptos ia a Alcochete falar com os jogadores e equipa técnica.

Ao "Correio da Manhã" e ao desportivo "O Jogo", Geraldes confirma que recebeu os avisos de Jacinto mas contra-atacou: "Quem mudou a hora do treino foi Bruno de Carvalho. Foi isso o que me comunicou o treinador Jorge Jesus."

O treino era para ser realizado às 10h mas acabou por ser adiado para as 16h. A invasão ao centro de estágio do Sporting aconteceu às 17h.

André Geraldes - que no mesmo dia do ataque realizado por meia centena de elementos da Juventude Leonina se tornou arguido no processo "Cashball" por um suposto saco azul em Alvalade - acrescentou ao desportivo: "Não relevei a mensagem [de Bruno Jacinto] e até fiquei admirado. Não sabia de nada. Estava focado noutras coisas."

No mesmo jornal, uma fonte próxima de Bruno de Carvalho reagiu aos comentários de André Geraldes, passando a responsabilidade da mudança do treino para Jorge Jesus, o que contraria a versão de André Geraldes.

A chave deste mistério pode estar no antigo treinador dos leões, atualmente a treinar o Al-Hilal, na Arábia Saudita.

E, então, fonte próxima de Jorge Jesus garante à Tribuna Expresso que foi o antigo presidente do clube a avançar com o horário do treino, coisa que fez após a reunião de segunda-feira em que lhe disse que se encontrava despedido informalmente. No dia anterior o Sporting perdera o segundo lugar no campeonato para o Benfica depois da derrota na Madeira.

Jesus perguntou a BdC se seria ele, o treinador, a dar o treino no dia seguinte, terça-feira, que estava marcado para as 10h da manhã, e BdC respondeu-lhe que o melhor seria dar o treino à tarde, pois teria de reunir-se com os advogados para ultimar o processo disciplinar.

Bruno de Carvalho no Campus da Justiça

O inquérito-crime à invasão da Academia do Sporting tem neste momento 38 arguidos, todos eles em prisão preventiva. São suspeitos dos crimes de sequestro, ameaça agravada, ofensa à integridade física agravada, incêndio florestal ou terrorismo.

De acordo com a investigação ao caso, Jorge Jacinto telefonou ao diretor de operações da Academia de Alcochete às 16h55 de 15 de maio, ou seja, 14 minutos da invasão do centro de estágios do clube leonino feita por meia centena de adeptos da Juve Leo.

Nessa chamada, Bruno Jacinto revelou a Ricardo Gonçalves, responsável pela segurança da Academia, que elementos da Juventude Leonina iam a caminho "para falar com a equipa".

Pouco tempo depois, Ricardo Gonçalves contactou o comandante do posto da GNR de Alcochete para o avisar da invasão. De acordo com os dados oficiais da GNR, os militares foram alertados às 17h06, chegando à Academia às 17h20. De acordo com os autos a que o Expresso teve acesso, os jogadores e o staff do Sporting foram surpreendidos com a entrada na Academia do grupo de encapuzados.

Sobre Jacinto, que terá ido posteriormente a Alcochete naquela tarde de 15 de maio, recaem também as suspeitas de ter encoberto alguns adeptos para que não fossem apanhados pelas autoridades à saída do centro de estágio do clube.

Já na última semana, e mais concretamente no dia seguinte ao depoimento de Bruno Jacinto no tribunal do Barreiro, o ex-presidente do Sporting resolveu ir até ao Campus da Justiça, em Lisboa, com o objetivo de ser ouvido voluntariamente sobre este processo pelo Ministério Público. Não teve êxito. Nenhum procurador quis ouvir o que tinha para dizer.