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É a vida de Nani: tudo o que vai, volta

Foi, provavelmente, o melhor jogo do Sporting esta época: o capitão marcou dois golos à equipa contra a qual fizera o primeiro da carreira, há 13 anos, os leões ganharam (3-0) ao Boavista e já tentaram coisas coisas que não apenas o cruzamento para a área

Diogo Pombo

MARIO CRUZ/LUSA

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Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Pela rima, originalidade e invenção, é um ditado bonito, do qual peço que se lembrem uns parágrafos mais abaixo.

Porque, neste, apelo à vossa recordação do que sucedeu há 13 anos, quando um rapazito magro, borbulhento na cara, bonito pela ingenuidade e a ousadia e o arrojo com que encarava pessoas em campo, desafiou o mundo. A bola chegou-lhe e ele arrancou, surpreendido pela postura do corpo, ao início, com os buracos que tinha à frente. Espaços a que acorreram três adversários, à vez. Ultrapassou-os com o embalo e a bola rente ao pé direito se abeirar da área.

E lá chegado, ele rematou e essa bola entrou e o miúdo catapultou-se para a primeira pirueta festiva da carreira, contra o Boavista. Um golo inventado na relva, com técnica, improviso, ataque ao espaço e, no fundo, com uma pitada do tipo de genialidade que resolve muitos problemas.

O primeiro golo de Nani entrou na baliza do Boavista e muitas voltas ao mundo depois, o 114º golo do trintão e maior em músculo, rodagem e títulos, também. Mas os pés do português não tocaram na bola, nem na relva, porque saltaram para a cabeça desviar um cruzamento de Fredy Montero, da esquerda. Mais um salto mortal, agora motivado por alguém meter a bola na área para que fosse rematada.

Uma jogada simples e batida - e repetida.

O Sporting marcou com o décimo sexto cruzamento que forçou sobre a área, em meia hora de um jogo mais passes a serem tentados para os últimos 30 metros do campo, diretamente, em vez de pararem nas portagens dos médios. Os leões massacravam a área adversária pelo ar, preocupando-se em cruzar a bola à primeira oportunidade distante que tinham, mesmo que quanto maior seja a distância, menor probabilidade haja em acertar no sítio que se quer.

Mas o Sporting ignorou a lógica do óbvio e dificultou a própria vida, caindo na tentação mais fácil de cruzar toda a qualquer bola em que Acuña tocasse, muitas das que paravam em Bruno Gaspar e até bastantes das que encontravam Nani. A equipa forçou-o como antídoto para o susto que apanhou com o remate ao poste de Mateus, logo no arranque, mais os pequenos arrepios com que os passes em profundidade de Fábio Espinho iam explorando os canais entre lateral e central.

Ao intervalo, a equipa de José Peseiro tinha vinte cruzamentos feitos, no mesmo jogo algo pachorrento, com intensidade q.b. e jogadas só um pouco trabalhadas quando Nani, Bruno Fernandes e Montero sentiam saudades uns dos outros.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Mas, saídas do balneário, as duas equipas mudaram. O Boavista quis tentar recuperar bolas na metade do campo contrária, arriscou mais na pressão e, com isso, abriu espaços. O Sporting, vendo esses metros de relva descobertos, deu mais velocidade à bola e, sobretudo, dividiu-a por mais passes.

Essa multiplicação, que também pode ser descrita como uma equipa a querer trabalhar mais as jogadas, formando triângulos de jogadores perto da bola para libertar alguém, fez com que, nos momentos em que, na primeira parte, cruzaria logo para a área, trocasse mais dois ou três passes e tirasse mais um adversário da jogada para quem fosse cruzar tivesse um pouco mais de tudo.

De espaço, de tempo para levantar a cabeça e de opções para onde dirigir a bola. A escolha de Diaby em esperar pelo fuga de Montero aos centrais originou uma tabela, que resultou num cruzamento - mais um, mas rasteiro, para trás, pensado para encontrar o pé direito de Bruno Fernandes. Do médio saiu uma bola disparada ao ângulo superior direito, onde quase voltaria acertar, num livre que acabaria na barra.

O 2-0 deu a norma para o 3-0, que teve um ressalto na área pelo meio, mas foi inventado com trocas de bola curtas e pensadas. Nani chegou aos 115 golos na carreira e sorriu como o rapazito que se riu há 13 anos.

Gudelj respirou mais com a bola, dando-a e recebendo-a de volta graças aos mais metros que percorreu; Coates e Mathieu já contrariam um pouco os chutões; Bruno Gaspar chegou mais cedo aos lugares que arrastam marcações; Bruno Fernandes já não se limitou a chegar à área.

Houve, no fundo, mais futebol e mais bem jogado. E houve os remates de Diaby, Mathieu e Bruno Fernandes que não surgiram de bolas bombardeadas para a área e podiam ter entrado na baliza.

O Sporting já só fez 12 cruzamentos na segunda parte e a água mole que tanto bate em pedra dura, até que fura, desconstrói-se assim - é verdade que a persistência compensar, mas compensará sempre mais se for evoluindo e adaptando-se às circunstâncias.

A provável melhor exibição do Sporting esta época surgiu quando a equipa tentou fazer mais do que os cruzamentos com que vinha a persistir. Quer coincida, ou não, com um círculo na vida de Nani a fechar-se, essa diversidade de jogo será sempre melhor para a equipa.