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“Eu procuro o melhor treinador e Peseiro convive bem com isso”. Na íntegra, a entrevista ao Expresso em que Varandas ‘despediu’ Peseiro

Frederico Varandas recebe-nos no seu gabinete cinco minutos antes da hora, coisa rara no futebol português. Ele diz que com ele será sempre assim. “Não gosto de esperar nem de fazer esperar e se alguém se atrasar meia hora para uma reunião, eu saio. Já aconteceu aqui.” A questão do tempo foi o tema incontornável nesta longa conversa com o novo presidente do Sporting. Esta entrevista foi publicada na edição de 28 de outubro do Expresso

Pedro Candeias e Tiago Miranda

FOTO TIAGO MIRANDA

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Nos últimos seis anos, o Expresso já entrevistou três presidentes do Sporting neste mesmo lugar. O que é que isso diz do clube?
Isto é como muita gente diz — que o clube é ingovernável. Quando me candidatei, muitos amigos e gente do Sporting me disseram que eu ia candidatar-me ao lugar de governação mais difícil do país, ainda mais do que o posto de primeiro-ministro. O número de presidentes que sai constantemente é um sinal de instabilidade e de que é muito mais difícil de ganhar do que nos outros lados. Mas eu acredito que vou mudar isto.

Sendo que o último presidente a cair, caiu numa AG destitutiva (Bruno de Carvalho) e o penúltimo (Godinho Lopes) demitiu-se para evitar uma AG destitutiva.
Ponho-me de fora, como sportinguista, e digo isto, que até é um pequeno contrassenso: os sócios do Benfica ou do FC Porto jamais aguentariam estar 18 anos sem ganhar títulos; o sócio do Sporting, que é muito leal ao clube, é menos leal às suas direções e é muito mais exigente do que o dos outros clubes. Dou-lhe um exemplo concreto: se o caso ‘e-Toupeira’ fosse no Sporting... pfff... a direção já não tinha condições para continuar.

O Sporting também é um clube autofágico: há sempre ex-dirigentes ou sócios mediáticos que aparecem para dizer qualquer coisa.
O Sporting já sofreu muito, muito para alimentar o ego de pessoas que usam e abusam do clube para se manterem vivos na comunicação social. Mas, no fundo, nada dão ao clube e isso é uma característica do Sporting.

Um mês depois das eleições, José Maria Ricciardi, que foi candidato derrotado, disse que — e passo a citar — esta direção “não tinha capacidade”.
Nem sequer vou dar atenção a quem não merece, que até foi o único a não me dar os parabéns, mas é irrelevante. Desvalorizo completamente e não darei tempo de antena para esse espetáculo. O primeiro passo é tornar o Sporting imune a essa fogueira e a própria comunicação social também está numa espécie de ressaca, estranha este vazio mediático. Se eu não falo durante duas semanas é estranho, mas já repararam nos outros clubes se os respetivos presidentes falam? Não.

O protagonista desse “espetáculo” é Bruno de Carvalho?
Sim... Um espetáculo diário, de exposição constante, que escondeu muitas coisas que se estavam a passar nos nossos adversários. Tem de haver bom senso, vá lá, sentido de Estado. Não contem comigo para alimentar este circo.

Vamos ao presente. Tem muitos dossiês em mãos.
É preciso um contexto. Nunca fiz juízos de valor sobre a Comissão de Gestão (CG), porque eles fizeram o possível em condições muito difíceis. Mas, quando a CG saiu, o clube continuou numa situação difícil: o empréstimo obrigacionista para pagar aos seus investidores em dois meses estava a zero; as rescisões por resolver a zero; as dificuldades de tesouraria mantinham-se.

Ordenados?
Não, tínhamos os ordenados em dia, mas havia um prémio prometido pela CG ao plantel que tivemos de pagar.

Que prémio era esse?
[sorriso] Um prémio, digamos, para miniobjetivos.

Continue.
O empréstimo obrigacionista está montado e intermediado pelo banco Montepio, com cerca de €30 milhões para emitir em dezembro. E o empréstimo anterior, cujo pagamento já fora adiado, iremos pagar tudo aos investidores na data prevista.

Com o dinheiro da venda de Patrício?
[sorriso] E com algum rigor. E também lhe digo que vamos apresentar resultados líquidos muito interessantes do nosso primeiro trimestre no final do mês. Com isso, teremos capitais próprios positivos.

Quais os valores do negócio?
O Wolverhampton paga €18 milhões pelo Rui Patrício e o Sporting encaixa €14 milhões; os outros €4 milhões serão para os intermediários, sendo que a Gestifute, que era credora de €7 milhões do clube, abdicou de três. E o Rui abdicou de €1 milhão, do ano de contrato que restava do Sporting, e de €5 milhões, pelo prémio de assinatura. Não foi fácil e não posso explicar tudo.

Explique o que puder.
Não posso revelar as fragilidades que o Sporting tem.

Sendo que a fragilidade óbvia é a falta de dinheiro.
Sim, mas há que ter engenho. Nenhum jogador é maior do que o Sporting e nenhum grande clube quer entrar em litígio com o Sporting. Esta é a minha linha filosófica [risos].

É assim que está a tentar convencer o Atlético de Madrid a pagar por Gelson?
O Rui Patrício está fechado, agora vamos ao Gelson. Já houve conversas (sabe que isto são vários rounds).

Tem a ajuda de Jorge Mendes?
Sou muito pragmático e não me interessa nada do que ficou para trás, negócios Gestifute. Sim, o Jorge Mendes ajudou neste caso e os interesses do Sporting ficaram defendidos.

Voltando a Gelson…
Acredito que o Gelson será bem resolvido, tal como o caso Rui Patrício. Tenho um valor na cabeça, que não digo, e acho que se vai resolver a bem. E se não se resolver a bem, resolver-se-á a mal. E, no caso do Gelson, estou tranquilo se tiver que ir a tribunal. No Patrício tínhamos algumas fragilidades.

A defesa de Gelson tem fragilidades?
Está tudo nos advogados.

Os que rescindiram tinham razão?
O clube ainda não está preparado para falar sobre isto. É como o luto. Quando tudo ficar resolvido, eu explicarei o que aconteceu. É injusto pôr no mesmo pacote os jogadores que rescindiram.

Rui Patrício tinha então razão?
Não é isso que estou a dizer.

O Frederico estava lá no dia da invasão a Alcochete quando era diretor clínico do Sporting. E o Frederico, depois, dispensou o oficial de ligação aos adeptos (OLA), Bruno Jacinto. Porquê?
[sorriso] Para pertencer à minha equipa, um tipo tem de ter duas características que não negoceio: competência e lealdade. E para o lugar do Bruno Jacinto, tinha uma pessoa mais competente e leal.

O advogado de Bruno Jacinto diz que Bruno de Carvalho devia estar preso.
Não sou polícia, nem juiz. Confio plenamente na Justiça portuguesa. Há muita gente que me pergunta: porque é que vocês não contam o que sabem e dizem o estado em que está o clube? Esse é o caminho mais fácil e isso não é defender o clube.

Decorre a auditoria de gestão?
Sim, e os resultados serão conhecidos lá para janeiro.

E se houver um buraco?
Se houver um buraco, há consequências, mas há buracos que nascem da incompetência e outros que nascem do dolo. São coisas diferentes.

Desportivamente, a equipa de futebol tem sido contestada pela qualidade de jogo. Concorda com os assobios?
Digo-lhe isto assim: sei o que quero, desportivamente, para o Sporting. O clube tem de se assumir como favorito em 32 jornadas da Liga. No Sporting que eu idealizo a equipa tem de jogar melhor que o adversário pelo menos em 32 jornadas do campeonato — pode nem ganhar, mas tem essa obrigação.

E então?
É assim que o Sporting será. Hoje, não é. Sinto-me satisfeito com a qualidade do jogo? Não. Nem eu, nem o grupo, nem o treinador.

Qual a explicação?
O mercado fecha a 31 de agosto e esta direção não teve intervenção alguma. E 80% do sucesso de uma equipa fica definido entre junho e o final de agosto, quando se constrói o plantel e se faz a pré-época. Os outros 20% definem-se na gestão de problemas durante o ano e no mercado de inverno, em janeiro. E quando estes 80% são mal preparados, é impossível ter sucesso. Por isso, já estamos a preparar 2019 e a agir em áreas específicas que nos ajudam a ganhar: na área de scouting, por exemplo, estamos a reformular o departamento e acabámos de contratar um scout [José Guilherme Chieira] que esteve no FC Porto durante muitos anos, de 2010 a 2018. No departamento médico, virá um outro médico, João Pedro Araújo, que é melhor do que eu.

Está a preparar os sportinguistas para não serem campeões.
Os sportinguistas são muito esclarecidos. Eu quero os melhores jogadores e o melhor treinador. Quero criar condições para este clube ser campeão, não de forma esporádica, mas consistente; não vou ter uma equipa com um grande guarda-redes, um grande ponta de lança, ganhar o título e perder tudo no ano seguinte porque o mercado os leva. Tenho de ter sempre recursos.

Está a falar de formação, e a do Sporting perdeu o lugar para a do Benfica.
Porque perdeu qualidade. Isto é como ir ao casino: puseram as fichas todas para ganhar um campeonato com a equipa principal... e correu mal. Estou a preparar o clube para o futuro, agilizar departamentos, práticas. Vou contar-lhe isto: quando cheguei à direção, uma das primeiras coisas com que me deparei foi a validação de uma despesa de hotel no valor de €80 de um jogador que estava a fazer uns exames médicos. Uma empresa com receitas de milhões, 300 funcionários, mais de mil atletas — e uma despesa de 80 euros tem de ser validada pelo presidente do Sporting? Isto demonstra como o Sporting [de Bruno de Carvalho] estava montado, tudo concentrado numa pessoa. Eram práticas da Idade da Pedra.

Já contratou jogadores?
Já contratámos para a época 2019. Só dispenso jogadores ou treinadores quando tenho uma solução melhor em carteira.

Então, está a pensar noutro técnico?
É voltar atrás e ler o que eu disse sobre o que eu quero: os melhores jogadores e o melhor treinador.

Peseiro convive bem com isso?
Convive bem, ele é muito bem tratado no Sporting.

Deixou de exercer medicina?
Sim.

E o que disseram os seus pacientes?
[risos] Tive de reencaminhá-los.

A vida mudou, portanto.
Mudou um bocado. Passo muito tempo em viagens, mas tento ser organizado. Atenção: aviso já que não falo da minha vida privada, zero. Digo-lhe apenas que acordo todos os dias às seis e meia da manhã, faço uma hora de desporto todos os dias (faz-me bem à cabeça), e durmo (para trabalhar bem).

A relação com os jogadores mudou?
Eles já conheciam a minha exigência e os sacrifícios que lhes pedia enquanto médico deles. Agora, não será diferente, embora noutro plano.

Deram-lhe os parabéns?
Enviaram mensagens, sim, mas isso não interessa. Eu quero mudar as coisas e a primeira reunião com o plantel aconteceu no auditório e não no balneário. Como presidente, nunca entrarei dentro do balneário, é uma área de jogadores; tal como eles nunca entrarão numa área de presidente. Também nunca farei uma crítica aos jogadores publicamente, porque essa será feita cara a cara. E não me vejo também a ficar aqui 20, 30 anos, porque sou independente e ficarei feliz quando aparecer alguém melhor.

Falando em poder prolongado no tempo: houve um momento em que a direção de BdC parecia encaminhar-se para se eternizar. Só que...
A partir de fevereiro de 2018, por ocasião daquela AG [em que BdC pede aos comentadores afetos ao clube para saírem dos programas de televisão], o clube entrou numa espiral irreversível de travar e percebeu-se que tudo podia acabar. Agora, o que não se previa é que acabasse daquela forma explosiva.

É verdade que dois jogadores do Sporting lesionados pediram uma segunda opinião médica, fora do clube?
Legalmente, o jogador tem o direito de pedir uma segunda opinião. O que lhe posso dizer é que, enquanto fui diretor clínico, nunca um jogador pediu uma segunda opinião.

Não me diga que agora foram ter consigo...
[risos] Por acaso, o Bas [Dost] perguntou-me umas coisas e eu: “Vá lá, Bas, então, já não sou o teu médico.” Mas com o novo médico que chega em janeiro, isso nunca mais acontecerá.

No início da entrevista, falou do caso ‘e-Toupeira’. O que dizer de Paulo Gonçalves e o facto de a SAD do Benfica ter sido acusada pelo MP?
Eu ando no futebol há alguns anos e obviamente presenciei e sei de coisas. Já contei tudo o que sabia às instituições do futebol português: FPF, Liga e Associação Portuguesa dos Árbitros de Futebol. E acredito que se vai fazer justiça. Digo-lhe mais: tenho a certeza que o futebol português jamais voltará a ser o mesmo, o dirigismo mudará, tudo será muito mais transparente. Na cimeira dos presidentes da Liga eu disse que ia arrumar a minha casa, mas que eles também tinham de arrumar a casa deles. Nós vamos ser implacáveis na defesa da transparência.

O Sporting também está a ser investigado no caso Cashball em que, alegadamente, o clube terá pago para ganhar jogos nas modalidades e foi encontrado dinheiro no gabinete de André Geraldes, antigo team manager. Acredita que isso acarreta consequências para o Sporting?
Penso que não. E, como disse atrás sobre outras coisas, confio plenamente na justiça portuguesa.

E o que é isso de “contar tudo”?
Está um processo judicial a decorrer e portanto estamos a aguardar. Estou a falar do ‘e-Toupeira’, do caso dos e-mails. Por alguma razão existem arguidos acusados de corrupção, não é? Não estamos a falar de justiça desportiva, mas justiça civil. Estes casos do Benfica são uma vergonha para o futebol português, uma vergonha. Eu tenho de defender o Sporting e o Sporting foi muito prejudicado nos últimos anos. Estou a falar de tudo. Não é só de 2015-16 [o Marítimo-Benfica de 2015-16 está a ser investigado], mas de outras práticas, como acessos ilegais ao Citius, e outros. Mas não me interessa entrar por aí.

O Sporting tem no plantel dois jogadores que, alegadamente, o Benfica terá tentado aliciar para entregar jogos: Marcelo e Salin.
Tudo isso está a ser investigado.

Eles já falaram com a Justiça?
Não posso comentar.

O Sporting vai sair da guerra comunicacional dos últimos anos? Temos assistido a um combate diário nas redes sociais.
As redes sociais são o submundo. As pessoas reagem ao que se diz e o que se fala nas redes sociais. Eu não leio blogues, não vejo o Twitter, não tenho Facebook. No dia anterior à destituição de Bruno de Carvalho dizia-se, nas redes sociais, que ele iria ficar com 70% dos votos, que era impossível cair. Ele próprio achava que ia ganhar, daí ter ido para a MEO Arena. As redes sociais são tão barulhentas que se confundem com a realidade. E ele perdeu com 70% dos votos. E já nas eleições, o submundo dizia que era impossível eu ganhar — e, mais uma vez, perderam. Isto é transversal à sociedade.

E os programas de TV?
Jamais um sportinguista receberá de mim uma diretriz para dizer isto ou aquilo. Isso é indigesto, gosto de pensamento livre, mesmo que critiquem o Sporting. É horrível, não é do século XXI; e até é humilhante para o comentador. Eu acredito na democracia.