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Peseiro: pé-frio por opção

José Peseiro inscreveu-se voluntariamente noutro curso de humilhação pública aos pés dos sportiguinstas que, na generalidade, desconfiavam dele desde aquele verão de 2005. Porquê?

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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José Peseiro esteve em 14 clubes (e uma seleção) e em pelo menos 13 cidades de 7 países diferentes, incluindo a curtíssima estadia em Bucareste: foi despedido ao fim cinco meses, sendo que o Rapid nem dinheiro tinha para lhe pagar a indemnização na hora. Peculiaridades romenas. Ainda assim, foram 30 dias a mais do que esta Aventura em Alvalade, parte II que acabou simbolicamente nesta madrugada de Noite de Bruxas após a derrota com o Estoril (1-2). Não que Peseiro esteja embruxado, mas lá que parece, parece. Ou então ele é mesmo assim.

Bem, mas ao nível de clubes, Peseiro-treinador passou por União de Santarém, União de Montemor, Oriental, Nacional, Real Madrid (adjunto), Sporting (parte I), Al Hilal, Panathinaikos, Arábia Saudita (a tal seleção), Braga, Al-Wahda, Al-Ahly, FC Porto, Braga (parte II), Al Sharjah, Vitória SC e Sporting (parte II). Por lugar: Portugal, Espanha, Arábia Saudita, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Egito e Roménia.

É, pelo menos, um homem muito viajado, versátil e bastante experimentado, mas também é um profissional que ganhou objetivamente pouco: campeão da segunda divisão portuguesa, uma liga egípcia pelo clube que nos últimos 30 anos conquistou 19, e a Taça da Liga pelo SC Braga.

Dito isto, Peseiro chegou a estar numa shortlist para o lugar de Paulo Bento na seleção e foi sendo contratado por bons (Braga, duas vezes) e grandes clubes (FC Porto e Sporting, em duas ocasiões, é importante sublinhar) cá em Portugal, aqui e ali, em circunstâncias especiais.

Por exemplo, Pinto da Costa foi buscá-lo para substituir Julen Lopetegui a meio da época e despachou-o no final da mesma quando perdeu a Taça de Portugal para o Braga. E Sousa Cintra contratou-o como remendo, apresentando-o como um bom amigo, criticando-o posteriormente numa entrevista e deixando para Varandas o embrulho final - o despedimento.

Peseiro era obviamente um treinador a prazo e fora uma escolha possível no meio daquele folclore pré-eleitoral. Toda a gente sabia disso, até Peseiro sabia disso, e ele aceitou as regras do jogo inscrevendo-se voluntariamente para outro exame perante sportinguistas que, na generalidade, desconfiavam dele desde o verão de 2005. Sim, foi recebido sem grandes alaridos públicos, mas convém recordar que depois da loucura pós-ataque de Alcochete qualquer sinalzinho de estabilidade traria consigo o alívio.

E é isto que me intriga: Peseiro aceitou o convite do presidente interino para ser o treinador temporário num clube em transição com sete candidatos à liderança que se esconderam no protocolarmente correto “é o meu treinador” para não serem acusados de motineiros.

Há algumas possibilidades: Peseiro é, apesar de tudo, um tipo excepcionalmente confiante (otimista já percebemos que é) e acha que vai finalmente provar que a maldição do perdedor é coisa para supersticiosos; Peseiro tem uma péssima memória a longo prazo e esquece-se facilmente de como a vida de treinador é uma complicação; Peseiro tem bom mercado em ligas distantes e sabe que a elas sempre voltará; ou Peseiro gosta de dinheiro, e isso é legítimo.

Porque as outras teorias futebolísticas – nunca se diz não a um clube grande, um comboio não passa duas vezes – são constantemente destruídas pela realidade dos factos. Leonardo Jardim disse não ao Sporting e Peseiro é a prova trágica de que a vida nos dá várias oportunidades.

Resta saber até quando.