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Um grande, redondo e preocupante zero

O Sporting não acertou um remate na baliza dos 11 que tentou em 180 minutos de futebol jogado contra o Arsenal. Desta vez, em Londres, conseguiu um empate sem golos e um ponto, que o deixam mais perto de seguir na Liga Europa - mas não de uma forma mais constante, dinâmica e produtiva de atacar

Diogo Pombo

NEIL HALL

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A bola pára na linha da pequena área. O guarda-redes não a chuta com toda a força, toca-a levemente, é um passe rasteiro para um dos centrais, cada um colado à sua parede da área, ou para um médio que se mostra junto ao teto do único espaço onde um tipo de luvas pode usar as mãos. É assim uma, duas, três, quatro e até mais vezes.

Renan passa a bola rasteira a Coates ou Mathieu e eles recebem-na, orientando os corpos para a frente, onde se pode jogar. Ou passa-a na relva para Gudelj, que até a devolve mais do a usa como par de dança para se virar de frente. Quando a via curta não tem espaço para resultar, pede-se a Renan, sim, que chute a bola - mas para um lateral avançado no campo e colado à linha. Um passe chutado em vez de um chutão dado.

A tentativa, sempre auto-forçada e na qual os jogadores insistem, de sair a jogar, de trás, de forma curta e apoiada, para eventualmente se deixar um tipo livre com a bola e de frente para a baliza do Arsenal, é o que de mais elogiável há no Sporting de Tiago Fernandes que vai a Londres, com prazo de validade quase a terminar. Em duas semanas e muito pouco treino, ele põe onze jogadores a tentar fazer o que nos últimos três meses raramente se atreveram.

O problema, os vários problemas, estão no resto.

Mesmo a querer tratar bem a bola e não a desperdiçar com viagens aéreas, o Sporting tem muito pouco dela e falha demasiados desses passes curtos, que procuram o apoio frontal seguinte. Os extremos andam longe dos médios, Bruno Fernandes é sempre muito pressionado, Miguel Luís esconde-se na enormidade de uma estreia europeia, o raio de terreno coberto por Gudelj não é muito, apesar dos pés certeiros.

Os leões, ao contrário do jogo em Alvalade, não pressionam alto, muito menos a saída do Arsenal da sua área, apesar de o fazerem logo aos três minutos e roubarem uma bola que dá um remate a Nani, bloqueado. Foi o único tentado pela equipa e nem à baliza chegou, como na semana passada. E, como em Lisboa, a bola usada e abusada e passada abundantemente pelo Arsenal, com muito tempo nos pés do irrequieto Guendouzi.

Esse monopólio chegou a ultrapassar os 70% de posse, mas a hegemonia existia quase sempre por fora, obrigada pelas linhas fechadas do Sporting a flanquear o inimigo, raramente conseguindo furar as jogadas com passes verticais. Foi à direita, com passes tricotados entre Ramsey, Mkhitaryan e o francês da cabeleira encaracolada, que Guendouzi teve espaço para cruzar a bola, ela desviar entre o calcanhar de Wellbeck e o corpo de Mathieu e só não entrar porque Coates o evitou em cima da linha.

Entre o aborrecimento, a lentidão e a falta de entusiasmo gerados pelo (não) espetáculo, o mais destacável foi a horripilante lesão no tornozelo de Wellbeck, que ficou em choque, antes de ser substituído por Aubameyang. Foi o velocista gabonês a rematar um cruzamento rasteiro, assim que a segunda parte nasceu, que fez a bola rasar o poste direito da baliza do Sporting.

Marc Atkins

O magro e explosivo avançado aceleraria, depois, por entre o moroso Mathieu e um Acuña preocupado só com o extremo que tinha à frente. Rematou outra vez e a bola foi à malha lateral da baliza. Como Wellbeck antes dele, também o gabonês era um ilha deserta, raramente visitada pelo estrangeirismo da bola que o Arsenal rodava e passava e variava de um lado ao outro. Os miúdos Smith-Rowe e Iwobi, às tantas, também tentaram chatear Renan, sem acertarem nele ou no que ele protegia.

O Sporting apenas crescia em acanhamento, poupava-se a pressionar para lá da linha do meio campo, poupando-se a ter que acorrer a contra-ataques adversários. Minimizava as urgências às jogadas que o Arsenal sempre acelerava em poucos passes, assim que roubava bolas na metade dos leões.

E eles poupados foram existindo, com os médios colados aos quatro defesas para que o ingleses muito raramente controlassem a bola nas costas de Acuña ou Bruno Gaspar. Tudo o resto se depositou no trintão Nani, que rebobinou os anos em duas jogadas, sprintando com a bola pela linha, esticando sozinho as aventuras até cruzar a bola para a área até onde a equipa mal o acompanhava. Outra corrida de Diaby, da direita para o centro, até terminou em remate, mas acabou no corpo de Holding.

Este e todos os 11 remates que o Sporting tentou em 180 minutos jogados com o Arsenal foram incapazes de uma coisa - acertar na baliza. Pontaria que os ingleses tiveram em Lisboa, onde marcaram, retomando-a em Londres, onde não o fizeram, nem com outra desconcentração de Coates quando tentou apoderar-se de uma bola. Desta vez fugiu Aubameyang, abalroado na corrida por Mathieu, que foi expulso.

O grande e redondo zero do Sporting no ataque à baliza do Arsenal deu, desta vez, num igualmente nulo resultado, excelente no ponto que dá um total de sete aos leões na Liga Europa, deixando-os bem a jeito (basta uma vitória contra o Volskra Poltava) para chegarem aos dezasseis avos de final. E, também, bom pela forma como a equipa fechou os espaços, juntou as linhas, guardou o centro do campo e se protegeu em Londres - e como, na primeira parte, ainda tentou sair a jogar de trás, pela relva.

Mas preocupante e pobre na tarefa de levar jogadas com chegada à área e criar situações de remate que fizessem a bola chegar à baliza, ou torná-lo mais provável de acontecer. Nisso, factualmente, foi um zero.