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Às vezes, basta apenas querer jogar bem

O Sporting jogou curto e apoiado deste trás, a bola esteve quase sempre na relva e os jogadores mantiveram-se juntos e a encontrarem-se com poucos toques. O Sporting goleou (6-1) o Qarabag, garantiu os dezasseis avos de final da Liga Europa e, 32 anos depois, marcou meia dúzia de vezes fora de casa. E o Sporting com Marcel Keizer, mesmo que só com dois jogos contra equipas bem inferiores, já mostra como ter uma boa ideia e a intenção de a aplicar pode ser o começo de algo feliz

Diogo Pombo

TOFIK BABAYEV

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Coates é o central do lado direito e tem a bola. Está quase à beira da linha que divide o campo, com a cabeça firmemente erguida, para olhos verem o que há por diante. O seu fantasma do treinador passado teria, com alguma probabilidade, dado o trivial chutão para a frente ou, sendo mais simpático, tentado uma bola longa - porque, também provavelmente, os sítios por onde os jogadores do Sporting andavam o obrigariam a isso e, agora deduzindo, não faria muito diferente nos treinos.

Ora, o atual Sebastián Coates, que anda, corre, joga e fica com a bola entre os pés mais ou menos nos mesmos lugares, aproximou-se da linha do meio campo em Baku e deu um passe forte, rasteiro e vertical para Diaby. E o resto da história desta opção de fazer as coisas conta-se assim: o francês tocou curto e de frente para Wendel, que tabelou rápido com Bas Dost, recebendo a bola mais à frente para acelerar a jogada e libertar Nani, já quase na área.

Criou-se espaço, tempo e ritmo para o português receber a bola e orientar o corpo para o centro, enganando um adversário, ultrapassando outro, deixar esses dois sentados e fintar mais um com a ginga que o deixou a rematar, quase na pequena área, só com Halldórsson, o cineasta e guarda-redes islandês do Qarabag, à frente. Esta foi a reconstrução do terceiro golo dos leões no Azerbaijão.

E não diferente, por aí além, de como apareceu o primeiro, ou melhor, de como ele foi provocado.

Antes, a bola também começou em Renan, o guarda-redes que a pôs na relva (para atrair um adversário) e a jogou em Coates, uruguaio hoje galopante com propósito (conduziu a bola até alguém o encarar) que a passou rasteira para Wendel, que depois abriu em Bruno Gaspar para o lateral cruzar pela relva. A mira saiu um pouco para trás do corpo de Bas Dost, que corrigiu esse pequeno desvio com uma receção rodopiante, girando graciosamente com a bola na área.

A rotação do holandês surpreendeu dois azeris, um deles derrubou-o com a surpresa e deu-lhe o penálti a que o avançado chamou uma graça, logo aos cinco minutos. Tanto aí, como no raide de Nani, foram os laivos de inspiração de um jogador que decidiram a jogada - mas, em ambas, houve antes uma equipa a sair de trás, a jogar na relva, de forma apoiada e com gente entre a primeira, segunda e terceira linhas do Qarabag e não colados, dispersamente, às linhas do campo.

Havia uma ideia e uma intenção, clara, de a tentar aplicar.

Nota-se que é suposto Coates e André Pinto passarem a bola rasteiro e com força para o médio ou extremo que a peça por dentro, atrás da primeira linha de pressão. Evitam sair pelos laterais, que devem receber a bola de frente, vinda do centro. Que os três médios devem estar juntos em campo, seja onde for, interagindo a um ou dois toques. Que a prioridade é encontrar o terceiro homem numa troca de passes, ou seja, quem está livre e de frente para a baliza. O tal “futebol atrativo” de que Marcel Keizer falou.

AZIZ KARIMOV

E o mais visível a olho nu do que o holandês podia alterar, em 19 dias, aparece no uso que dá à bola, a atacar, no momento ofensivo e em organização, porque assim o quer. O Sporting quis sempre jogar de uma forma que os jogadores, certamente, gostam e se divertem, e quem os vê gostará de ver, também.

É assim que Bruno Fernandes acaba com 104 toques na bola e Coates com 88, os tipos que mais beneficiaram do estilo de saída de trás e de passes curtos para dar seguimento à intenção apoiada de jogar futebol. Um estilo em que, a defender, se pressiona alto, rápido e com tudo nos três, quatro ou cinco segundos após a bola se perder. Assim se ganhou a bola que Bruno Fernandes rematou, à entrada da área, no segundo golo (a meios com uma ajuda do guarda-redes).

No momento defensivo, quando a pressão imediata não resulta e o adversário se esquiva, mais tempo será necessário. Porque o Sporting ainda abre espaços entre os médios e os defesas, ainda deixa os laterais a encararem, sozinhos, um adversário. Ainda não controla a profundidade sem hesitações ou distrações, como a de Jefferson, que demorou a acompanhar a subida da linha defensiva para fora da área, deixou Guerrier receber um cruzamento e ajeitá-lo para Zoubi cortar a bola e marcar o único golo do Qarabag.

O mesmo Zoubir, com Madatov, foram os extremos que ainda incomodaram um pouco o Sporting. Forçaram transições rápidas, obrigaram os leões a reagirem e fizeram Nani e Diaby perceber que tinham de recuar muitos metros, para lá da obrigação da pressão imediata a seguir às perdas de bola. Todos ainda falharam, abriram espaços, hesitaram e atrasaram-se a chegar às posições.

O que é normal e natural, porque é preciso tempo.

Haveria ainda tempos para Diaby marcar dois golos - um deles, num dos poucos cruzamentos para a área - e Bruno Fernandes outro, bisando como o maliano. Oportunidades houve para mais se marcarem e, sempre, com a bola a rolar na relva e nunca a sentir saudades de pés, tão curtas e apoiadas eram todas as viagens (com Wendel, o ignorado brasileiro que já fama tinha de ter pouco empenho, a jogar e a dar três assistências). Trinta e dois anos depois, o Sporting marcou meia dúzia de golos fora de casa, na Europa.

Porque quer que esse estilo seja curto, apoiado, rasteiro e vertical à procura dos toques entre linhas para deixar, de frente, alguém que veja gente a atacar espaços em corrida (como a equipa jogou), o que é meio caminho andado para, talvez, se tiver sorte, as coisas correrem melhor ao Sporting.