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Cinco segundos, ou a diferença entre o mal e o bem

O Sporting de Keizer é um Sporting transfigurado. É um Sporting que quer a bola e pressiona para a ter e quando a tem trata-a bem, a um, dois toques, com intensidade. E ao terceiro jogo, no mais difícil teste, a ideia de jogo do holandês, que quer a equipa a recuperar a bola em apenas cinco segundos, passou com distinção: vitória por 3-1 frente a um bom Rio Ave, três golos marcados e oportunidades para fazer mais ainda. É como a noite e o dia, a diferença do mau e do bom futebol

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/LUSA

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Quem frequenta certo espaço noturno lisboeta de nome Incógnito, ali entre o Chiado e o Palácio de São Bento, sabe que, tão certo quanto os impostos, a morte e outras inevitabilidades, é algures a meio da madrugada passar um tema de um rapaz chamado Twin Shadow, de seu nome “Five Seconds”.

Não consta que Marcel Keizer vá dançar ao Incógnito ou se tenha inspirado em Twin Shadow para a sua metodologia de treino. Mas de acordo com as palavras de Gudelj no final do encontro frente ao Qarabag, palavras essas desenvolvidas depois por um trabalho do diário “A Bola”, também para ele o segredo está em cinco segundos.

Cinco segundos que é o tempo que os jogadores do Sporting têm para recuperar uma bola perdida, cinco segundos que têm talvez para pegar nela, dar no máximo dois toques e rodar para o próximo. Se Twin Shadow, logo no arranque da canção, canta “cinco segundos para o coração, diretos para o coração”, para Keizer e para este novo Sporting, são cinco segundos para o bom futebol, diretos para o bom futebol.

Porque naquele que era talvez o primeiro verdadeiro desafio para Marcel Keizer, treinador do Sporting há três semanas, as já mais que visíveis ideias de jogo do holandês passaram com distinção. O Rio Ave não é um colosso europeu, nem sequer um dos grandes do país, mas é uma das boas equipas deste campeonato, uma equipa que gosta de jogar, rápida, com miúdos com muito talento. E é seguramente uma equipa superior ao Lusitano Vildemoinhos e ao Qarabag.

E por ser uma equipa superior aos dois anteriores adversários dos leões, por gostar de atacar de forma apoiada e de ter posse, o Rio Ave deu mais trabalho ao Sporting para aplicar a regra dos cinco segundos. E com algumas dificuldades iniciais a pressionar o adversário, aos leões calhou bem o golo cedo. Logo aos 8 minutos, Coates foi rato e marcou rapidamente um livre a meio-campo. A bola seguiu para Bruno Fernandes, este deu para Nani, que devolveu à procedência com prontidão. Em frente à baliza, Fernandes não falhou.

HUGO DELGADO/LUSA

A vantagem do Sporting durou pouco, quatro minutos, culpa de um livre marcado de forma superior por João Schmidt, fruto de uma das muitas faltas que o Sporting se viu obrigado a fazer para travar Galeno, o melhor dos vilacondenses. Mas do golo rival os leões partiram para o seu melhor período, com a melhor impressão digital do holandês: pressão alta, recuperações prontas, um, dois toques, procura do jogador livre, posse, intensidade.

A anos-luz do Sporting do início da época.

E foi assim com naturalidade que o Sporting passou para a frente, aos 23 minutos, numa jogada que começou numa recuperação de Wendel, o já indiscutível Wendel, viajou para Nani, de Nani para Acuña que ainda antes de receber a bola já sabia onde estava a cabeça de Bas Dost na área.

O 2-1 era um resultado perigoso para o Sporting, que na 2.ª parte, sem nunca se expor em demasia, teve alguns momentos em que poderia ter perdido o controlo, mais por adormecimentos do que por outra coisa qualquer. Aos 65’, Renan Ribeiro roubou por duas vezes um golo feito a João Schmidt e é nesse período, com a equipa da casa a ameaçar crescer, que os leões voltaram a acordar e apareceu o momento mágico de Jovane Cabral.

Em mais uma jogada de envolvimento do ataque do Sporting, a bola chegou ao miúdo na lateral direita e quando toda a gente estava à espera de um cruzamento, Jovane ofereceu um remate em balão, perfeitinho a entrar no canto da baliza de Leo Jardim.

Estávamos no minuto 72 e assim se matou o jogo, um grande e intenso jogo, diga-se, entre duas equipas que procuraram sempre jogar bem e que nunca abdicaram da sua ideia de jogo.

Para o Sporting é, sem dúvida, uma nova era e as diferenças num mês são de espantar. Keizer sabe que tem jogadores talentosos e inteligentes para aplicar a sua regra dos cinco segundos e os resultados são imediatos e estão à vista: é a diferença entre o mau e o bom futebol, futebol rendilhado mas direto para o coração e não para o bocejo.

E, até ver, os cinco segundos também são a diferença entre perder pontos e não perder nem um. É possível que toda a gente fique a ganhar.