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Simples, realista, focado, positivo e ambicioso: o homem que está a mudar o Sporting

O Sporting recebe este domingo o Aves (20h, SportTV1) para a 12ª jornada e o jogo marca a estreia de Marcel Keizer em Alvalade, um holandês desconhecido que está a mudar o futebol do clube - agora bem diferente do que foi praticado sob a orientação do mal amado José Peseiro

Tiago Teixeira (analista de futebol)

HUGO DELGADO

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Três jogos, três vitórias, 13 golos marcados e três golos sofridos. São estes os números (positivos) de Marcel Keizer nas primeiras semanas como treinador do Sporting. Mas por trás destes números está algo bem mais importante: uma ideia de jogo que, apesar de ainda estar em construção, já é possível perceber e que permite identificar alguns dos princípios que a caracterizam.

Nestes três jogos, foi possível observar determinadas regularidades no futebol do Sporting, fruto do processo já implementado por Marcel Keizer. Vamos por partes.

MOMENTO OFENSIVO

A ideia principal de Marcel Keizer neste momento do jogo passa pela qualidade do ataque posicional. Uma ideia ofensiva, dinâmica, associativa e que valoriza muito a posse de bola.

Ao contrário do que acontecia com José Peseiro, quando o jogo direto dos centrais para os jogadores da frente era recorrente, o Sporting é neste momento uma equipa que procura construir de forma apoiada desde zonas recuadas, oferecendo sempre várias opções de passe ao portador da bola e preenchendo os espaços entre as linhas defensivas adversárias, de modo a não saltar etapas na fase de construção.

Antes de Keizer, os sportinguistas já apreciavam um outro holandês: Bas Dost, que atingiu na última jornada (vitória por 3-1 frente ao Rio Ave) os 100 jogos pelo clube

Antes de Keizer, os sportinguistas já apreciavam um outro holandês: Bas Dost, que atingiu na última jornada (vitória por 3-1 frente ao Rio Ave) os 100 jogos pelo clube

FOTO HUGO DELGADO/EPA

Para construir apoiado, o Sporting usa o guarda-redes para criar superioridade numérica numa fase inicial. Os centrais têm liberdade para procurar o passe vertical ou, se tiverem espaço para tal, conduzir a bola em direção ao meio-campo defensivo adversário. Os laterais, projetados e encostados à linha lateral, oferecem largura e os médios (médio defensivo e um dos interiores) movimentam-se no espaço entre a primeira e a segunda linha de pressão adversária, de modo a receber a bola enquadrados.

Nesta fase, o Sporting usa muito a dinâmica do homem livre, ou seja, procurar colocar a bola em quem está de frente para o jogo, utilizando um apoio frontal. No vídeo que se segue há um exemplo perfeito disso: Mathieu, com bola e com a linha de passe para Gudelj fechada, vai usar o apoio frontal de Bruno Fernandes, que por sua vez, de costas para a baliza adversária, vai tocar em Gudelj para que este receba a bola já de frente para o meio-campo adversário.

Desta maneira, o Sporting cria condições para ligar o processo ofensivo e progredir de forma apoiada.

No meio-campo adversário, a ideia de Marcel Keizer assenta muito na progressão interior. O corredor central – que com Peseiro raramente era aproveitado para ligar as fases do processo ofensivo – é agora muito utilizado para chegar às zonas de finalização e os benefícios disso têm sido visíveis.

O posicionamento entre linhas de Bruno Fernandes, Wendel e dos extremos Nani e Diaby (nem sempre em simultâneo) tem permitido ao Sporting ligar a fase de construção com a de criação pelo corredor central e assim chegar a zonas de finalização com a bola controlada e em condições mais favoráveis à finalização.

Em vez de forçar sempre pelos corredores laterais para cruzar - sem desorganizar o adversário, como fazia com Peseiro - o Sporting usa a progressão interior para depois utilizar melhor os espaços laterais, uma vez que os posicionamentos interiores, perto da zona da bola, obrigam o adversário a concentrar-se mais na zona central e naturalmente a conceder mais espaço nos flancos.

No vídeo que se segue, um exemplo disso mesmo. A construção pelo corredor central e o posicionamento interior de Nani, Wendel e Bruno Fernandes obrigou o adversário a concentrar vários jogadores nessa zona e depois a abrir espaço no corredor lateral esquerdo, que Jefferson utilizou para servir Bas Dost.

No golo anulado a Bas Dost contra o Rio Ave, outro exemplo. Reparem como Nani podia ter procurado logo Acuna, mas preferiu conduzir para dentro e entregar a Diaby. Essa decisão de Nani levou a que o lateral direito do Rio Ave fechasse ainda mais por dentro, o que acabou por deixar muito espaço livre para Acuna receber o passe de Diaby.

MOMENTO DEFENSIVO

Sem bola, a ideia de Marcel Keizer assenta em dois pontos principais: uma transição defensiva agressiva e uma pressão alta para condicionar a primeira fase de construção adversária.

Ao contrário do que acontecia com Peseiro, em que o Sporting demonstrava muitas fragilidades na transição defensiva, com Keizer a reação à perda da bola tem sido muito positiva, com os jogadores a procurar logo encurtar os espaços, de modo a não permitir ao adversário ter tempo e espaço para sair com qualidade em transição ofensiva.

O Sporting é atualmente 2º classificado da Liga, com menos dois pontos do que o líder FC Porto, com mais um ponto do que o Braga e com mais dois pontos do que o Benfica

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FOTO HUGO DELGADO/LUSA

O facto de haver muita proximidade entre os jogadores aquando do ataque posicional acaba por ajudar, e muito, na transição defensiva, uma vez que no momento em que o Sporting perde a bola tem vários jogadores nessa zona. E consegue assim criar zonas de pressão com mais facilidade.

A pressão alta é feita com a participação de muitos jogadores e a ideia de Marcel Keizer tem passado por condicionar ao máximo uma progressão curta e interior. Desse modo, tem sido visível um posicionamento muito interior do extremo do lado oposto ao da bola, o que acaba por deixar o lado contrário sem ninguém e sujeito a uma variação do centro de jogo.

Para já, o momento da organização defensiva tem sido o instante do jogo em que o Sporting de Marcel Keizer tem demonstrado menos organização coletiva (extremos pouco articulados com os médios e algum espaço entre linhas), o que acaba por ser natural nesta fase, fruto do pouco tempo de trabalho e do maior foco dado ao ataque posicional e à transição defensiva.

Os próximos jogos vão ser determinantes para se perceber se há evolução neste momento do jogo, quando o mesmo for mais trabalhado pela equipa técnica.

Por fim, um elogio ao discurso deste treinador holandês de 49 anos, ex-Ajax: simples, realista e focado nos jogadores. Mas também positivo e ambicioso, na forma como refere sem problemas em cada jogo o que fizeram mal e o que há a melhorar - apesar das vitórias.