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Porque a regra primordial do futebol é: ganha quem marca mais golos

Aos 25 minutos do jogo, o Sporting já perdia por 2-0 frente a um Nacional que chegou a Alvalade com a lição estudada. Mas o Sporting de Keizer é mais sobre os golos que se marca e menos sobre os que se sofre. E com mais uma 2.ª parte de luxo, os leões responderam aos dois golos sofridos com cinco marcados. Desde a chegada do holandês que o Sporting não sabe o que é empatar ou perder. Porque marca sempre mais que o adversário

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Frente ao Vorskla Poltava, a meio da semana, o Sporting não sofreu golos, pela primeira vez na era Marcel Keizer. Questionado sobre o tema, ou seja, sobre os golos que o Sporting tem sofrido, o técnico holandês, foi pragmático: “Se marcarmos mais, não é um problema. Para mim o futebol é marcar golos. Prefiro ganhar por 3-2 do que por 1-0”.

Keizer não é o primeiro, nem o segundo, nem o décimo e seguramente não será o último treinador a lançar tal adágio - aliás, era também a máxima de Malcolm Allison, o britânico que levou o Sporting ao título em 1981/82. É certo que é bom não sofrer e quem não sofre está mais perto de ganhar, mas a regra primordial do futebol continuará a ser uma e apenas uma: ganha quem marca mais golos.

Frente ao Nacional, aos 25 minutos de jogo já o Sporting perdia por 2-0. Estar a perder 2-0 aos 25 minutos não é fatal, mas muito dificilmente augura algo de bom. Acontece que o futebol de Keizer faz acreditar que um 2-0 a desfavor aos 25 minutos de jogo pode apenas ser uma simples incidência da partida. Porque nunca em tempo algum o Sporting pareceu ter o jogo perdido. Porque para o Sporting de Keizer, não importa sofrer dois golos, se a seguir se marcarem três.

Ou cinco.

Não foi menos que impressionante ver na 2.ª parte a reação do Sporting e do seu treinador ao desacerto que foi o início do jogo. O Nacional, com a lição mais que estudada, chegou a Alvalade à procura de explorar os pontos fracos do método Keizer: com tanta gente balançada para a frente, não faltam espaços atrás e a equipa de Costinha, na primeira meia-hora, pareceu aproveitá-los a todos.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Com um jogo pragmático, rápido, de envolvimento de toda a equipa, o Nacional tornou muito complicada a pressão do Sporting, que raras vezes na 1.ª parte conseguiu roubar a bola aos rivais nos tais 5 segundos exigidos por Keizer ou na primeira fase da construção do adversário. Ajudou também a fraca exibição de Jefferson, pífio a atacar, pior a defender: foi pelo lado do lateral brasileiro que o Nacional criou todo o perigo. Logo nos primeiros segundos de jogo, deixou Camacho fugir, com o extremo madeirense a rematar para defesa atenta de Renan. Mas cinco minutos depois, Camacho marcaria mesmo, num belo remate em arco à entrada da área.

Mais vinte minutos e novo golo, novo aproveitamento dos espaços deixados pelos defesas do Sporting, numa altura em que os leões até procuravam impor a sua proposta de jogo. Camacho, de novo, viu Jota como uma flecha pelo lado de Jefferson, de novo, e Jota cruzou para a cabeça de Palocevic, que marcou à vontade, face à letargia dos defesas do Sporting.

Palocevic que, pouco depois, podia ter marcado novamente, num livre direto que valeu a Renan mais uma defesa importante. Entrávamos nos últimos 15 minutos da 1.ª parte quando o Sporting começou a empreender a recuperação e ainda antes do intervalo Bas Dost reduziu de grande penalidade.

Show Bruno Fernandes

Logo ao intervalo, Keizer tirou Bruno César, que parece não ter pedalada para um método tão dinâmico, e lançou Miguel Luís. E o miúdo, que já frente ao Vorskla tinha dado boas indicações, permitiu que Bruno Fernandes se soltasse para uma 2.ª parte em que o Sporting começou bem, deixou por momentos o Nacional voltar a crescer, para depois terraplanar.

Depois de uma primeira parte nervosa, Bruno Fernandes assumiu finalmente o papel de cérebro da equipa e com a entrada de Jovane o método Keizer começou a fazer-se ver em toda a sua plenitude, apesar de algumas dificuldades iniciais em chegar à baliza.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Aos 70 minutos, saiu dos pés de Jovane o passe a rasgar que foi finalmente encontrar Bas Dost. Perante Daniel Guimarães, o holandês atrapalhou-se, mas a bola sobrou para Bruno Fernandes que emendou para a baliza. Com o empate feito, o Sporting lançou-se definitivamente para a vitória e sem nunca gerir esforços. Cinco minutos depois, Mathieu marcou o golo da noite, num livre direto desde longe, muito longe, com o seu brilhante pé esquerdo e aos 87’, numa altura em que o Nacional até ameaçava uma reação, Bas Dost bisou, de novo de grande penalidade, para matar definitivamente o jogo.

Ainda houve tempo para mais um momento de brilhantismo de Bruno Fernandes, não pelo 5-2 que marcou, mas pelo que fez para que esse 5-2 fosse possível: num lance de puro contra ataque, o momento que define o sucesso da jogada é quando a meio-campo o médio deixa a bola passar-lhe entre as pernas, permitindo que seguisse para o campo aberto onde estava Jovane. Miguel Luís cruzou bem, o primeiro cabeceamento de Bruno teve a oposição do guardião do Nacional mas, e como que a permitir uma qualquer justiça divina (porque Bruno merecia que aquele golo fosse seu), a bola veio parar-lhe de novo aos pés, para o remate final.

Contas feitas, o Sporting sofreu dois golos, mas marcou cinco. O Processo Keizeriano em Curso continua a todo o vapor, sempre a tentar jogar bem, sempre a marcar mais um, dois, três golos que o adversário. E no meu dicionário, vá, no dicionário de toda a gente, é disso que se fazem as vitórias.