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Ele bem tinha avisado: é preciso tempo

O Sporting das boas ideias, do futebol positivo e do jogo apoiado de Marcel Keizer perdeu (1-0) contra quem mais tem feito por essa forma de fazer as coisas em Portugal. O Vitória que tem seis meses com Luís Castro foi melhor em tudo e expôs o que goleadas esconderam: os leões necessitam de tempo e de treinos com o holandês

Diogo Pombo

JOSÉ COELHO/LUSA

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O que achar de um jogo, ou de vinte e cinco minutos dele, entre duas equipas com jogadores que parecem miúdos de uma sala de aula, bem cientes de que, à mínima travessura, serão postos de castigo ao canto, virados para a parede, se ousarem desperdiçar a bola que cabe nesta analogia, onde só há uma para um campo tão grande e tantos jogadores a querê-la?

E o que pensar se, nesses vinte e cinco minutos, o único ousado a fazê-lo é Douglas, por uma vez, perdoável por ser guarda-redes, enquanto todos os outros procuram o espaço para receber ou dar a bola, jogando com e para ele, respeitando o facto de tudo ser mais controlável e menos entregue à sorte, ou azar, se acontecer na relva?

Acha-se e pensa-se que é um bom jogo de futebol.

O Vitória maturado e acalmado por Luís Castro vive na relva, quer construir coisas desde a própria área e tenta-as por fora, primeiro, para atrair atenções e, com isso, abrir espaços ao centro do campo, ou do lado contrário. Rafa Soares e Dodô são quem mais toques (33 cada) dão na bola tentando, sempre, fixar adversários e afastá-los de Davidson, extremo que a equipa joga para deixar a bailar contra um jogador, ou Tozé, médio com mais olhos para a baliza nos pés e chegada à área

Na ressaca de um canto, ele chega à fronteira desse espaço para rematar a bola e marcar, com um ressalto pelo meio.

O pontapeado e desviado golo separa o Vitória do Sporting melhorado e reaproximado da bola por Marcel Keizer, holandês cujo treino, num mês, juntou os jogadores com tabelas, triângulos no campo e postes humanos, em que alguém toca de costas para outrem receber de frente para baliza. Avivou-lhes o gosto por jogar e tocar, da noite passou-se ao dia e a mudança fê-los sorrir com 30 golos em sete partidas, a maioria forçados pelo centro do campo.

Pela relva, com passes rasteiros e alvos da equipa obrigados a estar na terra de ninguém para fazer os adversários duvidarem. Os primeiros passes pelo centro e os segundos e terceiros também, e por isso são Gudelj (41), Mathieu e André Pinto (ambos 38) os que mais tocam na bola até ao intervalo.

Mas este novo Sporting, o hiperbolizado, euforicamente saudado e fabulosificado Sporting, não é capaz de viver nos últimos 40 metros do campo em Guimarães. Bas Dost mal acerta os passes ao primeiro toque, de costas e em apoios frontais. Miguel Luís não falha (literalmente) um passe na primeira parte, mas apenas faz um para a frente. A equipa encrava a progredir. As jogadas que apontem à esquerda, uma vez feita a primeira fase, perdem-se, porque Jovane usa a bola para ser dele e não para jogar.

Os muitos toques que Gudelj tem na bola com tempo, espaço e sem pressa, de pouco servem por estar entre os centrais, que mesmo sozinhos não são pressionados. Por ali não fixa vivalma, ali não há pressão adversária para dividir (se, além de Guedes, alguém o acompanhasse) - e estando ali, falta um tipo que recebe de frente dentro do bloco do Vitória.

O composto e organizado Vitória, que obriga Renan a parar dois remates na relva e outro, logo a abrir a segunda parte, disparado por Ola John que entra para carregar sobre o lado esquerdo do Sporting, onde Jovane é facilmente batido e Acuña deixado sem apoio. Logo na jogada seguinte, um Raphinha sem jogo desde outubro simula nas barbas de um central, na área, antes de rematar para Douglas desviar. Aos 49 minutos, a primeira jogada perigosa do Sporting.

JOSE COELHO/LUSA

À medida que o tempo ia passando, mais óbvio se tornava uma evidência que o jorro de golos e eficácia anteriores esconderam: o Sporting precisa de tempo.

A equipa não soube reagir e contornar ter, à frente, uma equipa que lhe tapasse a hipótese de o segundo ou o terceiro passe vertical, na saída de bola, não entrasse nos médios interiores. Continuou, sempre, a esperar que Jovane, Diaby ou Raphinha aparecessem ao centro, como o Vitória forçava (e esperava). Não tendo os centrais pressionados, Gudelj nunca deu uma opção de passe uns 10 metros à frente.

Não vendo muito da bola, Bruno Fernandes e Miguel Luís recuavam no campo e afastavam-se de Bas Dost, holandês que o Sporting nunca encontrou com uma jogada apoiada. E, sem a bola, a pressão que Keizer sempre tem dito que falha, é errática e ainda desorganizada, foi-o ainda mais. O Vitória ultrapassava-a sempre nas transições rápidas, mais ainda quando tirou André André, que dava sempre mais um toque na bola, e deixou as saídas para Pedro Rodrigues e Tozé.

Batido nessa reação aos roubos, o Sporting era mais reativo do que antecipativo, mas reagindo tarde e desposicionando muita gente à primeira jogada que associasse três jogadores do Vitória com um, dois toques. Gudelj perdia-se e mais vagaroso ficava, como Rafa Soares, Guedes e Pedro Rodrigues provaram. Só Renan salvou o último de marcar na mais bonita jogada da partida.

Antes, Davidson já rematara de longe, Tozé de mais perto, Estupiñán a ainda menor distância e a cabeça de Pedro Henrique deu a tentativa mais próxima de todas. Renan capacitou-se para fazer grandes defesas e a barra bloqueou a bola disparada pelo capitão do Vitória. E Renan já tinha sido expulso por abalroar Guedes num outro chutão de Douglas em que a linha defensiva adormeceu para a profundidade, mas o VAR detetou um fora-de-jogo e tudo anulou.

Reduzindo as coisas à visão mais redutora, o Sporting não perdeu por mais do que 1-0 porque o guarda-redes, e a fortuna, não deixaram.

A equipa emperrou, falhou passes, não cobriu ou usou bem o espaço, foi lenta a reagir sem bola e mais lenta a circulá-la. Sofreu e perdeu contra a melhor equipa que defrontou com Marcel Keizer, o que não prova a falibilidade do holandês, mas a falta de uma coisa - tempo para treinar.

Como quaisquer boas ideias, as deste treinador requerem trabalho, repetição e mecanização (e, também, jogadores mais criativos e técnicos sobre a bola) que só o tempo dá, como seis meses deram a Luís Castro e a este Vitória. Um mês deu para mudar a mentalidade, a forma de querer jogar e o estilo, mas nunca daria para mudar uma equipa, apesar de a catrefada de golos e vitórias seguidas o terem feito parecer.

Keizer precisa de tempo no Sporting e o Sporting necessita de tempo com ele. Tanto quanto o futebol português e todos nós carecemos de mais tempo com Luís Castro, que após trabalhar nos bastidores do FC Porto, dar o melhor futebol da década ao Rio Ave e deixar um futebol melhor em Chaves, decidiu ficar em Guimarães e com esta equipa, que joga o que a euforia tanto elogiou em Keizer: um futebol positivo.