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Para um Sporting órfão de Bas Dost, um Tondela com Quaresma

A segunda derrota da era Keizer, 2-1 frente ao Tondela, quase que se adivinhou logo aos primeiros minutos de jogo, quando os leões não conseguiram ter a bola. E quando chegou a hora de correr atrás do prejuízo, o Sporting não tinha o seu avançado preferido e o beirões tinham um Tomané em perfeita imitação do maior das trivelas. O Sporting desceu para 4.º, a uma semana do clássico com o FC Porto

Lídia Paralta Gomes

PAULO NOVAIS/LUSA

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Chamem-lhe mau prenúncio ou apenas imaginação fértil de quem vos escreve: logo nos primeiros momentos do Tondela-Sporting, um grupo de aves ia atrapalhando a transmissão do encontro, esvoaçando sem trajetória lógica, desconcentrando o espectador, inquietando quem queria acompanhar o que se passava em campo, deixando, como certo filme de Alfred Hitchcock que também metia pássaros, uma certa sensação que algo terrível estaria para acontecer.

Pode ser apenas uma coincidência, mas enquanto as aves iam fazendo as suas macacadas, talvez por alguma sede de protagonismo - afinal elas podem voar, nós não e porque não esfregar-nos isso na cara -, naqueles primeiros minutos de jogo o Sporting pareceu absolutamente alheado. Aéreo, até. Sem asas.

Pelo que disse na entrevista rápida que se seguiu ao encontro, Marcel Keizer terá logo ali percebido que, sim, algo terrível estaria para acontecer. Em Tondela, onde já na última época o Sporting havia ganho com um golo aos 90’ e muitos.

Porque nos primeiros minutos o Sporting não teve bola e o Sporting de Keizer vive de bola, vive de recuperar rapidamente a bola quando não a tem e quando não consegue nem uma coisa, nem outra, o Sporting de Keizer fica mais frágil. Ainda para mais sem Bas Dost, num campo em que, mais do que em muitos outros, o holandês seria essencial. Porque em Tondela o relvado é estreito, há muita luta, nem sempre dá para jogar bem e quando assim é dá muito jeito ter uma referência na área como é Bas Dost.

PAULO NOVAIS/LUSA

Mas, resumindo, nos primeiros 5 minutos o Sporting não teve bola e aos 6’ já estava a perder. Xavier trocou as voltas a quem lhe apareceu pela frente, quais esquiador a fazer slalom montanha abaixo, e cruzou perfeito para Delgado, que aproveitou também a má colocação de Acuña para bater Renan.

Os pássaros foram mais que um prenúncio para o Sporting.

O golo deu alguma energia ao leão, sem nunca o acordar completamente. Bruno Fernandes logo aos 8’ quase marcava, com um remate de primeira à entrada da área após um bom trabalho de Raphinha na ala, mas a partir daí o jogo ficou meio quezilento, com muitas paragens para rapazes discutirem com outros rapazes enquanto Nuno Almeida ia tentando controlar as escaramuças e os ânimos não poucas vezes de amarelo em punho.

E com tudo isto só a poucos minutos do intervalo surgiram mais duas oportunidades, uma para cada lado. Primeiro para o Tondela, aos 35’, em mais um cruzamento medido de Xavier, ao qual Tomané respondeu com um cabeceamento de cima para baixo, ao qual, por sua vez, Renan contestou com uma palmada atenta. Dois minutos depois, Bruno Fernandes cruzou tenso, Raphinha só meteu a cabeça à bola e Cláudio Ramos lá estava para o primeiro salvamento da noite.

O arranque da 2.ª parte fica marcado pela expulsão de Jaquité e por aquilo que parecia ser uma mudança de paradigma do jogo. Depois de uma 1.ª parte dividida, o Sporting teria então mais espaço para atacar e o Tondela teria de não falhar na defesa e tentar a sorte no contra-ataque.

Paradigma quase confirmado escassos minutos depois da expulsão: com mais terreno para jogar, Diaby encontrou Raphinha na área e o brasileiro rematou para defesa de recurso de Cláudio Ramos. E a bola ia com tal efeito que o ressalto não seguiu para a baliza mas sim para trás, enganando Montero que já se preparava para encostar.

Não vou explicar o lance porque talvez só a física o consiga.

PAULO NOVAIS/EPA

Aos 66’, Diaby teve o primeiro desencontro com a baliza, numa altura em que as oportunidades, mais ou menos perigosas, iam surgindo e já pairava o fantasma de Bas Dost. Até porque ao Sporting, mesmo sendo a equipa mais perigosa, faltava a intensidade de outros jogos.

De tal modo que, a jogar contra 10, o Sporting deixou-se sofrer, pelo espírito de Quaresma que encarnou por momentos em Tomané. Ele tentou uma vez, numa trivela sem ângulo, sem grande preparação, mas cheia de intenção. Valeu que Renan estava atento e sacudiu para canto.

Mas à segunda lá estava Ricardo, ai perdão, Tomané, a aproveitar uma perda de bola tonta de Acuña a meio-campo, a avançar e a rematar novamente de trivela, que desta vez a sair perfeitinha.

O golo foi bonito, mesmo bonito, mas em Tondela nem deu para saborear. Dois minutos depois o Sporting reduzia, num daqueles lances em que a bola bate num jogador, faz ricochete em outro, antes de ainda levar um toque de um terceiro e então entrar. Ou vá, a bola foi lançada para a área por Bruno Fernandes, Montero rematou-a para as costas de Coates, voltou a rematar à baliza, com esta a ir ressaltar num jogador do Tondela antes de Mathieu a atirar lá para dentro.

Não foi bonito, mas contou. Ou melhor, contou para deixar o jogo aberto até ao fim mas sem Bas Dost o Sporting perdeu toda a eficácia. O lance aos 80 minutos em que Diaby cabeceou ao poste após um cruzamento de Nani é disso exemplo claro: o holandês não falharia aquela bola.

O maliano ainda teria mais um encontro com Cláudio Ramos, com vantagem para o internacional português, e aos 91’, Mathieu, de cabeça, em mais uma bola à qual Dost chamaria um figo, atirou para as mãos do guardião tondelense.

E assim se fez a 2.ª derrota da era Keizer, com um Sporting órfão de Bas Dost no pior momento e um Tondela que bem pode agradecer ao espírito de Quaresma que se apoderou de Tomané.

Terão sido os pássaros a trazê-lo?