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Há jogos que se ganham com as mãos

Também podemos falar de mãos na anatomia de um golo num jogo de futebol. O golo único que deu a vitória ao Sporting esta sexta-feira em casa frente ao Santa Clara, por exemplo, nasceu de um lançamento lateral expedito, que desequilibrou toda uma defesa. Os leões voltaram a não jogar bem, mas já vão em cinco vitórias nos últimos seis jogos

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Pode parecer uma ideia a pender para o bizarro, mas há jogadores não-guarda-redes que entraram para a história pelo que jogavam com as mãos.

Lembro-me, assim de repente, de Rory Delap, médio esforçadito, que passou boa parte da carreira no Southampton e mais tarde no Stoke City, cujos momentos de glória eram aqueles em que antes de um lançamento lateral pegava na bola, secava-a bem sequinha na camisola, envolvendo-a em toda a sua esfera, como se fosse uma grávida a brincar, ou às vezes até com uma toalha, para depois a lançar a toda a força para a área.

Às vezes dava golo, não tantas quanto as vezes em que não dava, mas, bem, não deixava de ser mais uma bola na área, mais uma situação de iminente perigo, vinda não dos pés mas das mãos de um jogador, o que é curioso num desporto chamado futebol, do inglês football, em português bola no pé.

Marcos Acuña está longe de ser um Rory Delap e, aqui entre nós, ainda bem, porque embora não seja exatamente um virtuoso, de certeza que mais depressa vai entrar na história pelo que faz com os pés e não com as mãos. Mas este jogo do Sporting frente ao Santa Clara foi ganho também pelas suas mãos expeditas, que aos 59 minutos encontraram rapidamente Bruno Fernandes na ala esquerda e vários defesas dos açorianos de cabeça no ar. Ou de costas desguarnecidas.

Apanhados de surpresa pelo rápido lançamento lateral do argentino, quando os jogadores do Santa Clara perceberam os intentos perspicazes de Acuña já era tarde. Já Bruno Fernandes tinha a bola e já Bruno Fernandes estava a olhar para Raphinha, que vinha lá do outro lado a cavalgar até à área. O cruzamento encontrou o brasileiro e o pé do brasileiro encontrou a bola na passada, para o golo que faria o resultado final.

Um a zero, resultado magro, é certo, mas que dá ao Sporting a terceira vitória seguida no campeonato, a quinta vitória em seis jogos, o que não está assim tão mau para uma equipa que se diz estar em crise.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

É certo, claro, que há muito que o Sporting não joga aquele futebol vistoso do início da era-Keizer. Esta sexta-feira, o Sporting voltou a ser uma equipa macia e pouco acutilante, apesar de ter tido infinitamente mais bola que o Santa Clara, principalmente na 1.ª parte.

A equipa de São Miguel chegou preparada para os milagres que Bruno Fernandes consegue tantas vezes operar pelo corredor central e aproveitou o facto de grande parte do ataque aéreo do Sporting ser autêntica pólvora seca, principalmente desde que Bas Dost se desencontrou com o futebol - também, diga-se, raramente foi bem servido. Aguentou o início forte do Sporting, equilibrou-se, foi adaptando-se às nuances táticas dos leões e evitou que a equipa de Marcel Keizer criasse oportunidades, até porque o momento da decisão para o último passe parece por estes dias um sudoku de cinco estrelas de dificuldade para os jogadores do Sporting.

Apareceu um tudo nada mais perigoso o Sporting no arranque da 2.ª parte, com Raphinha a ter a primeira oportunidade aos 47’, com Marco Rocha a defender bem um remate do brasileiro já dentro da área, após um roubo de bola e transporte de Bruno Fernandes, sempre Bruno Fernandes.

Não foi aos 47’, foi aos 59’, na tal jogada que começou nas mãos de Acuña, passou pelo cérebro de Bruno Fernandes e acabou nos pés de Raphinha.

Depois de quase uma hora de deserto ofensivo, o golo do Sporting fez o Santa Clara finalmente arriscar e o Sporting desequilibrar-se. O bom senso só voltaria ao meio-campo dos leões com a entrada de Miguel Luís, mas daí até final, apesar do Sporting voltar a ser a equipa com mais bola, perigo foi coisa que não se viu.

Longe de ter sido brilhante, o Sporting foi competente porque aproveitou um erro do adversário para marcar e ganhar. Marcel Keizer chegou a queixar-se que os leões precisavam de aprender a ganhar mesmo nas noites em que não jogavam bem. A aprendizagem parece estar concluída.

Com as mãos e alguma cabecinha.