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A pragmatização do Keizerball

O Sporting de abril é um Sporting diferente daquele de novembro, que enchia o olho aos românticos da bola. Mas, o que é certo, é que este Sporting ganha e já ganha há nove jogos seguidos. Em mais uma exibição competente, equilibrada, em que ainda se deu ao luxo de desperdiçar um ror de oportunidades, os leões bateram o V. Guimarães por 2-0 e consolidaram o 3.º lugar na liga

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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É curioso como os dois jogos com o V. Guimarães marcam fases muito diferentes da vida de Marcel Keizer no Sporting - e, entre os dois jogos, não passou exatamente uma eternidade, são apenas quatro meses.

Em dezembro, antes da visita ao Afonso Henriques, o Keizerball vivia o seu momento de quase histeria (e aqui, amigos, contra mim falo, eu própria entrei nessa caravana): o Sporting ganhava, quase sempre por muitos apesar de também muitos sofrer, o futebol era rápido, fluído, bonito. Andávamos todos encantados, porque já não achávamos possível que tal romantismo ainda resultasse no futebol moderno.

E boa parte das crenças dos românticos foram deitadas abaixo naquela noite fria em Guimarães. O Sporting perdeu, o Keizerball não teve resposta para as grilhetas colocadas pela estratégia de Luís Castro e, no mês que se seguiu, o Sporting voltou a perder, com o Tondela, e no clássico com o FC Porto apareceu transfigurado: utilitário, objetivista.

É possível que tenha começado ali a pragmatização do Keizerball.

Daí para cá contam-se pelos dedos as exibições vistosas do Sporting, que ganhou uma Taça da Liga nas grandes penalidades e caiu na Liga Europa frente a um Villarreal que do outro lado da fronteira luta pela permanência na 1.ª divisão.

A vitória deste sábado por 2-0 frente ao V. Guimarães não foi uma vitória espetacular, ou pelo menos tão espectacular quanto aquelas pré-época natalícia, apesar do Sporting até ter enviado quatro bolas aos ferros às quais ainda juntou outro par de oportunidades falhadas. Mas foi uma vitória sólida dentro do processo de pragmatização do Keizerball que, goste-se ou não, sinta-se ou não aquele travo amargo da falta de perfume, tem resultado.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Porque com esta vitória já são nove as vitórias seguidas do Sporting, oito delas para o campeonato. Este Sporting não empolga como antes, mas ganha, sofre menos golos, tornou-se, para bem e para o mal, uma equipa competente, mais otimizada e equilibrada. Perdeu magia, mas ganhou alguma consistência defensiva e aproveitou também, claro, a época em crescendo de Bruno Fernandes, ele que tantas vezes foi, sozinho, o Sporting.

Este sábado não foi preciso sequer haver um Bruno salvador. Porque houve mais gente a bom nível, Raphinha para começar, com um golo e uma assistência, e Luiz Phellype a acabar, com um golo e um ror de oportunidades não aproveitadas. Bruno, esse, jogou muito bem também, porque parece que não o sabe fazer de outra forma.

Tudo isto num jogo em que o Sporting até começou retraído, mais culpa do V. Guimarães do que culpa própria. O ADN dos vimaranenses é ter bola e foi isso que tentaram fazer em Alvalade - até aos 15 minutos, os leões praticamente não conseguiram construir uma jogada digna desse nome, tal era a pressão dos jogadores do Vitória.

Talvez tenha ajudado o Sporting a oportunidade falhada por Davidson, após passe de Ola John para as costas de uma desamparada defesa do Sporting, aos 15 minutos. O passe foi fantástico, Davidson não o soube aproveitar e a partir daí foi como se o Sporting acordasse para a vida.

Na resposta ao calafrio, e logo na jogada seguinte, Diaby rematou um pouco ao lado após um passe de calcanhar de Bruno Fernandes. E no ataque seguinte dos leões, Raphinha estreou os ferros da baliza de Miguel Silva, que seriam massacrados no que restou na 1.ª parte.

Aos 20’ foi a vez de Bruno Fernandes rematar de ângulo apertado, com a bola ainda assim a ir ao poste, e à passagem da meia-hora seria a vez de Luiz Phellype, com um cabeceamento subtil - nota-se que tem ouvido mais as dicas de Bruno Fernandes... - a levar a bola ao ferro, algo que repetiria quase ao intervalo, numa altura em que o Sporting já ganhava.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Mas antes disso, o Sporting marcou. Aos 39’, Wendel recuperou uma bola a meio-campo e deu para Bruno Fernandes, que com um passe de primeira (e com uma visão de jogo que só ao alcance de alguns, de facto), encontrou Raphinha do lado esquerdo do ataque. O brasileiro não conseguiu ultrapassar Miguel Silva à primeira, mas com calma conseguiu contornar o antigo colega de equipa, para rematar de ângulo complicado. E a bola entrou.

Entrou e depois do golo de Raphinha foram minutos e minutos de algazarra, com o Vitória a reclamar uma falta sobre Rochinha antes da jogada que dá origem ao golo do Sporting. Que a falta de Acuña existe, parece não haver grandes dúvidas, resta saber se dentro ou fora da área. E quanto à ação do VAR, nada poderia fazer, na medida em que a bola ainda foi recuperada pelo Vitória antes do Sporting iniciar novamente a jogada do golo.

Na 2.ª parte, o Sporting resolveu cedo, com um golo de Luiz Phellype aos 51’, depois de um belo drible seguido de cruzamento de Raphinha e de uma inteligente antecipação ao adversário do avançado brasileiro. Aos 60’ Bruno Fernandes quase marcava o seu depois de uma jogada que ele própria deslindou e, a partir daí, foi gerir, porque o Sporting hoje é um Sporting mais pragmático, que se deixou de correrias e de cavalgadas. É um Sporting que joga mais na expectativa, que calmamente adormece o adversário, controlando o meio-campo, como o fizeram, e bem, na 2.ª parte, Wendel e Doumbia.

E assim, com magia q.b., competência máxima, sendo mais tartaruga e menos lebre que Keizer, o pragmático, meteu mais uma vitória no bolso, a 9.ª seguida, registo que, imagine-se, iguala o de Jorge Jesus em 2015/16.