Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

Caso de Alcochete: o não adiamento, a “palhaçada”, o novo advogado de BdC, um Porsche que não explodiu e a libertação de Fernando Mendes

Isto é o que se passou durante o dia no Campus de Justiça, de Lisboa, passo a passo. Resumindo, o juiz Carlos Delca não adiou a fase de instrução do julgamento do Caso de Alcochete, apesar dos protestos das defesas dos arguidos, e criticou duramente os “expedientes” legais usados pelas defesas para o afastar. Delca não colheu os argumentos e vai levar mesmo para a frente a fase de instrução do caso de Alcochete.

Hugo Franco

CARLOS SANTOS

Partilhar

Está terminada a primeira sessão do julgamento do Caso de Alcochete que agora passamos a descrever em linhas gerais: o juiz Carlos Delca não deu procedimento aos pedidos da defesa dos arguidos - que pediam o afastamento do magistrado de um processo judicial que já tivera dois adiamentos (em abril e em maio) - e criticou a estratégia dos mesmos, dizendo que tinham como interesse “confundir e contornar os interesses da justiça”.

Entre as vozes mais contestatárias dos representantes legais, destacou-se a de Miguel A. Fonseca, que substituiu o mediático José Preto na defesa de Bruno de Carvalho. José Preto queria um julgamento com júri e decidiu afastar-se, e a restante entourage legal de BdC optou por Miguel Fonseca. Segundo Fonseca, a audiência devia ser anulada por causa da presença dos jornalistas, algo que a procuradora Cândida Vilar rejeitou liminarmente, recordando que ex-presidente do Sporting acabara de dar uma entrevista ao Expresso, no sábado. Fonseca utilizou mesmo a expressão “palhaçada” e o juiz Carlos Delca mandou-o calar-se. Cá fora, na pausa de almoço, Miguel Fonseca repisou os argumentos de Bruno de Carvalho contra Cândida Vilar e disse estar à espera da avaliação psiquiátrica à procuradora. pedida por um colega seu, no âmbito do caso de Tancos.

[Leia o perfil do polémico Miguel Fonseca]

Na parte da tarde, houve quatro interrogatórios que duraram cerca de uma hora. Todos os ouvidos garantiram que não agrediram jogadores do Sporting: não bateram., não entraram de cara tapada, não se aperceberam das agressões e alguns até ajudaram atletas. Há uma história de um Porsche que não explodiu e de alguém que acusou “uma meia dúzia de miúdos que pensava que o futebol era uma brincadeira”. Nesse mesmo período, ficou marcado o debate instrutório para uma sessão de dia 10 de julho, sendo certo que, quarta-feira, dia 3 de julho, Bruno de Carvalho irá comparecer no Campus da Justiça para ser interrogado. Com amigos e familiares, conforme o pedido de Miguel Fonseca que o juiz Carlos Delca aceitou. Espera-se, portanto, uma jornada quente.

O início da fase de instrução do processo sobre o ataque à Academia do Sporting também ficou marcado por um engano dos serviços prisionais, que transportaram os arguidos para o Montijo e não para Lisboa. O equívoco foi confirmado ao Expresso.

[Se quiser saber, passo a passo, o que sucedeu, vá lendo este texto até ao fim]:

17h27: Confirma-se: Fernando Mendes, ex-líder da Juve Leo, irá ser libertado quarta-feira por se encontrar com uma doença oncológica.

16h57: Marcou-se para o dia 10 de julho a inquirição de quatro testemunhas do caso. Para quarta-feira, dia 3 de julho, está marcada a audição ao arguido Eduardo Nicodemus, que irá trazer três testemunhas. Ao início da tarde será a vez do ex-presidente do Sporting Bruno de Carvalho falar, com quatro testemunhas. No final, o advogado do ex-presidente perguntou ao juiz se na audiência poderão estar também familiares e amigos dos arguidos, além dos jornalistas. Carlos Delca confirmou essa informação.

16h53: No final da sessão, ficou no ar a hipótese de Fernando Mendes poder ser libertado muito em breve devido aos graves problemas de saúde. Os quatro interrogatórios duraram cerca de uma hora. Todos eles garantiram que não agrediram jogadores do Sporting naquela tarde de 15 de maio. Aliás, os argumentos apresentados pelos quatro foram muito semelhantes: não bateram., não entraram de cara tapada, não se aperceberam das agressões e alguns até ajudaram atletas.

16h50: Quanto a Elton Camará, o quarto arguido nesta fase revelou apenas que pertence a um grupo no WhatsApp chamado “Chefes de Núcleo”. Inquirido por Delca se algum dos arguidos também faz parte desse grupo, respondeu que “alguns, sim”.

16h26: Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, pede a nulidade da sessão, pelo facto de os advogados não terem autorização para falar. E, por outro lado, porque a procuradora do MP confrontou os arguidos. Garante, por isso, que vai avançar com um procedimento disciplinar.

16h14: O segundo depoimento foi de Sérgio Santos, que garantiu ter estado na Academia de Alcochete apenas a conversar com Fernando Mendes e com Jorge jesus. E que não se apercebeu que havia “meia dúzia de miúdos que pensava que o futebol era uma brincadeira”. Acrescentou, ainda, que alguns militares da GNR falar com ele durante o tempo em que permaneceu em Alcochete e não lhe disseram nada. Garantiu à procuradora que não esteve escondido debaixo de uma árvore nas duas horas que esteve em Alcochete. “Fui das últimas pessoas a entrar na Academia. Quando entrei, já os outros tinham feito as asneiras todas”, acrescentou Sérgio Santos. “Sou uma pessoa de trabalho”, responde quando a procuradora Cândida Vilar recorda que foram encontrados cinco gramas de uma droga nas buscas de sua casa.

16h01: O consultor imobiliário Hugo Ribeiro foi o primeiro a falar na fase de instrução. Alegou que não entrou de cara tapada em Alcochete, não agrediu qualquer jogador e que até retirou uma tocha debaixo de um Porsche estacionado na Academia. E que se não fosse o seu ato, o carro iria explodir. Garantiu à procuradora Cândida Vilar que esteve seis horas e meia “sem comer e sem beber”. O depoimento foi rápido, não durou cinco minutos.

15h50: Recomeça a sessão com uma troca de comentários entre o advogado Mário Baptista e o juiz Carlos Delca. “O meu cliente prescinde do direito de estar presente nos atos de instrução e no debate instrutório. Foi alvo de uma cirurgia e agora está aqui. Não é tortura, mas começa a cheirar. Estou cansado de tanta coisa que acontece neste processo”. O juiz Carlos Delca responde: “Imagine eu”.

[Um aparte: o julgamento ficou marcado por um episódio caricato, em que os reclusos foram transportados de um lado para o outro na área da grande Lisboa, pois pensava-se que o julgamento era num outro tribunal. Questionada pelo Expresso, a “Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais informa que se verificou um lapso de interpretação de uma convocatória, emitida pelo Tribunal do Barreiro, para que três reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa fossem conduzidos ao Campus da Justiça. Detetado o lapso em tempo útil, a diligência foi realizada pelo Estabelecimento Prisional do Montijo”.]

14h53: Apesar da reabertura da sessão ter iniciado antes das 14h, ainda não há juiz de instrução à vista. E são quase 15h.

14h34: Fernando Mendes, antigo líder da Juve Leo, também marca presença nesta sessão da tarde, depois de ter estado de manhã.

14h18: E, de repente, a sala enche-se com a entrada de mais detidos, também eles algemados, um número muito superior aos que pediram a abertura da instrução. De manhã já tinha passado pela sala Fernando Mendes, ex-líder da claque que se encontra com uma doença oncológica. Dos nomes mais conhecidos do processo estão Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação do clube com os adeptos, ou Nuno Mendes, suspeito que transportou no BMW vários elementos da invasão naquela tarde de 15 de maio. Até ao momento entraram 17 arguidos, quase todos algemados.

13h52: Sete arguidos entraram algemados na sala de audiência. Entra também um oitavo, Celso Cruzeiro, que já se encontra em casa desde o final da semana passada com pulseira eletrónica. Os arguidos conversam entre si e com os respetivos advogados. Estão aparentemente bem dispostos e trocam piadas e apertos de mão. “Isto é pessoal que se encontrava no Montijo, não é?”, questiona a advogada Sandra Martins, que representa alguns dos suspeitos. “É um direito que vocês têm: o de estar presentes porque requereram a instrução”, explica a advogada a um arguido que lhe faz perguntas sobre o caso.

13h50: Os trabalhos estão a ser retomados, depois da pausa de almoço. Recordando: o Juiz Carlos Delca rejeitou o adiamento do julgamento, criticou o comportamento do advogados dos arguidos e defendeu a presença dos jornalistas contra a opinião muito veemente de Miguel A. Fonseca, o novo advogado de Bruno de Carvalho.

12h24: De acordo com a agenda do tribunal, esta tarde serão ouvidos quatro arguidos. Mas o horário dos trabalhos pode ser alterado já que estava previsto que dois dos suspeitos fossem ouvidos da parte da manhã. No entanto, um representante legal destes dois arguidos anunciou no tribunal que nenhum se encontrava presente na sala. Para amanhã, quarta-feira, será a vez de Bruno de Carvalho e de um outro arguido apresentarem os seus argumentos. Ao contrário do que estava previsto, o ex-presidente do Sporting já não vai defender que o julgamento seja realizado por um tribunal de júri. Esta era aliás a estratégia defendida pelo advogado José Preto. Mas os restantes advogados de Bruno de Carvalho ter-se-ão oposto, o que levou à saída de Preto no processo há já algumas semanas.

11h36: Miguel Fonseca: “Estou à espera do resultado à perícia psiquiátrica à drª Cândida Vilar requerida pelo meu colega Alexandre Lafayette, do caso dos Comandos. Defendi a saída dos jornalistas da sala com base em argumentos jurídicos sobre os atos de instrução. Isto não é um julgamento, mas um pré-julgamento”

11h28: Miguel Fonseca, aos jornalistas, à porta do edifício A do Campus de Justiça: “José Preto não abandonou Bruno de Carvalho, apenas defendia que devia de haver tribunal de júri e os outros quatro colegas defendiam o contrário. Eu também estive no primeiro interrogatório, em novembro, e decidimos que seria eu a representar o Bruno de Carvalho nesta fase. Fui aquele a quem o Correio da Manhã decidiu dar destaque chamando-me o motorista do Bruno de Carvalho”.

11h24: Há advogados que informam que houve arguidos do caso enviados para o tribunal do Montijo, em vez do Barreiro, alegadamente por julgarem que era lá que decorria o julgamento. No intervalo do julgamento que decorre no Campus da Justiça há um tom generalizado de indignação pela forma como está a decorrer o julgamento. Em frente ao edifício A do Campus de Justiça não escondem a sua frustração.

11h19: Carlos Delca conclui que “arguidos, defensores, bem como público em geral” deverão assistir aos atos de instrução”. Ou seja, chumba mais uma vez um dos argumentos dos advogados que não queriam ter jornalistas na sala. O novo advogado de Bruno de Carvalho, Miguel Fonseca, virado para a assistência, diz de forma audível: “Isto é uma palhaçada”.

11h08: O Juiz Carlos Delca atira-se, agora, aos advogados de defesa dos arguidos que insistiram antes no incidente de recusa. Para ele, as defesas descobriram uma “maneira hábil de ultrapassar” os prazos que decorrem no julgamento, pretendendo que os 23 arguidos detidos logo após a invasão de Alcochete fossem libertados. Isto porque o prazo para a libertação dos suspeitos é, justamente, a 23 de setembro. Delca considera que estes casos são “atos urgentes” e que por isso, desta vez, deu nega às defesas. O julgamento já fora adiado, recorde-se, em abril, por razões logísticas, e em maio, por um pedido de recusa do juiz.

11h: Por outro lado, Carlos Delca está acompanhado pela procuradora Cândida Vilar, amplamente criticada por Bruno de Carvalho, antigo presidente do Sporting, numa entrevista ao Expresso em que insinuou que esta teria “uma agenda ou um distúrbio” psíquico. Aliás, perante o pedido de anulação da audiência do novo advogado de Bruno de Carvalho, que rompeu com o mediático José Preto, alegando que os jornalistas não podem estar presentes, Cândida Vilar foi veemente: recuperou a entrevista do ex-presidente do SCP ao Expresso e defendeu que os jornalistas poderiam estar presentes na sala desde que não interviessem. “Depois da sua entrevista ao Expresso não faz sentido que o seu advogado esteja agora a pedir que os jornalistas não possam estar na sala.” Perante a insistência, o juiz Carlos Delca mandou calar o advogado.

10h50: O magistrado focou-se, nomeadamente, no advogado Mário Henriques e no seu incidente de recusa, o quarto desde que se iniciou o processo. Delca defendeu que este, e os restantes incidentes de recusa, têm como interesse o de “confundir e contornar ” os interesses da Justiça. Perante isto, o ambiente entre alguns representantes dos arguidos e o juiz está relativamente tenso dentro de uma sala de audiências no Campus de Justiça, em Lisboa, com segurança reforçada e uma cerca de uma dezena de elementos da PSP.

10h40: O juiz Carlos Delca não adiou a fase de instrução do julgamento do Caso de Alcochete, apesar dos protestos das defesas dos arguidos e criticou duramente os “expedientes” legais usados pelas defesas para o afastar. Delca não colheu os argumentos da defesa e vai levar mesmo para a frente a fase de instrução do caso de Alcochete.