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João Almeida Rosa

João Almeida Rosa

Treinador de futebol

Bas Dost é - ou melhor, era - mais problema do que solução no Sporting

Apesar dos golos marcados no Sporting, as características do ponta-de-lança holandês fazem com que o mesmo só renda em contextos muito específicos e limite demasiado as opções ofensivas da equipa

João Almeida Rosa

Bas Dost esteve quatro épocas em Alvalade

Carlos Rodrigues

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Ponto prévio: aqui não se irá avaliar a venda do holandês. Não está em questão se o montante recebido é justo ou não, e se o timing da saída, já após a pré-época, faz sentido, mas aquilo que o ponta-de-lança dava e retirava à equipa leonina quando em campo.

Também é importante referir que, apesar de o balanço global ser negativo, Bas Dost não era, de todo, o único problema dos leões – nem o principal – e, por isso, não é expectável que a sua saída (e hipotética substituição por um reforço) solucione as dificuldades que a equipa tem apresentado.

Posto isto, o perfil do jogador faz com que o mesmo constitua mais uma limitação ao coletivo do que uma solução para a equipa.

Apesar de a relação com o golo garantir uma normal popularidade com a massa associativa, e por isso a sua saída ser encarada com maus olhos, Bas Dost já tem 30 anos, vem de uma época com clara quebra de rendimento em relação às duas primeiras e, mais do que isso, exige um contexto demasiado específico para render.

O holandês precisa de um modelo de jogo que defina quase todas as jogadas no último terço através de cruzamentos, quase impossibilita que a sua equipa exerça uma pressão alta de qualidade e é menos um em jogos em que a sua equipa não jogue constantemente no meio-campo ofensivo.

A estatística em cima apresentada, referente ao período em que Bas Dost marcou 45 golos consecutivos ao primeiro toque, são prova da sua qualidade na finalização, mas também de que é um avançado incapaz de gerar uma oportunidade para si próprio. Ou é servido dentro da grande área ou torna-se menos um em campo, uma vez que não é auto-suficiente nem apresenta soluções à equipa quando a mesma sente dificuldades.

Desta forma, se o Sporting não dominar territorialmente o jogo e conseguir instalar-se no meio-campo, então o seu ponta-de-lança torna-se um problema. E é o que tem acontecido em muitos jogos. Poderão dizer que é um problema da equipa, e não deixa de ser verdade, mas, neste contexto, Bas Dost é tudo menos uma solução.

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Noutro aspeto cada vez mais importante do jogo, sobretudo para uma equipa grande, o holandês volta a ser um constrangimento difícil de contornar. Pressionar alto de forma eficaz com um ponta-de-lança do perfil de Bas Dost, pouquíssimo agressivo e disponível para tarefas defensivas, é quase impossível.

Bruno Lage, após a vitória com o Belenenses SAD nesta jornada, referiu o papel de Seferovic e Raúl de Tomás no facto de os encarnados ainda não terem sofrido golos nos três jogos oficiais desta época e não poderia estar mais certo. Em 2019, numa fase em que o jogo é cada vez mais completo, as equipas exigem dos seus defesas capacidade para contribuir no momento com bola e dos seus avançados precisamente o oposto: que saibam condicionar o adversário numa primeira fase de pressão, que nas equipas grandes muitas vezes se quer alta.

Esta nuance tornou-se ainda mais clara porque o seu antecessor foi Slimani, que contribuía muito nesta fase do jogo.

O desempenho de Bas Dost nos jogos de maior dificuldade (nomeadamente contra os rivais, mas não só) são a prova de que o mesmo é um jogador demasiado específico e incompleto, o que substancia a vontade do clube de encontrar alguém com um perfil distinto para a frente do seu ataque.

Jorge Jesus, na sua última época ao serviço dos leões, utilizou muitas vezes Doumbia nestes jogos que se previam mais disputados, precisamente pelo que vem sendo apresentado neste artigo.

Na Supertaça de há semanas contra o Benfica, por exemplo, Dost esteve 66 minutos em campo e tocou na bola 11 vezes, das quais três foram reposições a meio-campo. O registo é quase impensável, embora também diga bastante sobre aquilo que é a equipa leonina enquanto coletivo.

O (ainda) leão não ameaça um movimento de rutura nas costas dos defesas, o que torna os ataques leoninos muito mais previsíveis, e não participa na dinâmica ofensiva exceto através de apoios frontais. Para perceber que este género de avançado já não chega, basta pensar em qualquer equipa grande a nível europeu e ver que nenhuma tem um ponta-de-lança com este perfil. Todas têm jogadores mais completos, que não se esgotam no momento da finalização e oferecem soluções à equipa.

Se o Sporting vai melhorar ou não com a sua saída depende muito de quem for o seu substituto. Luiz Phellype é mais lutador e disponível fisicamente, mas ainda assim curto qualitativamente para ser o titular dos leões, até pelo que não dá ofensivamente; Vietto, que o treinador vê mais como 10, poderia ser avançado, sobretudo em jogos de maiores dificuldades, mas também não parece ser essa a ideia; Gelson Dala ainda não saiu e tem qualidade, ainda que corresponda a um perfil mais parecido ao de Vietto do que propriamente ao do holandês, por isso a solução deve chegar de fora.

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