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Alverca - Sporting: o fim pode ser apenas o início de algo bem pior

Depois da mudança de treinador, depois do triunfo apertado na AG e dos insultos, o Sporting foi eliminado da Taça de Portugal, na 3.ª eliminatória, por uma equipa que compete dois escalões abaixo do seu, por 2-0. O clube de Alvalade vive de desassossego em desassossego, numa agonia aparentemente interminável

Pedro Candeias

Gualter Fatia

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Alverca é uma derivação de uma de duas palavras árabes, Albirca ou Alborca, que significa terra com tendência para alagar. O que implica água sobre um terreno, o que nos leva a uma piada fértil que queremos para já evitar em noites assim, suficientemente chuvosas para diluviosas anedotas.

Ponhamos as coisas de outra forma: o Sporting foi eliminado pelo Alverca da Taça de Portugal na terceira eliminatória, um momento embrionário da prova, portanto. O que não é novo, porque o Sporting perdeu com o Moreirense também nessa fase, em 2012/13, mas é espantoso, pois os jogadores de Moreira de Cónegos estavam na 1.ª Liga, e estes de Alverca do Ribatejo estão no Campeonato de Portugal, dois escalões abaixo.

O jogo ficou 2-0 e, obviamente, o resultado não reflete o domínio territorial, a posse de bola assinalável, nem o assédio constante do Alverca, porque isso significaria um mundo de pernas para o ar, em que o dinheiro, o histórico e o individualismo não contassem absolutamente para o totobola. É uma ideia bonita, mas impossível, irreal, utópica - e este Alverca-Sporting foi uma experiência futebolística verídica que ficará na história.

O triunfo dos ribatejanos chegou por outras vias: o atleticismo e a robustez física de alguns dos seus jogadores; o rigor e a concentração de uma equipa que ainda não perdeu esta época; a manha dos seus avançados brasileiros, a humildade e o trabalho; e, como sempre nestas narrativas dos tomba-gigantes, um guarda-redes irrepreensível.

Pois que João Victor, natural de Venda Nova do Imigrante lá longe no Brasil, defendeu o que era possível defender e manteve a sua baliza a zero do início até ao fim. Mérito dele e demérito do Sporting, que começou com algumas novidades (Maximiano, Neto, Ilori) e sem o seu mais que-tudo (Bruno Fernandes) a quem Silas teve de recorrer na segunda-parte, tipo Comissário Gordon-chama-Batman, quando a equipa caminhava para o abismo ao intervalo.

Para trás, antes de BF, ficaram 45 minutos de controlo estéril, marcados apenas pela qualidade individual de Vietto, alguns disparates na saída de bola leonina, e, por outro lado, pelo remate fulgurante e certeiro de Apollinário (10’) e pelo pontapé de bicicleta de Erik Mendes (44’).

As péssimas exibições de Miguel Luís e de Eduardo faziam antever que um dos dois seria sacrificado para entrar Bruno Fernandes - saiu o brasileiro. Quanto a Jesé, de quem se diz ter perdido cinco quilos em menos de um nico, continua a lutar pelo seu final feliz, a reviravolta redentora que dificilmente os futebolistas caídos prematuramente em desgraça conhecem.

Bom, onde é que a crónica ia?, ah, sim, no abismo. Então, na segunda-parte, já com Bruno Fernandes, o Sporting deu o passo fatal rumo ao buraco sem fundo que tem vindo a cavar nestes últimos tempos. Aconteceu num péssimo corte de Ilori que pôs a bola em Luan Silva que fez o 2-0. E os truques e as roletas, e aquela quase assistência para Vietto de Bruno Fernandes foram por… água abaixo.

A piada fácil é uma lei de Murphy escondida: tarda, mas aparece - e pode sempre piorar.

Assim, após o 2-0, o Sporting enterrou-se até ao pescoço na terra alagadiça. Enquanto as claques leoninas pediam a demissão de Varandas e o respeito ao clube, Neto dava empurrões na frustração, Bruno Fernandes esbracejava e refilava, e o Alverca prosseguia diligentemente o seu trabalho, sem euforias e com poucos erros de posicionamento, cumprindo um plano que parece ter sempre escapado ao Sporting que, de mudança em mudança, de traição em contradição e com os inevitáveis atos de contrição que se seguem às derrotas escandalosas, cai da competição que vencera em maio, materializando, na altura, a premonição de um ex-médico feito presidente.

Esse Sporting deu lugar a este e está tão distante do anterior como o sono profundo está do sobressalto do pesadelo. Depois da AG, depois dos insultos, depois da polémica reestruturação, eis que o impensável acontece. E tudo é posto em causa.