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Uma coisa tem de acontecer em todos os sistemas: Vietto

Silas disse, repetiu e sublinhou que sejam quais forem as táticas, linhas defensivas e formas de posicionar os jogadores, há certas coisas que têm sempre de ser vistos no seu Sporting. Emperrando a sair de trás, sem pressão após a perda da bola e com falta de ideias na frente, essas coisas, contra o Belenenses SAD (2-0), resumiram-se ao pé direito de um certo argentino

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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No dia antes, a conversa de Silas, parafraseando-o, versava sobre a não assim tanta relevância de a equipa jogar, ou não, com dois centrais, uma linha de três, ter cinco defesas ou qualquer outra variante numérica nos primeiros 30 metros, para construir e sair a jogar de trás.

Ele até saudava essas dicotomias, deu a entender que, nos treinos, prepara a equipa para se organizar em vários sistemas, na lógica do quanto mais forem os que tiver na ponta das botas, maior será a imprevisibilidade para o adversário. Perdoem-se, contudo, se divago, porque o cerne do que Silas disse esteve nas “coisas que têm de acontecer em todos os sistemas e essas são as mais importantes”.

Coisas, agora divagando na presunção, como os jogadores a movimentarem-se atrás da primeira linha de pressão, para dar saída às bolas que Neto, Coates e Illori - os três centrais que, de facto, surgem contra o Belenenses SAD - trocam entre eles sem que alguém se atreva a conduzi-las, forçando-os a optar pela bola longa puxa-assobio num estádio, dadas as circunstâncias atuais, de silvado fácil.

Porque o adversário, também, assim o obriga, apostado na pressão alta, com Varela, Licá e Robinho a apertarem o espaço ao primeiro passe lateral entre centrais.

A organização do Belenenses SAD obriga o Sporting, uma e outra vez, a bater passes aéreos ou a tentar sair por fora, mantendo os médios colados nas costas de Eduardo, Rodrigo Fernandes, miúdo estreante cuja cautela se alastra à sua mobilidade, e Bruno Fernandes, que tem de recuar à linha dos defesas para receber passes.

A equipa de Pedro Ribeiro, sucessor de Silas, faz dois remates ameaçadores na baliza, enquanto outras coisas de que o treinador do Sporting, talvez, falasse, como a pressão em bloco pós-perda (impossibilitada pela rapidez com que desperdiça posses de bola), ou associar jogadores numa zona, atrair a pressão contrária e ser capaz de libertar um passe para onde se abriu espaço (jogando afastados, e estáticos sem a bola, fica difícil), não se veem.

Tendo a lesão de Neto, com meia hora jogada, Silas reformula a linha para quatro, tira Rafael Camacho do banco, deixa a equipa com um 4-2-3-1 e, por fim, chega à área contrário com um livre de Bruno Fernandes que rasa o poste e um passe de Rosier que quase encontra Eduardo na cara de André Moreira, o guarda-redes.

A equipa estabilizou um pouco, as bolas que Rafael Camacho pisava, para esperar e tentar combinar jogadas, compensava a pressa com que, por vezes, Bruno Fernandes procurava lançar alguém no espaço. O Sporting organizou-se, o Belenenses SAD manteve a pressão a todo o campo, mas a alteração de sistema e dos posicionamentos dos jogadores facilitava, pelo menos, as trocas de passe mais perto das linhas.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Em Camacho, a equipa ficou com um extremo com atração pelos outros, um tipo rápido e técnico a partir da linha, mas que procura o centro do campo, fomentando o jogo interior com Vietto e Bruno Fernandes nas costas dos médios do Belenenses SAD.

O Sporting aproximou-se da área adversária, rematou três vezes nos 10 minutos que abriram a segunda parte, já tinha gente a servir de apoio perto da baliza. Melhorou os vazões para dar à bola numa área, mas continuou limitado, e muito, a sair da outra.

Mesmo que já não conseguisse roubar em sítios avançados do campo, o bloco que o Belenenses SAD mantinha perto dos centrais de Coates e Illori continuava, quase sempre, a fazer o suficiente para obrigar o Sporting a construir pelos laterais. Borja tinha a tecla única de pica a bola sobre a perna do adversário para chegar a Vietto. Do outro lado, Rosier fazia o mesmo ou pisava a bola, parava e devolvia-a ao central.

O corte no mais do mesmo surgiu, apenas, quando Vietto levantou um passe longo na linha de meio campo, Bruno Fernandes amansou a bola, lançou Rosier e o ressalto do cruzamento caiu no pontapé acrobático do argentino, chegado à área para marcar (74’), tão só, no segundo remate do Sporting na baliza. Logo a seguir, Rafael Camacho não o imitou, apenas com a baliza à frente.

Sete minutos volvidos, um lançamento lateral com ares de inofensivo foi desbloqueado por Bolasie, que combinou com Doumbia na corda bamba muito fina do fora-de-jogo, cruzou e um ressalto, de novo, sobrou para o pé direito de Luciano Vietto, agora sem acrobacias. Nos descontos, após correria atrás de uma bola picada rapidamente, num livre, por Bruno Fernandes, fintou o guarda-redes e quase marcou um terceiro.

Teria sido uma coisa dividida em três, mas, no fundo, quase uma só coisa que Silas, de facto, terá de ter em campo seja qual for o sistema ou puzzle dos jogadores em campo. No jogo em que raro foi o jogador do Sporting com calma, critério e pausa a tomar decisões (nem Bruno Fernandes, que muito caiu na tentação da pressa e verticalidade), os simples toques de Luciano Vietto e os dois remates que lhe saíram do pé foram o que o treinador sempre quererá ter na equipa.

E não o que, até ao jogo acabar, ainda se viu: o adversário que tinha Silvestre Varela a jogar com o sobrinho, Nilton, nascido em 2001, a ameaçar com dois remates um Sporting partido sem bola, a pressionar sem as unidades juntas e a deixar demasiados jogadores em duelos individuais.