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Sem espaço, sem ideias, sem soluções, sem jogadores, sem pontos, sempre Sporting

Silas, que assume ser um treinador criativo, com um gosto particular para testar modelos e estratégias e sistemas diferentes em diferentes jogos, acabou engolido pelo antiquíssimo defender bem para contra-atacar melhor à portuguesa. Ficou 3-1 para o Gil Vicente - e o Sporting ficou a 13 pontos do Benfica no primeiro dia de dezembro. Faltam seis meses para o fim de 2019-20

Pedro Candeias

MANUEL FERNANDO ARAÚJO

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Felizmente, teremos sempre o animado campeonato português para nos encher a memória de histórias resultantes de jogos como este Gil Vicente 3-1 Sporting. Por onde é que eu hei-de começar…talvez...

Talvez no disparate original, da autoria de Ilori, que perdeu infantilmente a bola para Sandro Lima que assistiu meticulosamente Kraev para o 1-0 aos 20’. Se eu fosse de crendices, que não sou, diria que este foi o pontapé de saída para o que veio a seguir.

Porque a seguir houve o remate de Bolasi (87’), que bateu certeiramente nos calcanhares do colega Rafael Camacho dentro da área e terá impedido o Sporting ao empate, quando o jogo estava 2-1 para os de Barcelos, em Barcelos.

E, claro, o lance entre Lourency e Doumbia, que terminou com o brasileiro a sangrar e com acontecimentos bennyhillescos, seguidos e perfeitos, com dois ou três gags físicos inesquecíveis que exigem dois pontos e vários pontos e vírgula para os explicar: o VAR alertou Hugo Miguel para o lance que ele considerara limpo; perante o nariz ferido de Lourency, Hugo Miguel foi à TV espreitar o que tinha acontecido e decidiu assinalar fora-de-jogo de Kraev (que passara a bola a Lourency) e também mostrar o cartão amarelo a Doumbia (no seu caso, o segundo); então, enquanto Doumbia seguia expulso para o balneário, o staff leonino alertou Bruno Fernandes que, por sua vez, alertou Hugo Miguel de que aquilo que este acabara de fazer, era proibido - e não se podia fazer; e foi assim que Doumbia regressou incrédulo ao encontro no instante seguinte.

[Faltaram duas coisas: a fanfarra de Benny Hill e que Hugo Miguel se lembrasse do protocolo do VAR.]

E, enfim, o passe longo de Bruno Fernandes, a especialidade da casa leonina nesta noite, que a defesa do Gil cortou para os pés de Naijdji que disparou com ela bem antes da linha do meio-campo, sem oposição, para fintar o mesmo Bruno Fernandes e fazer o 3-1 ao minuto 99.

Mas, pronto, não quero influenciar o caro leitor, que poderá ficar a achar que nada mais se passou além destas deliciosas peripécias no Gil Vicente - Sporting. Não é verdade, e dizer o contrário seria injusto para Vítor Oliveira, velho guardião dos segredos profundos do futebol português, que alimenta a equipa num regime pão-pão, queijo-quejo: simples, prático, direto e, quando eficaz, um cabo dos trabalhos para quem tem maiores responsabilidades.

Como o Sporting, que estava de peito cheio, após uma vitória robusta e justa diante do histórico PSV (4-0), que exponenciou o talento de Bruno Fernandes e também - convém recordar -, expôs os vários problemas na transição defensiva da equipa de van Bommel.

Um momento que o Gil de Vítor Oliveira raramente experimentou, pois defendeu lá atrás com quatro, cinco (um dos extremos a lateral e o lateral a fechar ao meio) ou mesmo seis (com os dois extremos acantonados lá atrás) jogadores em frente à baliza, dois médios de cobertura, um médio de transição e um avançado.

A ideia, óbvia, era tapar quaisquer buracos que a inteligência de Bruno Fernandes ou de Vietto conseguissem encontrar para assistirem Luiz Phellype ou Jesé, ou para eles próprios definirem o lance. Depois, recuperada a bola, partir rapidamente em contra-ataque, pedindo aos extremos-laterais que esgotassem o físico em sprints pelos corredores - só Baraye saiu de campo, na segunda-parte, com 28, o que é notável.

Perante isto, Bruno Fernandes foi forçado a baixar várias vezes no terreno, usar a visão periférica, esperando que alguém fizesse um movimento qualquer de desmarcação para lançar a bola em profundidade: numa ocasião, o indecifrável Jesé acudiu tarde; numa outra, Wendel fez o primeiro remate do Sporting, aos 43’; e, por fim, Wendel marcou aos 45+4’, após um passe extraordinário do inevitável médio português.

O Sporting chegou, então, empatado ao intervalo e na segunda-parte era previsível - porque é assim que estas coisas normalmente se desenrolam - que carregasse sobre um adversário mais frágil após o golo libertador.

Só que não. Aos 53’, Acuña fez penálti sobre Bareye e Sandro Lima fez o 2-1 e o Sporting dificilmente faria algo mais, a não ser cruzamentos inconsequentes, subidas inúteis de Mathieu e substituições ineficazes, que pouco trouxeram ao jogo leonino.

Silas, que assume ser um treinador criativo, com um gosto particular para testar modelos e estratégias e sistemas diferentes em diferentes jogos, acabou engolido pelo antiquíssimo defender bem para contra-atacar melhor à portuguesa. E o Sporting ficou a 13 pontos do Benfica no primeiro dia de dezembro. Faltam seis meses para o fim de 2019-20.