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Jorge Jesus no julgamento de Alcochete: “Pedi ao presidente para me deixar sair, sem receber nada. Não queria trabalhar mais com ele”

O ex-treinador do Sporting foi ouvido no Tribunal de Monsanto, por videoconferência a partir de Almada, esta terça-feira, e recordou o dia do ataque a Alcochete

Hugo Franco e Mariana Cabral

NurPhoto

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Durante quatro horas, Jorge Jesus testemunhou por videoconferência no Tribunal de Monsanto. O treinador não escondeu que os últimos meses vividos em Alvalade foram de grande tensão para toda a equipa e que entrou em rota de colisão com o então presidente do clube, Bruno de Carvalho.

Explicou que foi alvo de duas agressões, uma com um cinto, a outra com um soco, e que ainda levou pontapés quando se encontrava no chão com um dos agressores. Houve tempo para algumas expressões coloquiais ao estilo de JJ. Só respondeu mais rispidamente às perguntas de Miguel Fonseca, advogado do ex-dirigente leonino.

O depoimento de Jorge Jesus

18h15: Termina a audição a Jorge Jesus.

18h10: “As claques viajavam em alguns momentos com os jogadores, a convite do presidente”, revela Jesus. “Nunca houve problema nenhum. Mas, na viagem à Madeira, no último jogo, a claque não viajou com a equipa.”

18h08: “Ninguém é capaz de entrar ali dentro’, disseram-me os jogadores. ‘Arranja um campo que não seja em Alcochete'. Fomos treinar para o Jamor. Na final [da Taça de Portugal, frente ao Aves] senti uma equipa sem capacidade emocional para aquele jogo.”

18h07: “Nunca me ameaçaram com nada. Não tive mais cuidados com a família depois do ataque. Os jogadores ficaram muito mais traumatizados logo nos momentos seguintes. Estávamos a uma semana da final da Taça de Portugal. Disseram que não tinham capacidade para treinar. Não tinham capacidade para entrar dentro de Alcochete. Eles tiveram muito mais medo do que eu.”

18h05: “Profissionalmente, Alcochete mexeu comigo. Não foi por ter medo que depois fui para o estrangeiro. Ainda hoje ainda sinto alguma tristeza daquilo ter acontecido.”

18h04: “Bruno de Carvalho acho que estava também preocupado com aquilo que aconteceu [em Alcochete]”.

18h03: “Estou aqui o tempo que quiser”, diz Jesus à juíza Sílvia Pires, quase quatro horas depois do início da sessão.

17h59: “Esse senhor que está aí está a fazer-me perguntas do ponto de vista profissional?”, pergunta Jorge Jesus, em tom mais irritado

17h58: Jorge Jesus: “Pedi ao presidente para me deixar sair, sem receber nada. Não queria trabalhar mais com ele.”

17h43: Sobre a reunião de 7 de abril, após a derrota em Madrid e depois dos posts dos jogadores em resposta aos posts de Bruno de Carvalho: “O presidente achava que aquilo que os jogadores fizeram não era compatível com ele ser presidente. Houve confronto verbal entre jogadores e presidente do clube. Isto foi somando... O mal-estar e o corte de relações eram visíveis e era algo geral, do grupo todo. Os capitães eram os porta-vozes da equipa, desse mal-estar.”

17h40: JJ pede para falar com a juíza, interrompendo a audição com o advogado Miguel Fonseca. “Esse senhor está a fazer-me um interrogatório.” Miguel Fonseca responde: “Eu não sou um encomendador.”

17h39: A reunião com Bruno de Carvalho durou cinco minutos. “Não me lembro se me perguntou ‘o que aconteceu’ ou se me perguntou ‘como aconteceu’ o ataque. O tempo do verbo não me recordo”.

17h29: É a vez de Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, questionar Jesus. Quer saber que jogadores não queriam falar com o presidente. “Em primeiro lugar, boa tarde”, responde JJ, acrescentando depois que todos os jogadores foram para a sala de estar para não se encontrarem com o presidente, isto uma ou duas horas depois da invasão da Academia.

Os jogadores disseram: “Nem vale a pena ele vir”. Isto quando souberam, pelo assessor de imprensa, que Bruno de Carvalho iria às instalações da Academia.

17h24: “Se calhar alguns dos que entraram nem sabiam bem o que iam fazer. Não me meteram medo. Tenho um feitio de ovelha negra.”

17h20: “Não fiquei KO”, responde Jorge Jesus à pergunta se foi visto pelo departamento médico.

17h11: Jorge Jesus fala há quase três horas. Pede à juíz Sílvia Pires para o dispensar para beber um copo de água.

17h08: Jesus assume que esteve duas ou três vezes com Mustafá, líder da Juventude Leonina, em convívios do Sporting: “Tratou-me sempre com respeito.”

17h04: “Quando saí do vestiário [balneário] vi que havia muita gente espalhada naquele espaço.”

16h58: Jorge Jesus não consegue explicar por que razão houve jogadores agredidos e outros não. Nem percebe por que razão Bas Dost foi agredido, se era um dos que dava mais em campo. Jesus diz também que não ouviu Acuna chamar "filho da puta" a Fernando Mendes, no jogo da Madeira.

16h57: Aníbal Pinto pergunta também se o roupeiro Paulinho foi agredido por alguém. Jorge Jesus responde que não.

16h54: Aníbal Pinto, advogado de quatro arguidos, pergunta a Jesus se alguém o queria agredir, já que ouviu os primeiros encapuzados dizer que não lhe queriam fazer mal. JJ responde que não. “E porque foi agredido? Estava no local errado à hora errada”, volta a inquirir o advogado. JJ responde: “Isso tem de lhe perguntar a ele, ao que me agrediu.”

JJ admite que havia um espaço diminuto entre o agressor e o treinador. “Ele atirou-me com o cinto quando vem a correr para mim. Faz o gesto de bater. Não foi casualmente. Sabia perfeitamente quem eu era.”

16h50: “Tem a certeza que foi agredido com um murro naquele dia?”, pergunta o advogado Miguel Matias. Jorge Jesus responde afirmativamente.

16h49: Jorge Jesus responde às dúvidas do advogado: “É natural que dois anos depois não tenha uma precisão tão exata”.

16h39: O advogado Miguel Matias pede para ser lida parte do testemunho dado por Jorge Jesus na GNR, na noite e madrugada após a invasão, alegadamente por omissões no testemunho do treinador.

Na altura, JJ referiu à GNR, no Montijo, que Fernando Mendes afirmou o seguinte: “A gente veio aqui para falar e não para bater.” Hoje confessa não se recordar dessas palavras proferidas por aquele arguido. À GNR, afirmou que só o encontrou depois das agressões de que foi alvo. Mas hoje garante que o encontrou por duas vezes, uma antes de entrar no balneário e depois desse momento.

16h38: “Pisaram-me também quando estava no chão. Mas não foi nada de especial”, recorda Jesus.

16h35: “Não vi jogadores a correr em Alcochete [na tarde do ataque]”.

16h30: “A nossa relação não era assim tanta para falarmos muitas vezes”, diz JJ sobre Bruno de Carvalho.

16h28: Algumas perguntas sobre o processo de despedimento de Jorge Jesus exasperam a juíza Sílvia Pires.

16h25: O advogado faz uma pausa prolongada entre as perguntas. Comentário de JJ: “Está difícil, hã?”

16h20: Jesus volta a frisar que disse a Bruno de Carvalho, em Alcochete, já depois da invasão, que os jogadores fugiram dele e que não queriam falar com o presidente. Bruno de Carvalho quis que jogasse a equipa B, depois dos castigos aplicados aos jogadores da equipa principal, na véspera do jogo contra o Paços de Ferreira. Depois do jogo, foi vaiado pelos adeptos do Sporting. Até ao jogo das tochas atiradas para a baliza de Rui Patrício, contra o Benfica, nunca houve intimidação dos adeptos contra os jogadores do Sporting.

16h18: Jesus começa agora a testemunhar aos advogados, quando passam cerca de duas horas do depoimento no Tribunal de Monsanto. O primeiro a fazer perguntas é Miguel Coutinho, advogado do Sporting. Jesus fala sobre a agressão de que foi alvo com um cinto. A primeira das duas agressões de que foi alvo. Jesus repete que só viu Fernando Mendes fora dos balneários. “Ele não fez nada para evitar aqueles acontecimentos.”

16h15: Ao final de alguns minutos a visualizar as imagens, Jorge Jesus concede que duas das pessoas das imagens talvez sejam Fernando Mendes e Aleluia. Mas sem certezas, diz.

15h59: "Ponha para trás as imagens, se faz favor", diz Jesus, ao seu estilo. “É a primeira vez que vejo estas imagens”, diz, a certa altura, enquanto as imagens da videovigilância da Academia de Alcochete vão sendo visionadas. A juíza Sílvia Pires quer saber se o treinador reconhece algumas das pessoas que surgem de cara descoberta. Mas Jorge Jesus não consegue reconhecer sequer Fernando Mendes pelo ecrã.

15h55: Na opinião de Jesus, "Fernando Mendes, naquele grupo, sempre foi uma pessoa passiva e não ativa".

15h29: O tribunal coletivo e os advogados visualizam, juntamente com a testemunha, uma parte das imagens de CCTV da Academia de Alcochete, nomeadamente dos momentos entre as 17h13 e as 17h16.

15h19: "Fernando Mendes acusou, no aeroporto da Madeira, Acuna de chamar nomes à mãe. E disse que não lhe admitia aquilo. Eu só falei com esse senhor no dia da invasão. E ele disse-me que não podia fazer nada [em relação à violência dos invasores]. Ele estava ali a fazer o quê? Era líder da claque. 'Estás a ver o que me fizeram? Deram-me um soco. São uns cobardes', disse-lhe eu. 'Ajuda-me, não deixes que entrem por ali dentro.'"

15h16: Sobre a reunião após o jogo contra o Atlético de Madrid e os posts no Facebook de Bruno de Carvalho: “Os jogadores comunicaram comigo sobre o post. E algumas mensagens para os capitães de equipa. Na reunião entre todos no estádio de Alvalade houve confronto verbal entre os capitães e o presidente.”

15h14: "Bataglia e Acuna viraram costas e quiseram vir embora, no final do jogo no Funchal. Eu também cheguei perto da claque mas não entrei em confronto verbal com nenhum. No aeroporto da Madeira eram dois: o Fernando Mendes e um colega, que entraram no nosso espaço do embarque para Lisboa. Começou a ofender-nos. O William, um segurança e eu também me aproximei para o acalmar e calar. Não foi mais do que isso. O André Geraldes foi quem esteve mais perto do Fernando Mendes, que disse: 'No primeiro dia de treino a gente vai lá estar'. Toda a gente ouviu.”

15h06: "No jogo contra o Marítimo, no estádio na Madeira, houve confusão em termos verbais. Apontavam um ou outro jogador. Troca verbal entre jogadores e essa claque que lá estava. Mais nada. Não houve agressões. Nem depois de acabar o jogo."

15h03: “Bruno de Carvalho não disse que ia estar no treino. Falo no episódio de ter falado de madrugada com esse Fernando Mendes. Uma grande confusão na casa dele, com as filhas aos gritos, que ele é que desbloqueou tudo... O Fernando Mendes falava com o presidente porque achp que ele também já tinha sido líder da claque do Sporting”, afirma.

14h55: "O treino de 15 de maio é marcado nessa semana com o Vasco Fernandes. Marquei o primeiro dia de treino após o jogo com o Marítimo no domingo. Segunda-feira era dia de folga. O treino estava marcado para terça-feira de manhã. Eu e a equipa técnica fomos convocados para uma reunião em Alvalade, na segunda-feira. Não era normal para uma segunda-feira. Pensámos que íamos ser todos despedidos”, recorda Jesus.

"Estava lá o presidente e três elementos. Só o presidente falou comigo. Disse que tinha chegado ao fim da linha. A minha continuidade no Sporting, digo. Foi apresentando os argumentos dele. Nunca respondi. Perguntou-me se eu tinha alguma coisa para dizer. Disse que não, que só estava lá para ouvir.

Ele diz para eu estar preparado para os advogados do Sporting fazerem um processo, uma nota de culpa. Não sabia muito bem o tempo que ia demorar a fazer essa nota de culpa. Seria de manhã. Respondi que tinha treino de manhã e ele disse que o treino tinha de passar para a tarde.

Avisei o Vasco Fernandes, o secretário técnico, dessa hipótese de o treino de terça-feira passar para a tarde."

14h53: "Atrás de mim não entrou ninguém nos vestiários [balneários]. Fui o último a entrar. Eles iam todos à minha frente. Já os apanhei a sair de lá. Havia várias portas partidas".

14h51: "Era eu que marcava o horário dos treinos. Havia um plano semanal. Os treinos eram, normalmente, de manhã. Às vezes alterava-se a ordem do treino por causa dos jogos."

14h49: “Não deixava ninguém lá ir assistir aos treinos. Um ano antes estavam vários indivíduos à porta para falar com os jogadores. Mandei entrar umas dez, quinze pessoas. Falei com o Mustafá. Tiveram um comportamento bom com os jogadores. Havia visitas de estudo à Academia mas não entravam onde os profissionais treinavam”, relata Jorge Jesus, que treinou o Sporting entre 2015/16 e 2017/18.

14h44: "Bruno de Carvalho, passado uma ou duas horas, apareceu na Academia. Falou comigo. Pediu-me para falar com os jogadores. Disse-lhe que não havia condições para falar com os jogadores. 'Eles não querem falar consigo', disse-lhe”, recorda o então treinador do Sporting.

14h42: "Vi fumo quando tentava entrar no vestiário [balneário]. Depois quando voltei a entrar ali aquilo parecia um filme de terror. Estava tudo virado ao contrário. Os jogadores super desequilibrados. O Bas Dost foi o único que vi a chorar. Não sabiam o que fazer, estavam super revoltados. Bancos virados ao contrário, marquesas, e muita coisa no chão. Tochas. Muita confusão.”

14h39: "O William falou com o Fernando Mendes e com o outro, o Aleluia, acho eu, que também estava de cara destapada. Perguntei ao William quem era aquele que estava a falar com ele. Soube depois que era o Aleluia. Era um dos quatro que acompanhava o Fernando Mendes."

14h37: “'Já viste o que me fizeram?', perguntei ao Fernando Mendes. Voltei para perto dos meus jogadores. O Bas Dost estava a chorar. Não vi o que se passou dentro da cabine. Aquilo foi tudo nuns cinco, dez minutos. Dez minutos é muito. Foi entrar, bater, mandar tochas.”

14h36: "Um indivíduo entrou com um carro, que reconheci da televisão. Ele só aparece depois daquilo ter acontecido.”

14h35: “Os dois que me agrediram tinham a cara tapada. O do soco ia de calções e ténis. Era um jovem de 22, 23, 24 anos. Fernando Mendes não me explicou por que razão estava ali. Dirigiu-se para perto dos outros e começaram a dispersar”, relata Jesus.

14h32: “O Petrovic viu-me a sangrar. Apareceu outro indivíduo, que trazia um cabo. Também me viu levar um soco. Mas ele não sei quem é. Quando falo com o Fernando Mendes da primeira vez não tinha sido agredido. Pedi-lhe ajuda. e ele disse-me que não podia fazer nada. A conversa dele não me interessou e entrei dentro das instalações. Há um que me dá com o cinto na cara. Vou atrás dele e quando saio da cabine vejo-os todos. Isto passou-se nos corredores”, conta Jorge Jesus. "Ele dá-me com o cinto na cara e no ombro. Vou atrás dele e caio com ele. Houve uns pontapés. Fernando Mendes está perto de mim quando levo um soco", acrescenta.

14h29: "Depois de eles saírem todos, começam a ficar à espera uns dos outros fora do vestiário [balneário]. Sai também um indivíduo que me dá um soco na cara. Fiquei a sangrar do nariz. Não caí. Ele continuou a correr atrás dos outros. “

14h26: "Foi à porta de entrada do vestiário [balneário] que vi o Fernando Mendes [ex-líder da Juventude Leonina] e lhe pedi ajuda", recorda. "Foi antes de entrar no edifício. Pedi para ele impedir aquilo de acontecer. Mas eles já estavam quase todos dentro da cabine do vestiário. Muito fumo, muitos gritos dentro do vestiário. Não consegui chegar à cabine onde estavam os jogadores. Fui agredido e reagi à agressão".

14h23: Jorge Jesus começa por dizer que os encapuzados que entraram na Academia eram cerca de 20. "Aquilo parecia uma corrida de um pelotão de guerra. Fui atrás deles a correr. Não os vi a entrar. Estava no relvado, a 85 metros. Quatro deles não estavam de cabeça tapada, vinham atrás do grupo de 20 ou 30. Era fumo por todo o lado nos balneários. Foi nos balneários que fui agredido", conta.

14h22: Inicia-se a sessão no Tribunal de Monsanto.

O julgamento

Um dia depois do depoimento de Rui Patrício, é a vez de Jorge Jesus recordar o dia de 15 de maio de 2018, quando a Academia do Sporting foi invadida por um grupo de adeptos que agrediu a equipa técnica e os jogadores do clube.

Tal como contou à GNR de Alcochete no dia em questão, Jesus tentou acalmar os ânimos dos invasores quando percebeu o que se passava, mas acabou por ser atingido por um cinto e pontapeado.

A partir das 14h, o atual treinador do Flamengo irá recontar o que viu no dia do ataque.

Recorde-se que o antigo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, Nuno Mendes (Mustafá), líder da claque Juventude Leonina, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.