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Sporting, a história de uma época perdida

A 19 pontos do líder Benfica no campeonato, fora da Taça de Portugal e acabadinho de cair na Taça da Liga, num jogo que acabou com duas expulsões e muita confusão em campo. Estamos em janeiro e em 2019/20 resta ao Sporting lutar pela melhor participação possível na Liga Europa, em que está longe de ser uma das equipas favoritas. Este é o filme de uma época de equívocos em Alvalade

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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As contratações “cirúrgicas”. E falhadas

O mês era setembro de 2019 e acabara de fechar o mercado de transferências. Bruno Fernandes ficou, Raphinha saiu, Bas Dost já não estava. Frederico Varandas apresenta-se no relvado de Alvalade e explica ao canal do clube os movimentos do Sporting durante o verão. “Em julho fizemos cinco contratações cirúrgicas para darem estabilidade e opções. Teríamos de deixar mais para a frente mais duas ou três contratações tendo em conta quem saísse entretanto”.

Essas três contratações seriam então Bolasie, emprestado pelo Everton, Jesé, por empréstimo do PSG, e o brasileiro Fernando, jovem brasileiro emprestado pelo Shakhtar Donetsk. E os números são fáceis de somar: o avançado congolês fez 22 jogos, quatro assistências e dois golos em todas as competições; o atacante espanhol, antiga estrela em potência que se tem arrastado por vários empréstimos, foi titular em apenas oito jogos, marcou apenas um golo e tem andado desaparecido das convocatórias. E Fernando, entre lesões e falta de rendimento, já foi recambiado para a Ucrânia, sem sequer se estrear pela equipa principal dos leões. Muito pouco quando a ideia era substituir Bas Dost.

E olhando para as tais “contratações cirúrgicas”, não se pode dizer que a tal preparação da época que Frederico Varandas dizia já estar a fazer em entrevista ao Expresso em outubro de 2018 tenha corrido bem: de Vietto (que chegou como moeda de troca no acordo entre Sporting e At. Madrid por Gelson), Rosier, Camacho, Eduardo e Luís Neto, digamos que apenas o argentino foi quase sempre aposta no onze, até se lesionar. E mesmo assim marcou apenas cinco golos em 25 jogos.

Para o mercado de inverno, já chegou Sporar para o ataque, mas há boas probabilidades do Sporting perder Bruno Fernandes, de longe o jogador mais influente dos leões. E esse é quase impossível de substituir.

Saídas não colmatadas

Raphinha foi vendido porque o Sporting precisava de dinheiro em caixa depois de não vender Bruno Fernandes no verão. Bas Dost regressou à Alemanha porque o salário era alto. A contratação a título definitivo de Gudelj não avançou. E para nenhum deles o Sporting conseguiu encontrar substituto à altura.

O extremo brasileiro tinha feito sete golos e nove assistências e o seu substituto natural, Rafael Camacho, tarda a afirmar-se como titular. Com a saída de Bas Dost, o Sporting ficou com apenas Luiz Phellype para a grande área. O brasileiro, em 25 jogos esta temporada, marcou apenas 9 golos, muito longe dos números do holandês que na sua pior época nos leões, a última, fez 23 golos em 35 jogos.

No lugar de Gudelj (e com Battaglia só agora de regresso), tanto Keizer, como Leonel Pontes e Silas têm apostado no jovem Doumbia, contratado em janeiro de 2019, mas o marfinense não convence. Eduardo, contratado ao Belenenses, onde na última época foi uma das boas surpresas do campeonato, praticamente não tem jogado.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

A dança dos treinadores

Marcel Keizer foi o treinador do projeto de Varandas mas a história de amor entre o holandês e o Sporting acabou apenas um mês após o arranque da época, ainda que a contestação tenha começado bem antes disso. “Alguém ia despedir um treinador que tinha ganho uma Taça da Liga e uma Taça de Portugal naquelas condições?”, questionou Varandas numa entrevista à Sporting TV pouco depois de despedir o holandês.

A pergunta deixava claro que a continuidade de Keizer para a nova época já trazia dúvidas. A derrota na Supertaça, frente ao Benfica, e o mau arranque no campeonato tornou as dúvidas em certezas.

Ao holandês sucedeu Leonel Pontes, treinador nos sub-23, mas o “efeito Bruno Lage” não aconteceu em Alvalade: depois de um empate e três derrotas, Pontes voltou para os sub-23 e o Sporting contratou Silas, depois de, nas palavras de Frederico Varandas, ter tentado Leonardo Jardim e José Mourinho, que recusaram o lugar.

Os falhanços nos momentos fulcrais

Na altura era impossível dizer, mas o arranque oficial da época para o Sporting seria um prenúncio para o que viria a seguir: derrota inequívoca por 5-0 frente ao Benfica e os primeiros sinais de fragilidades e de falta de competitividade e soluções face aos rivais diretos.

No 1.º jogo do campeonato, os leões não passaram no Funchal (empate frente ao Marítimo) e a derrota em casa com o Rio Ave à 4.ª jornada marcaria o fim de Marcel Keizer. Mas com Silas o Sporting continua a ser uma equipa permeável nos momentos fulcrais e falta pedalada nos jogos decisivos. Foi inesperadamente eliminado da Taça de Portugal, troféu que defendia, pelo Alverca, na 3.ª eliminatória. Na Liga Europa, num jogo que podia valer o 1.º lugar no grupo, os leões foram completamente dominados pelo LASK Linz, perdendo por 3-0 na Áustria.

E depois seguiram-se duas derrotas frente aos principais rivais, para piorar, ambas em Alvalade: frente ao FC Porto (2-1) na 15.ª jornada, e Benfica (2-0) na última jornada.

De fora da Taça de Portugal, a 19 pontos da frente do campeonato, com a pior campanha de sempre nos primeiros oito jogos em casa para o campeonato (quatro derrotas) e pouco ou nada favorito à conquista da Liga Europa, onde jogará em fevereiro os 16 avos-de-final frente ao Istambul Basaksehir, restava defender o título na Taça da Liga. Mas na terça-feira tudo se desmoronou: exibição fraca, duas expulsões, ânimos muito exaltados e derrota frente ao Sp. Braga na primeira das meias-finais, por 2-1.

TF-Images/Getty Images

As confusões fora de campo: o julgamento de Alcochete, as claques

Se dentro de campo a época do Sporting parece invariavelmente perdida, o que se passa fora também nada tem ajudado à estabilidade do clube. O julgamento do caso da invasão da Academia de Alcochete continua no tribunal de Monsanto e com vários dos jogadores do plantel a testemunhar.

Consequência mais ou menos direta do ataque à Academia, a guerra da atual direção com as claques. Ao fim do protocolo seguiram-se protestos em jogos, ameaças por parte do Diretivo Ultras XXI em colocar a SAD do clube em tribunal e lançamento de tochas do último jogo em casa, frente ao Benfica, que obrigou à interrupção da partida. Situação que terá sido a gota de água para a direção que, segundo o diário desportivo “A Bola”, quer colocar os elementos dos quatro grupos organizados na bancada B a partir da próxima época e dentro de uma caixa de segurança, vulgo “gaiola”, tal como acontece normalmente com as claques das equipas adversárias.

A juntar aos constantes gritos de #VarandasOut em Alvalade, no início do ano, o movimento Dar Futuro ao Sporting pediu ainda a realização de uma AG de destituição da atual direção.

A implosão do Sporting, cortesia de Paulinho

Mathieu dissera que o Braga era favorito por jogar em casa. Não, o Braga era favorito por, desde que Rúben Amorim lá chegou, jogar mais, melhor e com um plano mais claro que o Sporting, que perdeu (2-1), teve dois jogadores expulsos e acabou tão desnorteado em campo quanto o clube tem sido, ultimamente, fora dele. Os minhotos estão na final da Taça da Liga