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Futebol de quarentena

Penoso este Sporting, da falta de criatividade à linguagem corporal dos jogadores, sonâmbula e descrente, que foi empatar a Vila do Conde um jogo de onde não merecia trazer pontos. O 1-1 final penaliza o Rio Ave, talvez deslumbrado perante tantas facilidades dadas pela equipa de Silas

Lídia Paralta Gomes

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

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Isto vai parecer bruto, mas não encontro outra forma de o dizer: não há muito talento na equipa do Sporting. E isso não é bom, mas não chega por si só para ser trágico. Não faltam por aí equipas que compensam a falta de talento individual com organização coletiva, com intensidade, com futebol de rolo compressor.

Acontece que, por estes dias, o Sporting nada disto tem.

Há algo de penoso neste Sporting, a falta de criatividade aliada a tudo o que transpira da linguagem corporal dos jogadores leoninos, entre o sonambulismo e a simples descrença, como se cada um deles tivesse contraído um vírus esquisito, que suga qualquer alegria e vontade e qualquer futebol que ainda resta naqueles corpos com um ar permanentemente cansado, um cansaço que não é físico mas sim existencial, que lhes diz que tudo o que querem naquele momento é não estar ali, num relvado de futebol, mas noutro sítio qualquer.

Há muito que o futebol do Sporting está de quarentena, mas o jogo deste sábado frente ao Rio Ave terá sido um novo baixo, mesmo que, no final, os leões até tenham trazido um ponto de Vila do Conde - sim, foi um ponto ganho e não dois perdidos. Porque não houve um momento que fosse esta noite em que o Sporting parecesse perto de ganhar este jogo. Empatou-o de bola parada, numa grande penalidade aos 84’ quando a derrota já parecia certa, quando o Sporting parecia até, mais grave, já conformado com ela, e empatou-o porque o Rio Ave se deslumbrou tantas vezes perante tanto espaço dado pelos leões no ataque, perante a total incapacidade do Sporting de travar as suas transições.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

O Rio Ave, que marcou logo aos 2 minutos por Lucas Piazon, não ganhou este jogo porque por vezes pareceu perdido entre tantas facilidades, como uma criança congelada numa loja de doces, sem saber qual deles escolher. Houve sempre um passe a mais quando se pedia objetividade e pode muito bem ter sido isso a salvar o Sporting de uma derrota embaraçosa. No final, aquela grande penalidade, com o Sporting já a jogar com 10, depois da expulsão de Coates, foi uma espécie de castigo divino: não se deve desaproveitar a abundância.

O que pode retirar o Sporting de um jogo em que as duas únicas oportunidades surgiram de iniciativas individuais (cavalgada de Coates aos 8’ e remate à trave de Eduardo aos 37’)? Bem, que os melhores momentos do jogo aconteceram curiosamente quando já jogava com 10. Ou curiosamente porque tinha em campo Jovane Cabral e Gonzalo Plata, que são miúdos e que, não sendo ainda extraordinários jogadores de futebol, têm pelo menos ainda algum talento, aquele que falta de forma clamorosa ao onze que entrou em campo esta noite em Vila do Conde.

E com quase tudo já perdido, não valerá a pena dar tempo a quem ainda não parece jogar como um já à partida derrotado?