Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

“Anterior direção foi prejudicial, teve de ser arrancada a ferros e não tinha responsabilidade para gerir uma empresa como o Sporting”

Francisco Salgado Zenha, vice-presidente do Sporting para a área financeira, sublinha que depois do ataque de Alcochete a anterior direção não tinha condições para fazer regressar jogadores ou emitir o empréstimo obrigacionista. Defende ainda a postura da direção de Frederico Varandas face às claques e que os rostos das manifestações são "os mesmos de sempre", ainda que reconheça que a insatisfação está a crescer entre os adeptos mais moderados. Este artigo é uma das partes da versão integral da entrevista publicada no Expresso a 15 de fevereiro

Lídia Paralta Gomes, Pedro Lima (texto) e Tiago Miranda (fotos)

TIAGO MIRANDA

Partilhar

Que investimentos estão a ser feitos por esta direção?
O nosso compromisso é o de investir 12 milhões de euros na Academia até ao final do nosso mandato. Estimamos até ao final deste exercício ter investido cerca de €4 milhões. Não vou já abrir o jogo, porque há decisões que ainda não estão tomadas, porque infelizmente não temos dinheiro para tudo e há muita coisa para fazer, mas já fechámos o arrendamento dos terrenos ao lado da Academia para fazer novos campos, já falámos em reabilitar a zona de formação da Academia e temos também as salas e os escritórios do Polo Universitário que estão em muito más condições - também queremos investir aí. Estes são talvez os investimentos mais óbvios e que já estão em cima da mesa para avançar. Além destes €12 milhões, e aí estamos sempre condicionados com a Academia, que é a nossa prioridade, temos também uma componente que anda à volta dos 4 milhões de euros noutras infraestruturas, designadamente aqui no estádio, infraestruturas também tecnológicas que não temos, como os softwares de gestão. Existe também a possibilidade de wi-fi, que ainda não está fechada, mas que também está nas nossas cogitações. Sendo que outras já foram feitas: no ano passado mudámos a empresa de catering aqui no estádio e nesse acordo entrou uma intervenção muito grande na zona de cozinhas e restaurantes. E há outra que gostaríamos de fazer até ao final do mandato que é mudar as cadeiras do estádio, para uniformizar a cor e também porque há cadeiras que não estão em bom estado.

Mudar a cor das cadeiras dir-se-ia que é para clubes ricos que podem dar-se ao luxo de o fazer.
Mas por isso é que eu digo que não é só para uniformizar a cor: também há muitas cadeiras estragadas. Aliás, até houve uma partilha de fotografias e tudo. com cadeiras em muito mau estado. São condições que temos de dar aos sócios.

Isso remete-nos para o tema das receitas. Fala-se de desistências de sócios por causa da contestação, de adeptos que não vêm ao estádio e que não compram gameboxes. Notam uma redução neste tipo de receitas?
O ano passado julgava-se que iríamos ter números drasticamente inferiores ao ano anterior e, apesar de terem sido inferiores, acabámos por conseguir em algumas linhas de negócio, como o merchandising, até fazer anos recorde. Estamos a dinamizar a marca e ela tem atingido mais pessoas. Temos o objetivo de aumentar as receitas em todas essas linhas de negócio. Até final de novembro aumentámos as receitas nestas linhas de negócio à volta de 7%. E falo de gameboxes, bilhética, patrocínios e publicidade, merchandising e quotas.

Portanto, a crise de resultados não se está a manifestar nesse aspecto?
Estamos a falar de dados de final de novembro e aí foi talvez o pior período a nível de futebol - não estou a dizer que janeiro um bom mês, porque não foi, mas novembro foi a fase inicial e mais pesada desta onda de resultados negativos e em jogos se calhar tradicionalmente mais fáceis do que tivemos agora em janeiro. Portanto, apesar de alguma turbulência que houve neste início de época, óbvia, conseguimos ainda assim aguentar bem as receitas. Agora, se os resultados desportivos afetam isto? Obviamente. O que nós temos de trabalhar a nível de estrutura é mitigar a quebra dessas receitas quando os resultados desportivos são maus e otimizar quando eles são bons. E isso acho que estamos a conseguir fazer.

Há alguma estratégia para tornar a marca Sporting mais global?
Há uma estratégia nesse sentido, aliás, ao nível da internacionalização penso que nunca estivemos tão dinâmicos como agora. Obviamente que o nosso grande trunfo é a formação, é aí que nós somos verdadeiramente globais e tem sido muito por aí que temos apostado. Temos fechado alguns protocolos, fechamos agora Sydney, que nos vão gerando alguma receita que era praticamente nula antes, mas há muito mais para fazer.

Uma possível parceria com o Cristiano Ronaldo está em negociações?
Sei que o Cristiano Ronaldo, tendo a relação que tem com o Sporting, está aberto, julgo eu, a trabalhar no futuro com o Sporting. Com certeza será mais fácil se não estiver ligado a um clube, o que não quer dizer que esteja impossibilitado se estiver. Agora, isto tudo são situações complexas, mas estamos a estudar formas de o fazer. É uma das vias e, com certeza, e até para reforçar a nossa estratégia internacional, é uma pedra essencial para termos mais sucesso neste campo.

O naming do estádio é algo em que estão a trabalhar também?
O naming do estádio é algo que está nosso programa eleitoral e nunca esteve nem está descartado. Mas é um projeto que nós temos de trabalhar quando estivermos mais confortáveis com o timing de valorização de marca e do momento. Ou seja, acho que temos feito um bom trabalho na parte financeira, ao devolver credibilidade ao Sporting, acredito que sim, sinceramente acho que correu bem desportivamente no nosso primeiro ano, mas não está a correr bem desportivamente neste segundo. E o timing para vender o nome do estádio é quando a marca está valorizada. Neste momento não está tão bem valorizada como se estivesse se nós estivéssemos, por exemplo, em 1.º lugar no campeonato. Neste momento não é o timing.

Negociar um naming para a Academia também é uma hipótese?
Sim, também é uma hipótese que estamos a estudar. Não temos nada em cima da mesa, nem está no topo das nossas prioridades pelas razões que disse anteriormente.

Não considera que pode ter sido um erro a hostilização que houve em relação às claques? Chamar-lhes “escumalha” não foi excessivo?
A relação desta direção com as claques nunca foi de virar costas, pelo contrário. Quando esta direção entra, em setembro de 2018, entra pouco depois dos acontecimentos de Alcochete que estão intimamente ligados a uma das grandes claques do Sporting. O fácil para nós, e tínhamos, parece-me, bastante respaldo dos sócios, era acabar com protocolos. Seria um timing fácil para o fazer, mas nós não o fizemos, porque sempre defendemos que as claques são importantes para o Sporting. Nós não somos contra as claques, mas ser a favor das claques é diferente de compactuar com determinadas atitudes. Quando chegámos havia uma dívida muito grande das claques e havia também vários comportamentos incorretos. Nós quisemos dar-lhes a mão, mas por outro lado dizer que as coisas tinham de mudar e eu acho que isso é legítimo. Ainda demos um ano de transição e esta época alterámos as condições do protocolo, usando este ano como um segundo ano de transição. Em primeiro lugar acabaram os bilhetes grátis, porque nós não conseguimos controlar a venda de bilhetes e não queremos tráfico de bilhetes nem alimentar direções de claques. Por outro lado, todos os bilhetes passaram a ser nominativos e vendidos na nossa bilheteira. Isso permite evitar ao máximo qualquer especulação e contrabando. Nós queríamos acabar com esse negócio. Mas demos outras condições: plafonds de incentivos de logística para jogos fora, gameboxes muitíssimo baratas, em média a 5 euros por jogo, mas com a diferença que o bilhete de época passou a ser nominativo, ou seja, passa a ter o nome da pessoa. Foi a única coisa que pedimos de diferente. Coincidência: a partir desse momento a atitude das claques muda drasticamente. Usa-se a desculpa dos resultados desportivos, mas não, foi a partir desse momento, em que nós até estávamos em 1.º lugar no campeonato. E fizeram uma coisa que eu acho que não é aceitável. Não tenho nenhum problema que assobiem as direções. O que não é aceitável é as claques terem melhores condições e mais regalias que o sócio que paga e depois irem para os jogos assobiar os jogadores, inclusivamente no aquecimento, e fazer tentativas de agressão às direções, apedrejamentos às direções... acho isso inaceitável. Quer dizer, nós temos até dificuldades em mudar cadeiras que estão em mau estado para os sócios que põem cá dinheiro e subsidiamos claques que assobiam os nossos jogadores e apedrejam direções eleitas legitimamente pelos sócios. Isto é uma loucura, é tudo ao contrário. Nós tivemos um jogador, estrangeiro e experiente, que nos veio dizer que nunca tinha visto uma coisa assim. Isto depois de um jogo em que o Max, um miúdo da nossa formação, é titular e a claque estava a assobiá-lo no aquecimento. E nós damos dinheiro a estes senhores? Porque é que não dou ao senhor Manuel Silva que é sócio do Sporting e que se calhar paga as quotas há 50 anos e deu a vida toda ao Sporting? Isto não foi só dinheiro que esteve em causa, também foi importante, porque eles não pagaram e devem muito dinheiro ao Sporting, mas, além disso, foi a falta de cumprimento do protocolo, porque o protocolo também diz que as claques têm de apoiar as equipas e isto não é apoiar.

Mas as claques são formadas por muita gente e nem todos agridem ou participam em negócios de bilhetes.
Tenho a certeza que não, mas a responsabilidade dessas pessoas que estão tristes com a situação é tirar as suas direções de lá ou então incentivam as direções das claques para que haja um diálogo mais construtivo. Porque o que nós tivemos até agora foram ameaças a dirigentes, pontapés a dirigentes do Sporting e cuspidelas em dirigentes do Sporting.

Sente-se seguro no seu dia-a-dia?
Sinto-me totalmente seguro, nunca recebi nenhuma ameaça e tenho lidado bem com a situação. E, sobretudo, lido muito bem com as minhas convicções. Nós sabemos que estamos a fazer o certo e quando assim é fico muito mais leve. Eu não sinto insegurança, porque acredito naquilo que estamos a fazer e acredito que mais tarde ou mais cedo as pessoas vão aprender com aquilo que estão a fazer. Agora, acho que é óbvio que, neste momento, eu não estou tão seguro quanto um cidadão comum.

Identificar adeptos que agridem e cometem desacatos e expulsá-los do futebol era o ideal, sendo que isso não depende só do Sporting, depende também do Governo. Qual é a posição do Sporting?
Obviamente que isto é um tema social, isto não é um tema do Sporting. O Sporting tem os meios que tem, faz um esforço para ter a sua segurança da forma mais eficiente possível, tem câmaras de vigilância, tem uma equipa de Assistentes de Recinto Desportivo muito grande em todos os jogos, mas isto vai muito para lá daquilo que é o controlo que o clube pode fazer. Isto é um evento social, que gera muito interesse por muita gente, chegam a estar quase 50 mil adeptos no estádio nos jogos mais lotados do Sporting. Uns 80% ou 90% da população portuguesa são adeptos dos três grandes e estas discussões, picardias e confrontos não existem só nos estádios, também fora deles. Se o próprio Governo não consegue resolver o problema onde está a acontecer o espetáculo, ainda mais difícil vai ser gerir fora do espectáculo. E aí o Sporting não tem mesmo nada a ver. Tem de se matar o mal pela raiz e isso é resolver o problema onde o espectáculo acontece. O Governo não pode ficar de fora, não se pode desresponsabilizar. Nós chegámos a ter respostas do Governo a dizer que nós é que tínhamos de detetar os espetadores que causam distúrbios. Como é que vamos fazer isso? Temos de ter câmaras em todo o lado? Isto não começa aqui. A morte do adepto italiano foi fora do estádio. Ou se assume que isto é um problema social e remamos todos para o mesmo lado, ou então vai ser muito difícil acabar com este problema. Em Inglaterra acabaram com as claques. E foi um problema do Estado, não foram os clubes. Nós sabemos de pessoas que estão no topo Sul, ao pé das claques, que queriam cantar na primeira parte com o Benfica e em outros jogos e foram lá as claques mandá-los calar e ameaçá-los. Neste momento há uma manipulação daquele sector para não apoiar o Sporting. Uma ameaça, seja num estádio de futebol ou noutro sitio qualquer, é um tema de polícia, não é um tema do Sporting.

TIAGO MIRANDA

O facto dos resultados desportivos não estarem a ser bons tem levado a um aumento da contestação até por adeptos mais moderados. As imagens da manifestação em Alvalade há duas semanas mostram que não eram só membros das claques que ali estavam. Teme um aumento da contestação do adepto comum?
A sensação que temos é que normalmente são sempre as mesmas pessoas que estão nas manifestações. Mas, atenção, nós também não estamos fechados num casulo e sabemos que as direções também são contestadas, que também cometemos erros, que quando cometemos erros há pressão e que há sócios moderados que não estão agradados com aquilo que tem sido o desempenho desportivo. Aliás, digo-vos mais, nós também não estamos. Com todo o direito, as pessoas podem democraticamente manifestar-se. Nós nas primeiras assembleias gerais sentimos logo uma contestação enorme e não podiam dizer nessa altura se estávamos a fazer um bom ou mau trabalho porque não tínhamos tido sequer tempo para fazer nada. Porque a direção que viesse naquele momento, com a cisão que existia, iria sempre ser contestada. Há um eleitorado, os tais 30%, que vão sempre votar contra nós e participar em todas as manifestações, sempre. Mas eu tenho consciência que, além desses 30%, há pessoas que já estiveram satisfeitas e agora não estão satisfeitas, que se calhar não se manifestavam antes e que agora manifestam-se. Temos consciência que em muitas coisas temos de fazer melhor do que aquilo que estamos a fazer. Mas também que muitas dessas manifestações são alimentadas por pessoas que sempre tiveram contra nós. Olhamos para fotografias e vemos caras que são as mesmas de sempre.

Mas acha que a anterior direção ou alguns membros da anterior direção poderão estar por trás de alguns destes movimentos e manifestações?
Há uma coisa que eu não consigo perceber: é porque é que ainda existe alguém da antiga administração que tem ambições de nos tirar daqui? Porque para mim, do ponto de vista financeiro, aquilo que fizeram foi do mais prejudicial ao Sporting que eu vi nos últimos anos. Em maio de 2018 adia-se o empréstimo obrigacionista. Pode dizer-se que há acordo com os credores, mas toda a gente percebe que o Sporting simplesmente não tinha capacidade para reembolsar os obrigacionistas nessa altura. Há um adiamento, ainda com a anterior direção. Depois dos acontecimentos de Alcochete há uma série de rescisões. Não havia grande relação daquela direção com os jogadores e, portanto, a probabilidade dos jogadores chegarem a acordo com eles era relativamente baixa - e esses acordos foram essenciais para a sobrevivência do Sporting. Mais: vamos assumir que não havia Assembleia Geral destitutiva ou que eles ganhavam essa AG. Veja-se o absurdo de em novembro nós estarmos a emitir o empréstimo obrigacionista e o presidente do Conselho de Administração e do Conselho Diretivo do Sporting ser constituído arguido e nós estarmos a comercializar o empréstimo. Se isto dá alguma credibilidade ao mercado financeiro... Eu venho de mercados financeiros e isto é inconcebível. Portanto, é óbvio que aquela direção não tinha condições para ali estar e qualquer financeiro ou gestor que olhasse para ali, independentemente de ter culpa ou culpa nenhuma, tem que saber que não tem condições para ali estar. E eles ficaram todos, foi preciso serem arrancados a ferros numa Assembleia Geral destitutiva. Isso mostra que esses senhores não têm sequer responsabilidade, na minha opinião, para gerirem uma empresa como o Sporting. Qualquer analista financeiro vê que eles não tinham condições, primeiro, para emitir aquele empréstimo obrigacionista - e eu recordo que nós começámos a comercializar aquele empréstimo um dia depois do Dr. Bruno de Carvalho ser constituído arguido - e, depois, imagine-se no meio disto tudo fazer-se um financiamento com um dos maiores fundos do Mundo como nós fizemos.

Isso é uma crítica a Carlos Vieira?
É uma crítica a todos os que lá estiveram. Eu acho que um financeiro não ver isto é mais grave do que alguém que não é financeiro, mas é uma crítica a todos os que ficaram até ao fim.

Quanto às contingências de processos judiciais do Sporting, estamos a falar de que valores?
O Sinisa Mihajlovic já não é contingência porque infelizmente perdemos o caso. Estamos a analisar uma possibilidade de recurso, mas perdemos o caso, são cerca de 3 milhões de euros. O nosso ativo contingente é muito superior ao nosso passivo contingente, no caso do Rafael Leão esperamos que seja positiva a surpresa e não negativa.

A próxima época já está a ser preparada?
Sim, não posso abrir o jogo totalmente, mas já estamos a preparar a época. Em termos de estratégia do futebol e financeira, passámos uma primeira fase e vamos agora para uma segunda fase. No primeiro ano, e sobretudo no mercado de janeiro, havia o objetivo de reestruturar muito depressa a equipa, contratar vários jogadores por valores relativamente mais reduzidos, mas que tivessem essa implicação na massa salarial. E há uma coisa que eu quero dizer que não disse antes e que é fundamental: hoje, independentemente do desempenho desportivo, e salvo raras exceções que ainda vêm de trás, quase todo o plantel do Sporting em termos financeiros é líquido. Ou seja, os salários que nós pagamos aos jogadores estão de acordo com o mercado. Por isso, mesmo os jogadores com pior rendimento têm mercado, coisa que não existia quando nós chegámos. Eu não vou dizer nomes, mas tínhamos aqui jogadores que depois de chegarmos a acordo e pagarmos a indemnização nos disseram 'pois, peço desculpa, de facto recebia bem demais'. Hoje em dia, os salários que praticamos estão de acordo com o mercado. Isto foi o que nós fizemos na primeira fase. Agora entrámos numa fase diferente, que começou agora em janeiro: queremos contratar menos jogadores, estando dispostos se calhar a pagar um valor superior.

A nível financeiro, qual é o peso de um clube como o Sporting não estar na Champions?
A não ida à Champions é obviamente um tema importante, porque vai-se criando um fosso maior à medida que uns vão à Liga dos Campeões e os outros não vão. É uma receita muito importante, que tem muito impacto em clubes que estão em ligas menores. Mas nós também não podemos ser precipitados e nós não podemos ir à Liga dos Campeões a fazer all in, a pôr a carne toda no assador e depois correr mal. Uma das coisas que sofremos na época 2018/19 é exatamente que houve um investimento muito forte na época 2017/18 para ir à Liga dos Campeões e falhou-se o 2.º lugar na última jornada. E perdeu-se ali facilmente 15 a 20 milhões de euros de receitas. E isso é logo quase dois terços do gap operacional. O que nós temos de ter cuidado é em não fazer um ano como esse de grande investimento, não ir à Champions e depois ficarmos aflitos no ano seguinte e andarmos a fazer operações loucas, sem conseguir cumprir com as nossas responsabilidades, a acumular dívidas de 40 milhões de euros a outros clubes e andar nesta roda-viva que põe em causa o futuro do clube. Obviamente que os acontecimentos de Alcochete também prejudicaram muito, mas também houve algum excesso. Temos de criar condições para ir à Champions, mas temos de primeiro criar os alicerces para depois poder atacar esse lugar. Queríamos tê-lo feito este ano, não correu bem, temos que nos preocupar já no próximo ano em conseguir lá chegar.

Vai ser necessário vender no verão?
Sim. Não escondo isso, nós somos um clube vendedor, como são os outros. E desafio aqui os nossos outros três rivais a comprarem mais do que vender. Duvido que o façam.

E será necessário vender para comprar ou neste momento já é possível comprar antes de vender?
Estamos a fazer uma gestão de liquidez cada vez mais rigorosa e vamos tendo mais capacidade. O rigor financeiro foi o nosso primeiro grande objetivo nesta área. E isso permite-nos às vezes gerir o orçamento das compras e das vendas. Mas nós somos em geral um clube vendedor e à medida que vamos tendo mais almofadas financeiras, como foi agora a venda do Bruno Fernandes, podemos ir gerindo melhor esses timings. Isso também depende da oportunidade. Pode acontecer conseguirmos vender antes, o Matheus Pereira, por exemplo, a probabilidade dele sair parece-me alta e é um jogador que já tem um mercado grande, portanto mesmo que não ficasse no WBA com certeza haveria outro clube interessado. Isto é um exemplo de outras receitas que poderemos fazer. E pode sempre haver algumas surpresas, por exemplo, ainda há bocadinho falámos de algumas contingências que temos. Sobre o caso do Rafael Leão contamos ter uma decisão até ao final desta época desportiva e quando tivermos pode ter ou não ter peso. Mas respondendo à pergunta diretamente sem darmos grandes voltas, sim, é possível comprarmos antes de vender.