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“Quando chegámos ao Sporting, o controlo era zero: softwares descontinuados, faturas passadas à mão. Estava ao nível de uma rulote”

É o rosto financeiro da direção liderada por Frederico Varandas e a quem coube tentar recuperar as contas do Sporting após o momento negro das agressões a jogadores e técnicos em Alcochete. Renegociar o acordo com a banca, controlar custos e aumentar receitas no meio de forte contestação são os objetivos. Esta é outra parte da versão integral da entrevista publicada no Expresso a 15 de fevereiro

Lídia Paralta Gomes, Pedro Lima (texto) e Tiago Miranda (fotos)

TIAGO MIRANDA

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Em que fase está o Sporting a nível financeiro?
Quando esta direção entrou em funções, há um ano e meio, encontrou uma situação muito complicada a nível de tesouraria, o que é relativamente compreensível tendo em conta o evento de Alcochete em maio de 2018 e toda a turbulência à volta disso, com as rescisões de jogadores e sucessivas mudanças de direção. Até março de 2019 tivemos de levantar cerca de 110 milhões de euros, €26 milhões vieram do empréstimo obrigacionista, €18 milhões do acordo com o Rui Patrício [de saída do clube na sequência dos ataques de elementos das claques em Alcochete] e €65 milhões numa operação de titularização. Fizemos isto num espaço de seis meses, o que foi altamente exigente e nos permitiu responder às necessidades correntes da altura. Foram operações sem as quais teríamos tido dificuldade em pagar salários. Tivemos de agir muito depressa.

O pagamento de salários esteve em risco?
É preciso perceber que na gestão de tesouraria há sempre muitas variáveis sendo que as nossas maiores preocupações são sempre pagar os salários, os impostos e depois aos fornecedores e parceiros financeiros. Se não tivéssemos feito o acordo com o Rui Patrício teríamos tido dificuldades em cobrir as responsabilidades prementes de salários e ao mesmo tempo reembolsar os obrigacionistas, até porque nós emitimos €26 milhões, mas tivemos de reembolsar €30 milhões. Quando chegámos, tentámos chegar a acordo com todas as partes envolvidas nas rescisões, acabámos por fechar com quem revelou maior abertura e proximidade ao valor que queríamos. A negociação com o At. Madrid [para a saída de Gelson Martins] começou na mesma altura da do Rui Patrício, mas demorou um ano a ser alcançado um acordo. Tínhamos também até 31 de março para cumprir o acordo de fair play financeiro e para o cumprir teríamos de ter em dia as dívidas aos clubes - tínhamos dívidas vencidas a clubes no valor de 40 milhões de euros.

E a partir daí?
Numa primeira fase tivemos de resolver os problemas prementes de tesouraria, mas a situação financeira do Sporting não ficou completamente resolvida. A partir daí foi necessário um processo de equilíbrio financeiro do Sporting. Começámos por olhar para a estrutura de custos e verificámos que estava desequilibrada. Os nossos resultados operacionais sem transação de jogadores eram negativos em 35 milhões de euros, portanto a primeira coisa que fizemos foi tentar reequilibrar esse défice, ou seja, tentar não viver acima das nossas possibilidades. Em janeiro do ano passado fizemos uma reestruturação da equipa de futebol profissional, tínhamos uma massa salarial muito alta, de €74 milhões, reduzimo-la e dispensámos jogadores que recebiam muito bem e que tinham poucos minutos de jogo, como o Castaignos, o Bruno César, o Lumor, o Viviano, o Marcelo e o Montero.

E o Nani?
O Nani era um pouco diferente. Era um jogador que jogava e tinha muitos minutos mas tinha um salário muito alto. Contudo, a sua saída permitiu-nos otimizar o nosso melhor jogador, Bruno Fernandes. Essa decisão foi tomada em coordenação com o departamento de futebol. Achámos que podíamos tornar o Bruno Fernandes mais produtivo retirando o Nani, além de que do ponto de vista financeiro fazia todo o sentido. É verdade que alguns erros foram cometidos neste mercado de verão, mas aquele mercado de janeiro permitiu trocar esses jogadores excedentários por jogadores novos cuja massa salarial era muito inferior. A poupança líquida que fizemos foi de cerca de 10 milhões de euros anualizados, quase deu para pagar a contratação dos novos jogadores, que no total nos custaram 12 milhões de euros. O impacto dessa poupança no médio/longo prazo é brutal.

Inicialmente houve então uma boa gestão da equipa?
Excelente. Temos de ser francos: Luís Phellype foi muito mais útil ao Sporting do que o Castaignos e mesmo do que o Montero naquela época. Pode dizer-se também que o Plata ou o Borja ou mesmo o Doumbia são mais úteis do que o Bruno César, ou o Marcelo… quase todos acabaram por jogar mais e contribuir desportivamente para o sucesso que tivemos naquela época, designadamente nos dois títulos que conquistámos [Taça de Portugal e Taça da Liga]. Essa reestruturação correu muito bem, isso é objetivo. Permitiu-nos ter sucesso desportivamente e também melhorar muito o rendimento do Bruno Fernandes, quer desportiva quer financeiramente. Vou insistir muito nisso porque foi agora concluída a sua venda, que provou isso mesmo. É unânime que o Bruno Fernandes no final do exercício de 2017/18 valia menos do que no final da época 2018/19. Com isto conseguimos reduzir 5 milhões de euros na massa salarial que são 10 milhões de euros anualizados porque aquela reestruturação foi feita em janeiro. Este ano já vamos ter o reflexo dessa poupança salarial. A nível financeiro, voltámos a fazer uma reestruturação no verão, tivemos infelizmente que indemnizar alguns jogadores que tinham salários altos demais para aquilo que era a produção e o rendimento deles, isso implicou até um impacto alto na massa salarial porque, no fundo, tivemos de pagar indemnizações a pronto. No final do primeiro trimestre (de 1 de julho a 30 de setembro) dá a sensação de que a massa salarial aumenta mas não é verdade, no final do ano vai-se perceber isso, provavelmente teremos uma redução de mais 5 milhões de euros e no próximo ano já teremos o impacto dessas indemnizações. A nível de custos estamos a conseguir o que preconizámos: reduzir a massa salarial, tentando manter a competitividade a equipa.

O que correu mal na preparação desta época desportiva? Foi um erro não vender Bruno Fernandes no verão?
Frederico Varandas já o disse em ocasiões anteriores: o nosso plano A era a venda de Bruno Fernandes, e era esse o plano do próprio jogador, depois da época que fez, depois do contrato que assinou e da célebre cláusula dos 35 milhões de euros, que não estava lá por acaso. Além de ser um grande jogador, o Bruno é uma excelente pessoa e teve sempre uma postura corretíssima. Depois de conquistarmos a Taça de Portugal em maio, preparámos a pré-época, o orçamento, com o pressuposto de que Bruno Fernandes iria sair. Montámos os nossos planos de contingência, mas o nosso plano A era claramente vender o Bruno Fernandes. Acabou por não sair porque houve uma única proposta de 45 milhões fixos, mais 20 de objetivos muito dificilmente atingíveis. Tanto nós como o jogador considerámos que era insuficiente face ao seu valor e face à conjuntura do mercado. Tivemos de tomar uma decisão difícil e acionámos um plano B. Aí é que acho que foi o nosso erro, atrasámos um pouco o acionar do plano B. No princípio de agosto entra também o Jorge Mendes na operação, começa a haver manifestações de interesse de outros clubes e por isso ficámos um pouco reticentes em vender um dos nossos melhores jogadores, que era o Raphinha, o nosso plano B, porque poderíamos acabar por perder o Raphinha e o Bruno Fernandes na mesma janela de mercado. Aí estancámos um pouco a saída do Raphinha. Como o Bruno Fernandes acaba por não sair, acionámos o plano B e sai o Raphinha. Ao mesmo tempo há também a operação Bas Dost, que gerou muito alarido, mas são coisas diferentes que se misturam no fim. Isso ainda baralhou mais a opinião pública, parecia que nada estava planeado e que a ideia era vender tudo ao mesmo tempo, mas não era. O Bas Dost era uma situação diferente.

Bas Dost seria vendido de qualquer forma?
O objetivo era vender. Foi o próprio Bas Dost que manifestou vontade de sair, em maio chegou a pedir ao nosso gabinete de apoio ao jogador para tirar fotos à casa para a vender. Não foi um capricho da direção do Sporting, houve um interesse de todas as partes em que ele saísse, era um jogador muito oneroso que precisávamos de vender caso o Bruno Fernandes não saísse. Mas depois das férias, quando ele volta, vem com uma postura diferente, o que coincidiu com a sua falta de vontade posterior de sair, ou pelo menos com a resposta que deu relativamente a outras propostas que foram sendo feitas. Tivemos várias acima dos 10 milhões de euros, da China, Turquia, Rússia, mas ele não queria ir para esses mercados. A decisão da saída do Bas Dost foi financeira e foi muito minha. Estávamos em meados de agosto e numa situação em que Bruno Fernandes não era vendido e o orçamento não estava cumprido. Quando em meados de agosto tenho o jogador mais caro do plantel – provavelmente o mais caro da Liga portuguesa toda – a rejeitar as propostas todas, não posso aceitar o pedido de contratação de outro avançado. A minha expectativa de que Bas Dost saísse até ao final do mercado era quase nula. Por acaso surge uma proposta já quase no final de agosto, e foi uma decisão muito difícil, porque o Bruno Fernandes também não estava vendido. Hoje, olhando para trás, estou de acordo que isso desestabilizou o plantel e passou uma imagem de confusão quando na verdade tudo estava planeado. Mas a execução, de facto, foi concentrada e isso criou instabilidade. Quando o Bas Dost estava a ser negociado estava na calha entrar um outro jogador, mas esse jogador, tendo tudo fechado connosco, assim que assinámos com o Bas Dost transmite-nos que a mulher está grávida, que a criança vai nascer em dezembro e que afinal a mulher já não quer sair de onde estavam.

Quem era o jogador?
Isso deixo para o departamento de futebol responder… Temos perfeita consciência de que houve um esticar do prazo, se calhar executou-se muito tarde a saída do Raphinha e esperou-se tempo demais pelo Bruno Fernandes, sempre com receio de perder os dois jogadores ao mesmo tempo. Tudo isto gerou alguma celeuma e instabilidade no início da época, misturado com alguns resultados menos positivos, resultantes também dessas situações e mudanças sucessivas de treinadores.

Todas essas situações acabaram depois por dificultar o reforço do plantel? Foram cometidos erros posteriormente?
O timing correu naturalmente mal. A instabilidade de um clube, de uma empresa, não ajuda na valorização dos ativos nem no desempenho dos jogadores. A instabilidade criada naquele momento, e nós assumimos a nossa quota-parte de responsabilidade, e a causada depois pelas claques, não ajuda à estabilidade da equipa em campo. Enquanto não houver estabilidade vai ser mais difícil as equipas terem melhor desempenho, temos todos de trabalhar em prol de devolver a estabilidade ao clube. Foi importante ter passado esta hipótese de uma assembleia geral destitutiva, as pessoas hoje respiram melhor sabendo que essa questão está resolvida.

Mas acredita mesmo que neste mandato o Sporting conseguirá atingir estabilidade?
É uma ótima pergunta e a resposta é difícil. O Sporting tem tido estabilidade nos últimos anos, nas últimas décadas? O Sporting é um clube estável? Eu acho que não é. O que esta direção pode fazer é lutar para dar o máximo de estabilidade ao Sporting. Conseguiremos ser campeões enquanto não tivermos estabilidade? Não. Temos hoje condições para isso? Acho que não. Tínhamos condições para isso há um ano ou dois? Acho que não.

Como é trabalhar no meio de tanta contestação?
É difícil. É complexo transmitir – e se calhar aí não temos sido felizes e temos de melhorar - que tem que se começar pela base, que estamos a trabalhar na base, a base agora é muito financeira porque a situação é difícil e que à medida que formos resolvendo os problemas financeiros vamos conseguindo também ter sucessos desportivos.

TIAGO MIRANDA

Esta direção não deveria ter sido mais contundente a explicar os problemas financeiros do clube aquando das eleições ou logo quando tomou posse?
Tentámos sempre passar uma mensagem construtiva. Acreditávamos e acreditamos que o Sporting tem condições para ser sustentável no longo prazo, que é uma empresa solvente, no caso da SAD, e que tem condições para ter sucesso e estabilidade financeira. Atendendo a uma série de financiamentos que estávamos a fazer, a nossa mensagem só podia ser positiva. Seria fácil batermos no que vinha de trás, baixarmos as expectativas das pessoas e se calhar devíamo-lo ter feito. Se o ano que está a decorrer em termos desportivos tivesse sido o ano passado e se o ano passado fosse este ano, estaria toda a gente satisfeita. As dificuldades existiam – e existem. De tal maneira existem que acabámos de vender o Bruno Fernandes e havia a expectativa de que esbanjássemos o dinheiro a contratar jogadores por 20 milhões de euros como fez o Benfica e nós não o fizemos.

Frederico Varandas disse que havia necessidades totais de tesouraria de 215 milhões de euros e que tinham de fazer vendas de 115 milhões de euros em dois anos para sobreviver.
Juntando os 110 milhões de euros obtidos com o empréstimo obrigacionista, com o acordo com o Rui Patrício e com a operação de titularização aos valores obtidos com as vendas do Raphinha, do Bruno Fernandes e de outros jogadores, atingimos esses 215 milhões de euros, que são todas as necessidades de tesouraria que tivemos até à data mais a tesouraria para fazer face a outras necessidades e um eventual investimento que teremos de fazer na Academia e outros investimentos fundamentais para o Sporting. Quando chegámos tínhamos uma cobertura no estádio que não tinha manutenção há um ano, tínhamos software e hardware informático arcaico, sem condições nenhumas de segurança. O Sporting é uma empresa já de uma dimensão muito interessante a nível de balanço e em termos de exposição é uma das maiores empresas portuguesas e a nível de estrutura era uma rulote quando cá chegámos. Era zero em termos de processos. As modalidades contratavam atletas sem sequer dar conhecimento à direção financeira ou aos recursos humanos. Ia diretamente à administração, que assinava, e depois havia o processamento salarial, nós só fazíamos o controlo quando chegava o processamento salarial. O controlo era zero. Não foi por falta de qualidade das equipas que aqui estavam, o planeamento e controlo fazia omeletes sem ovos, montaram uma plataforma de controlo de despesas em Excel, não havia controlo prévio, só havia controlo depois do fecho de contas. Os softwares informáticos estavam todos descontinuados, havia três sem ligação nenhuma, as faturas passavam de um software para outro à mão, sem integração nenhuma. Estamos a trabalhar na implementação de um novo software informático, que vai revolucionar o Sporting.

Em setembro disse que não era essencial vender o Bruno Fernandes neste mercado de inverno. A sua venda foi uma oportunidade ou uma necessidade de tesouraria?
Ambos. O Sporting, tal como é qualquer um dos nossos rivais, é um vendedor líquido de jogadores. Tínhamos de fazer vendas líquidas porque tínhamos interesse em contratar um avançado [Sporar]. Uma coisa estava dependente doutra. Comprámos o Sporar antes de vender o Bruno Fernandes, é sempre uma gestão de risco que temos de fazer, mas estávamos confortáveis. Respondendo à pergunta, sim, tinha de ser vendido. Somos sempre vendedores e havia alternativas ao Bruno Fernandes, estávamos a trabalhar noutras alternativas, houve sondagens.

Foi quase até ao fim do mercado de inverno.
Sim, e isso é outra vez fruto do que é a exposição do Sporting. Há de tal maneira ruído à volta do Sporting e das dificuldades financeiras do Sporting – até temos jornais desportivos a dizer que estamos em saldos… Temos um escrutínio brutal de tudo o que são as nossas contas, tudo o que nós fazemos, o que condiciona as negociações. Eu apercebi-me nas negociações, e estive bastante envolvido nelas, como devem calcular, que o Manchester United estava convencido que nós íamos ceder e que por €50 milhões faziam o negócio. Pois muito bem, acabaram a pagar €65 milhões, porque nós fomos mais resistentes que eles e sabíamos que eles queriam e precisavam muito do jogador.

Do outro lado estavam a jogar com um certo desespero que o Sporting poderia transparecer?
Não tenho dúvidas. Mas enganaram-se. E acabaram a pagar aquilo que nós queríamos. Porque também vos digo, na primeira vez que conversámos, explicámos logo quais eram os nossos números e acabámos a fazer praticamente aquilo que dissemos. Fiquei, confesso, muito satisfeito com aquilo que foi a nossa negociação. Foi muito difícil, muito dura, desgastou todas as partes, mas acabámos por ir buscar mais €20 milhões do que se tivéssemos vendido há quatro meses. Vinte milhões pesa muito no nosso orçamento.

O que falta fazer na reestruturação financeira? Vai haver perdão de dívida por parte dos bancos?
O que houve inicialmente foi uma renegociação dos termos do acordo da reestruturação financeira de 2014, que permitiu reduzir, entre outros, aquela percentagem do reembolso sobre o excesso de venda de passes de jogadores. Isso foi uma primeira fase e há naturalmente uma segunda fase que para mim é necessária. E para isso é importante perceber o contexto.

Qual é?
A opinião pública diz que há perdão de dívida, que os bancos ajudam o Sporting... os bancos hoje em dia ajudam zero o Sporting. Não ajudam mais do que qualquer outra empresa, só estão interessados no negócio deles. O problema que há do Sporting com os bancos e dos bancos com o Sporting é um problema que vem de trás, que é um negócio a que eu chamo de lost-lost: todos perderam com este negócio. Os bancos porque emprestaram muito dinheiro ao Sporting e depois tiveram de andar a fazer reestruturações sucessivas e o Sporting porque está completamente estrangulado, que nem se consegue mexer. Fruto, sobretudo do acordo de 2014, que foi, atenção, muito bem feito e era necessário naquela altura, mas estrangulou-nos completamente. O acordo está descontextualizado. Agora foi melhorado, mas ainda não está como deve estar. Agarrando no mais importante, que é essa história do excesso de venda de passes de jogadores. O mercado de transação de jogadores inflacionou brutalmente desde esse acordo, acho que até se pode chamar um período antes de Neymar e depois de Neymar. Em 2017, houve um aumento do volume de transações de jogadores de futebol de cerca 30%. E esse aumento condiciona brutalmente o Sporting e faz com que este acordo esteja completamente descontextualizado. Porquê? Porque as receitas aumentam, o excesso de venda de passes de jogadores também vai aumentar, portanto o reembolso aos bancos acelera brutalmente, mas não se tem em conta os custos. Então mas agora não é mais caro para o Sporting contratar jogadores? Claro que também é. Isto não é só bom do lado da venda, também é muito mais caro contratar jogadores. Um jogador que antes custava 2 milhões de euros hoje em dia custa 6 ou 7 ou 8. Também pagamos mais aos agentes. Hoje em dia a massa salarial é muito superior ao que era dantes. E isso não é tido em conta no acordo. Mais: o próprio custo da formação é muito mais alto, porque os stakeholders do mercado do futebol não são parvos. E dizem assim 'espera aí, se agora é muito mais caro contratar jogadores feitos, eu vou começar a ir aqui à base da curva, que é a formação". E começam a ir buscar os meninos por 10, 15 milhões aos magotes. O que faz com que a formação seja mais cara. Dá-se casos em que temos de pagar comissões a agentes e contratos de jogadores de miúdos de 14, 15, 16 anos. Isso penalizou o Sporting e todos os clubes também a nível de gastos, mas o acordo com os bancos não tem isso em conta. Os bancos estão-se a borrifar.

É possível melhorar o acordo?
Nós já o alterámos, mas ainda podemos ir mais longe. Tendo em conta isto, e como os bancos já manifestaram publicamente que não têm interesse em trabalhar com o setor do futebol, alguma coisa tem de ser feita. Passo a arrogância, acho que nós estamos a fazer um excelente trabalho a nível financeiro, sinceramente, e isso é provado em toda a linha. Posso dar exemplos: quando nós chegámos, ninguém queria o nosso risco e hoje em dia tenho muitas instituições financeiras a procurar o nosso risco. Comprámos um jogador ao Internacional de Porto Alegre, o Eduardo, e temos uma instituição financeira que fica com o risco do Sporting. A mesma coisa agora com o Slovan Bratislava e o Sporar. Isto não acontecia quando chegámos, ninguém queria o nosso risco. Aliás, o V. Guimarães faz-nos um pedido de insolvência, altamente injusto, porque atrasámos o pagamento dois meses, mas foi para nos pressionar, porque tentou ir vender o nosso risco e não conseguiu. Hoje em dia já consegue. Nós devolvemos essa credibilidade ao mercado financeiro e temos cumprido com as nossas responsabilidades.

Assim os bancos já não se importam de estar expostos ao futebol.
Mas importam, porque manifestam que importam. Obviamente eu percebo, eles têm análise de risco, não estão confortáveis e têm um histórico com o Sporting que é assim e assado. Mas os bancos têm de fazer uma coisa, que é o que fazem com todas as empresas: ou reestruturam, ou refinanciam e estão dispostos então a trabalhar connosco, ou então saem de cena e revendem a dívida. E eu aí digo: muito bem, querem revender a dívida, revendem-na a nós. Faz mais sentido vender ao Sporting do que a um fundo abutre, seria uma tristeza ver esse cenário, nem acredito, acho que os bancos não fariam isso. Também percebo que os bancos não queiram vender a um preço mais baixo ao Sporting do que venderiam no mercado. Mas nós também não pedimos isso, o que nós dizemos é: muito bem, se não querem trabalhar connosco, revendam-nos a dívida a preço de mercado. E nós estamos dispostos a fazer isso.

Há informações de que o Novo Banco não chegou a acordo com o Sporting.
Neste momento não tive nenhuma proposta nem nenhuma comunicação de nenhum dos bancos. O que posso dizer é que aquela reestruturação foi feita e agora terá de se dar um passo neste sentido. Os bancos têm de tomar uma decisão. A primeira fase concluímos e concluímos há pouco tempo, em outubro. Agora teremos de conversar com os bancos, e estamos a fazê-lo, para trabalhar numa alternativa futura, que ainda não sabemos necessariamente qual é. Pode passar por uma ou por outra via.

Qual é a dívida do Sporting aos bancos neste momento?
Cerca de 120 milhões de euros.

E ao nível dos Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis (VMOC)?
Os VMOC são 135 milhões de euros que com o acordo que temos valem cerca de 40 milhões de euros. Porque nós temos a possibilidade de recomprar os VMOC a 30% do total.

Qual a relação que o Sporting tem com o Fundo Apollo?
Fez um financiamento normal ao Sporting em março de 2019. Se o Sporting continuar a trabalhar com os bancos e se houver um acordo como deve ser com os bancos, então nem há necessidade de fazer mais nada. Se o caminho for a recompra de dívida aos bancos então aí sim o Sporting terá que procurar um financiador para recomprar essa dívida. E aí pode ser o mesmo fundo de investimento, ou outro fundo. Há várias alternativas. Aquilo que nós verdadeiramente queremos é alargar a asfixia e para alargar a asfixia temos de acabar com o acordo que temos hoje com os bancos. E eu sinceramente acho que isto é reconhecido pelos bancos.