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Resumindo, foi um jogo estranhíssimo

O Aves que fez três faltas até ao intervalo já tinha, aos 23 minutos, dois jogadores expulsos. Isso garantiu que raro seria conseguirem atacar, deu toda a bola do mundo ao Sporting e facilitou a vida à equipa de Rúben Amorim, que ganhou (2-0), mas muito pouco mostrou de coisas novas, se era sequer possível vê-las

Diogo Pombo

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Ristovski tem espanto em toda a cara. “Porquê?”, lê-se, nos lábios, quando pergunta para o lado. Está parvo, de tão surpreso. Acabou de ver o seu número, ao longe, na placa, quando há vinte e três minutos contados e todas as probabilidades são militantes pró-Sporting: acabou de ser expulso o segundo jogador do Aves. O adversário está condenado ao a mais de uma hora de sofrimento numérico.

O macedónio, que é lateral, embala o seu espanto campo fora, segue direto para o balneário, leva o presumível desgosto com ele, e entra um português de nome Jovane, que é extremo, para jogar como ala, num 3-4-3 no qual lhe compete ir, voltar, dar largura e atacar a profundidade à direita. Há uma câmara que foca um tipo, no banco, enquanto tudo acontece.

Rúben Amorim sorri, de esguelha. É uma situação estranha.

Por maior que seja o amuo de quem saiu, o treinador de apenas três treinos feitos acabava de mostrar, com uma decisão, que se adapta, reage e age, que tem pulso e que, perante o teoricamente óbvio, fez algo para, na prática, o aproveitar - com mais dois jogadores em campo, preferiu ter um extremo atacante, rematador e com olho para a baliza, do que fica com um lateral cujo comportamento ofensivo habitual é acelerar até à linha e cruzar bolas.

Ora, a intenção era clara. Os efeitos, porém, viram-se pouco, porque antes e depois de Rúben Macedo encostar os pitons à perna de Wendel e de Luiz Fernando fazer duas faltas sem necessidade, o Sporting não é camaleónico, não se adequa ao cenário. É, apenas, um conjunto de algumas intenções.

Vietto e Plata são os extremos no papel que sempre pedem a bola por dentro, no meio espaço entre centrais e laterais; Acunã e Ristovski, depois Jovane, ficam com os corredores. Mathieu, Coates e Illori são os centrais que tentam, ao início, dar ritmo aos passes em poucos toques, ou conduzir para atrair adversários e provocar espaços vagados nas costas.

Mas, fora estas, não se viam outra. A bola não circulava, nem passada era, com velocidade. Quando Vietto ou Plata recebiam nos tais espaços, ninguém se aproximava, de frente para a baliza, para tocar. Sporar, ou qualquer outro, não aceleram quaisquer movimentos de rutura, ou diagonais. O Sporting não joga rápido para fazer mexer os oito adversários de campo.

E o Aves, encostado pelos números, é capaz de manter-se juntinho e unido num comprimento de 10, 15 metros, tarefa facilitada com a tão lenta troca de bola alheia. Há uma rara dupla tabela entre Wendel e Sporar, que o esloveno remata rasteiro. Há um contra-ataque que termina com Vietto a estoirar contra a barra. Pronto, nada mais.

Vem o intervalo, há uma equipa com três faltas feitas feitas e dois jogadores expulsos. É estranho.

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Como estranho seria acreditar que três treinos, não sei, de hora e meia ou pouco mais, feitos na quinta, sexta e sábado com um novo treinador, antes de um jogo no domingo, seriam o suficiente para mostrar obra feita, um novo estilo de jogo a fluir ou os jogadores a comportarem-se de forma muito diferente.

Estranho foi, igualmente, os mais de cinco minutos que todos tivemos que aguardar para o Aves sair do balneário e regressar ao campo. O atraso garantiu-lhes uma multa. E assegurou que Francisco Geraldes alongou este, aquele e outros músculos, repetidamente, enquanto esperava para se fazer a substituição.

Saiu o critério passador de Mathieu, melhor dos centrais, para entrar o médio a quem gabam a reputação e avidez por tabelar, passar e, no fundo, fazer jogar, dando-lhe os primeiros 45 minutos seguidos de Sporting desde 2017, quando se estranhou. Dado esse prévio contexto, também é estranho vê-lo.

Com ele, o Sporting mudou para uma linha de quatro atrás, fixou seis jogadores à frente da linha da bola, fez por injetar rapidez aos passes e à circulação, mas, por muito que quem recebesse na frente do bloco do Aves e olhasse por entre a aglomeração adversária, difícil era colocar passes lá dentro. Porque, mesmo com nove jogadores, o Aves encolhia todos a 10 metros jogáveis, espremia os espaços ao máximo e fazia com que, uma, duas, três e em quase todas as jogadas, os leões circulassem a bola em quem tinham por fora.

Muitos cruzamentos saíram, catapultados com insistência, a falta de soluções ao centro a levarem-nos a bombardear a área com tentativas aéreas. A cabeça de Plata desviou uma para a bancada (55’), a de Sporar atirou outra (62’) para o 1-0 e a seguinte bateu no braço de Afonso Figueiredo. Penálti, pé direito de Vietto, 2-0 e acontecia o que parecia inevitável por decreto.

Seguiu-se mais do mesmo, um abusiva posse de bola do Sporting, para lá dos 80% e cada nove em dez passes com chegada ao destino, muita gente a receber nas alas, intensidade a ir caindo, perigo não mais visto e um relaxamento progressivo dos corpos e mentes, que até deixaram o Aves esforçar-se com dois remates, do mais frouxo e inofensivo possível, mas provas da leviandade.

E do quão trabalhosa será esta equipa. Jogar, durante uma hora, contra nove tipos a fazer pela vida garantiu, apenas, que o adversário mal atacaria e o jogo livre de riscos ficaria. Facilitou o resultado, não ajudou a ver-se o que fosse de três treinos com Rúben Amorim.

O mais estranho, porém, seria que o Sporting mostrasse grande coisa - padrões de jogo, movimentos, ocupação coordenada de espaços, reações coletivas - engenhada pelo novo treinador e apreendida pelos jogadores. Não houve tempo, nunca haveria. Podia ter havido mais velocidade, dinâmica, fluidez e bola a ser tocado nos piores sítios para o adversário, mas, se antes raramente o fazia, não seria ali, contra uma equipa tão forçosamente encolhida junto à área, que este Sporting o faria.

Seria estranhíssimo, como o foi este jogo.