Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

A salada não tinha condimentos? Não, não tinha. Mas se os produtos forem bons, a salada é boa

Bom jogo de futebol entre V. Guimarães e Sporting (2-2), a provar que a falta de adeptos pode tirar emoção ao jogo, mas não pode servir de desculpa para a ausência de qualidade. A equipa da casa esteve duas vezes a perder e duas vezes conseguiu empatar, no segundo jogo de Rúben Amorim no banco dos leões

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/EPA

Partilhar

Nisto das metáforas, aprecio uma das últimas obras do pensador popular Sérgio Conceição. O futebol sem público, diz ele, “é como uma salada sem azeite, sal e vinagre”. Sim, claro. Acho que todos concordamos. Mas a grande verdade só vem a seguir: “mas se tivermos fome temos de comer na mesma”.

É um adágio bastante pragmático e eu sou pelo pragmatismo. De facto, um estádio sem público é um estádio um bocadinho mais insosso, mas isso quer obrigatoriamente dizer que o jogo vai ser mau? Não, felizmente o V. Guimarães - Sporting mostrou-nos que mesmo uma salada sem condimentos é bastante apetecível se a alface for fresca e crocante e o tomate saboroso. Se os produtos forem bons, o espectáculo nunca se perderá.

Em Guimarães houve um jogo com quatro golos, muitos remates, várias oportunidades de parte a parte, duas equipas a arriscar e um ritmo, digamos, interessante, se tivermos em conta o que se passou nos últimos três meses.

A jogar com três centrais, Rúben Amorim voltou a repetir o sistema adotado no primeiro e único jogo em que esteve no banco do Sporting, frente ao Aves, desta vez com Rafael Camacho como ala direito e os jovens Eduardo Quaresma e Matheus Nunes a titulares. Na 1.ª parte acabaram por ser os guarda-redes a definir os momentos do jogo. Primeiro Douglas. Ao tentar limpar com o peito um passe profundo de Acuña, o guarda-redes do V. Guimarães deixou a bola à mercê do roubo de Sporar. Afoito, o esloveno fez o primeiro. Estávamos no minuto 18 e o Sporting colocava-se na frente depois de sentir grandes dificuldades no início do jogo, face a um V. Guimarães sufocante na saída de bola.

Ao erro de Douglas, Luís Maximiano respondeu com nova fífia. Aos 32’, o guarda-redes do Sporting tentou jogar curto, mas a pressão da equipa da casa forçou o erro. A bola foi parar aos pés de Joseph, que viu João Carlos Teixeira plantado na área. E estava feito o empate.

HUGO DELGADO/LUSA

Houve então mais Sporting, com Jovane Cabral (talvez o melhor do Sporting) a arrancar um par de boas jogadas que acabaram por nunca ter a melhor definição - Vietto não esteve num dos seus dias mais mágicos. Mas estava ali o sinal de que a 2.ª parte poderia ser boa.

E foi. Nesta situação tão excecional, seria de esperar que após uma 1.ª parte jogada a bom ritmo os jogadores pudessem ressentir-se fisicamente. Mas a 2.ª parte arrancou logo com um grande passe de Acuña, que encontrou Sporar e a sua capacidade de jogar nas costas da defesa adversária. O avançado trabalhou bem sobre Bondarenko, mas o ucraniano recuperou e cortou no momento certo.

Não foi aqui, foi logo a seguir. Quatro minutos depois, aos 52’, Jovane desmarcou o esloveno que com um excelente movimento enganou a defesa e depois ainda dançou frente a Douglas para o tirar do caminho e fazer o 2-1. O lance ainda foi anulado numa primeira instância, mas o VAR confirmou que Sporar não estava em fora de jogo. Por sete meros centímetros.

A ganhar, o Sporting não recuou e o V. Guimarães não se deixou. O jogo tornou-se ainda mais aberto, os espaços apareceram e todos percebemos que isto de não haver público, não sendo um pormenor, não é desculpa: pode haver emoção mesmo que ela seja feita apenas de 11 jogadores em cada lado e uma bola de futebol.

Aos 68’, numa jogada confusa, o V. Guimarães voltou a empatar: Davidson rematou para a confusão de jogadores na área do Sporting e o ressalto foi parar aos pés do talentoso inglês, que não falhou.

Daí até final, o V. Guimarães ficou a jogar com 10 (vermelho para Joseph aos 76’) e o Sporting teve mais um par de oportunidades para voltar a marcar, primeiro por Jovane aos 84’, de cabeça e, já no final, por Camacho, boa surpresa a fazer toda a ala direita, mas a deslumbrar-se neste momento em particular: trocou as voltas a dois adversários já na área e tentou ele terminar de forma bonita uma jogada bonita. Mas ali o que se pedia era que o jovem ex-Liverpool fosse prático. E Sporar estava mesmo à boca da baliza.

Face a todos os condicionalismos, todas as novidades, todo esta nova realidade, bela salada nos saiu deste V. Guimarães - Sporting.