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Silas: "O Sporting nunca jogou da maneira que eu queria. Tinha muita pressa e vários jogadores que jogam muito no limite do risco"

Falou sobre o estilo de jogo, o sistema, as ideias diferentes que tinha em relação a Hugo Viana e a Frederico Varandas, a dependência em Bruno Fernandes e como não podia deixar que Jovane Cabral fosse emprestado assim que começou a vê-lo treinar. Silas condeceu, ao jornal "A Bola", a primeira entrevista desde que saiu do Sporting, no início de março, e diz que saiu do clube porque sentiu que os jogadores já não estavam concentrados e focados

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O que pensou quando foi para o Sporting?

"Ouvi algumas opiniões, que para mim era importantes, e eram todas diferentes daquilo que eu apanhei. As opiniões eram uma coisa e quando cheguei comecei a ver que era muito diferente. O que me levou a aceitar foi sobretudo o simbolismo que o Sporting tem para mim (...) tinha jogado dois anos no Sporting, em miúdo sempre gostei do Sporting (...) Eu sou de arriscar. Não sou de me atemorizar perante os desafios."

A equipa não jogou da maneira que queria?

"O Sporting nunca jogou da maneira que eu queria e que sinto que poderíamos jogar. Era um contexto muito diferente do que existe agora (...) O Sporting tinha uma característica que foi um dos nossos problemas enquanto equipa: tinha vários jogadores que jogam muito no limite do risco. Ter um ou dois às vezes é bom, mas ter quatro ou cinco torna as coisas mais complicadas pois torna-se uma equipa com muita pressa. Este Sporting tinha muita pressa.

A urgência de ganhar, e os jogadores a sentirem essa ansiedade de ganhar, fazia com que a nossa equipa fosse muito mais vertical do que aquilo que eu acho que deve ser. Várias equipas em Portugal são assim (...) O Bruno [Fernandes] era o jogador que não sentia tanta ansiedade. Ele tem muita confiança nele próprio. Se sofrêssemos um golo o Bruno não ia abaixo a nível psicológico. Não sentia tanto porque não era de desistir."

E o sistema?

"O Sporting jogava quase sempre em 4-2-3-1, um sistema que não uso muito, pois não me identifico e não gosto muito. Tive de me adaptar aos jogadores, pois senti que o facto de terem ganhado muito títulos em 4-2-3-1 os deixou presos ao sistema. Se eu pegar numa equipa de início, dificilmente joga em 4-2-3-1. Gosto muito do 4-3-3 e de uma linha de três. São os sistemas com os quais mais me identifico."

A saída e as ideias de Hugo Viana e Varandas

"As derrotas pesam muito, ainda mais no Sporting, e não estávamos mesmo à espera de ser eliminados [da Liga Europa, pelo Basaksehir]. Fizemos quatro golos e sofremos cinco de bola parada. A bola parada tem muito de concentração dos jogadores e de foco. Ali sentimos que os jogadores já não estavam focados. A frustração da derrota levou-me logo nesse dia a falar com o Hugo Viana. Depois ele disse-me e com toda a razão: 'Silas, vamos dormir sobre o assunto, que a seguir à derrotas as decisões que se tomam quase nunca são boas'.

Foi isso que fizemos, mas depois de descansarmos continuei a sentir o mesmo. Não estávamos a ser a solução e achava que o Sporting devia ter a oportunidade de contratar alguém a pensar no futuro. Alguém que pudesse fazer uma equipa à sua imagem.

Há uma coisa muito importante quando falo do Hugo Viana e do presidente [Frederico Varandas]. Temos opiniões diferentes, mas eu tenho a convicção que mesmo tendo opiniões sobre muitos assuntos, eles são muito bem-intencionados. Querem o bem do Sporting. Isso é uma coisa. Outra coisa são ideias que eu tenho que são diferentes das deles. Eu e eles tínhamos ideias diferentes. Eles acreditam mesmo que as ideias deles são o melhor para o Sporting e acho que isso é o mais importante para os sócios reterem."

Jovane Cabral

"Estava para ser emprestado. O próprio jogador pensava que o melhor para ele era ser emprestado. O Jovane vinha de uma série de lesões e a verdade é que quando o começo a ver treinar... O Jovane nunca queria perder. Eu não conhecia bem o Jovane e a verdade é que quando o vi a treinar pensei logo que aquele miúdo não podia sair dali. Ele é tão competitivo que nós precisávamos de jogadores assim. Faltava-nos isso e queria que ele ficasse.

Mas ele tinha na cabeça o empréstimo e falou comigo sobre isso. Disse-lhe para treinar connosco e que na última semana do mercado víamos. A cada treino que fazia eu só tinha mais certezas que era impossível deixar o Jovane sair."

E Bruno Fernandes

"A equipa era dependente de Bruno Fernandes dentro do campo porque, realmente, um jogador como o Bruno, que tem tantos golos, tantas assistências, deixa uma marca nos primeiros tempos que é difícil de apagar. O Bruno hoje é, para mim, o principal jogador da equipa do Manchester United. Ele mete nele próprio uma grande responsabilidade e um jogador destes deixa sempre uma marca importante. É muito difícil encontrar um jogador como o Bruno Fernandes.

O Sporting neste momento não tem. Em Portugal, nenhum clube tem. Quando se perde um jogador assim, naturalmente que a equipa se vai ressentir. Era difícil segurá-lo e era injusto, pois ele merece estar onde está. Merece estar a jogar na melhor liga do mundo."