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O antijogo só ganha se do outro lado não existir jogo

O V. Setúbal foi a Alvalade à procura do pontinho e o Sporting teve bola, mas não teve criatividade, nem qualidade, nem discernimento para desamarrar-se da não-estratégia dos sadinos, em plena luta pela permanência. Claro que o jogo só podia acabar num nulo

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Vou fazer-vos uma pequena confissão: se há coisa que me irrita num campo de futebol é, em 2020, uma equipa jogar para o pontinho. Não há exatamente uma estratégia, na verdade o que existe é a negação de uma estratégia: a equipa joga com 10 atrás da linha da bola, mal tenta atacar, vai perdendo tempo aqui e ali com jogadores queixosos, o relógio vai correndo e seja o que os santinhos quiserem, até pode ser que haja um erro do outro lado que se possa aproveitar.

Já não se usa, sabem? É uma espécie de calças à boca de sino do futebol.

Acontece que às vezes já não há mais nada, já só temos mesmo as calças à boca de sino no roupeiro e temos mesmo de as vestir, esperando que ninguém nos veja com elas enquanto vamos só ali ao pão. O objetivo é só esse: ir ao pão, sem trivelas ou tiki-taka pelo meio. A metáfora, bem sei, está a ir longe demais, mas tudo isto serve para dizer que cada um vai à guerra com o que tem e o V. Setúbal foi a Alvalade jogar assim, com as suas parcas armas e com um único objetivo: o ponto que coloca a equipa a depender só de si para continuar na 1.ª divisão no próximo ano. Foi bonito? Não, não foi. Mas resultou.

E será por isso injusto estar aqui só a bater numa equipa que procura a sobrevivência, porque a sobrevivência muitas vezes obriga-nos a jogar feio, a quebrar alguns dos nossos ideais e quero acreditar que este V. Setúbal não é só *isto* e se *isto* acontece e às vezes resulta, pelo menos as vezes suficientes para que algumas equipas continuem a tentar, é porque do outro lado há outras equipas que não têm a qualidade, a criatividade e o discernimento de usar um futebol mais bonito para dar cabo do antijogo. E o Sporting foi essa equipa esta terça-feira.

Frente a equipas sobreviventes, há que ser frio e olhar pouco à misericórdia e ao Sporting faltou sentir o cheiro a sangue: mesmo com uma percentagem altíssima de posse de bola durante todo o jogo, a equipa de Rúben Amorim foi sempre lenta, previsível, ficando bem visíveis as lacunas do plantel num jogo que pediria, talvez, um assomo individual de algum talento acima da média, um momento repentista, um remate fora da área - que o Sporting demorou a perceber que poderia ser uma arma.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

E, portanto, o que tivemos em Alvalade foram 90 minutos de uma equipa a trocar bolas, a tentar encontrar espaços onde eles não existiam, a desesperar por soluções. O jogo foi paupérrimo, claro, e Rúben Amorim saberá bem porquê, aliás, ele já tinha assumido a responsabilidade deste empate ainda antes de ele acontecer: na conferência de imprensa de antevisão ao encontro, falou das oportunidades e do fluxo de ataque que o Sporting não está a criar com qualidade e quantidade suficientes e isso ficou clarinho como água esta terça-feira. Este Sporting precisa de muito mais trabalho (coisa que Amorim também referiu) e também precisa de muito mais qualidade. E isso, diga-se, não é, para já, responsabilidade do treinador.

Amorim tentou tudo e mais alguma coisa, sem nunca mudar muito o sistema, do qual não parece abdicar. Depois de uma 1.ª parte estéril, a entrada de Vietto no início da 2.ª parte poderia fazer prever um Sporting mais criativo, mas só mesmo de meia-distância é que surgiu algum perigo, com Acuña aos 67’ a obrigar Makaridze à defesa mais apertada da noite. De resto, nem a fantasia de Joelson enganou os estóicos defesas do V. Setúbal, que acabaram o jogo exaustos, a quem foi pedido que durante 90 minutos nada mais fizessem senão não dar o mínimo espaço ao adversário.

E com tudo isto, para Sporting e V. Setúbal tudo se irá resolver na última jornada: os leões não confirmaram o 3.º lugar e os sadinos jogam a permanência no domingo frente ao Belenenses SAD. Se o conseguirem, a negação do futebol terá mais uma vitória. Mas o futebol também é isto, queiramos ou não, enquanto outras equipas o permitirem.