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O treinador sentou-se, ligou a televisão e viu tranquilidade

Estando confinado, de quarentena obrigatória, Rúben Amorim viu, à distância, o Sporting ganhar (0-2) em Paços de Ferreira com um futebol tranquilo, a esquivar-se da pressão adversário para embalar campo fora à boleia dos alas

Diogo Pombo

ESTELA SILVA/Lusa

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O IFAB são as siglas trazidas à baila sempre alguém, algures, vai remexer nas regras do futebol e ah, lá está o International Football Association Board, a tudo fazer sob o mantra de melhorar o jogo, torná-lo mais claro e fugidio, tanto quanto for possível, à subjetividade de quem, em campo, tenta passar despercebido, mas é tantas vezes desculpa para justificar derrotas, vitórias, erros, incompetências, enfim, a história é sabida.

E, confesso, já por aqui andava a vasculhar o IFAB e as regras em que remexeu, em abril, sobre a mão na bola, ou a bola na mão, como quiserem, porque, quando o estádio ainda não tapava todo o sol na Matal Real, encadeando os jogadores do Sporting, um canto sobrou para a entrada na área, onde Wendel rematou a bola para um ricochete entre um adversário e outro a fazer tocar no braço do último. E foi penálti.

Entrava o 0-1, cortesia do pé direito de Jovane, e o cursos do rato clicava aqui na cruz do separador do site do IFAB pois, errada ou acertada, a decisão apitada resultou no golo para o Sporting que estava a ser superior, em tudo, ao Paços de Ferreira. Fidelizava-se à saída rasteira, apoiada e bastante recuada, na área, hoje explorando muito mais a ligação entre os centrais e os médios, todos valentes para se esquivarem da pressão alta que os anfitriões aplicaram aí durante uns 20, 25 minutos.

A equipa de Rúben Amorim, confinado longe, afastado pela quarentena forçada, conseguia filtrar a bola para Mateus Nunes e Wendel, ao invés do que tanto insistia na época anterior - passes entre os centrais de fora e os extremos, a receberem essas bolas mais ao centro -, que depois as filtravam para Pedro Porro, o ala direito galopante a correr com a bola, ou muito para Nuno Mendes.

Mesmo caçula, pouco aparecido a este nível e ainda a palmilhar terreno, o canhoto é do melhor que a liga tem a bater na bola para a cruzar, tensa e curvada, para a área, onde Tiago Tomás atirou barra acima um golo pré-visualizado e os centrais do Paços cortaram, à risca, pelo menos umas três entregas com qualidade do português.

Por ele se canalizaram quase todas as chegadas à área, exceptuando uma em que um calcanhar armado em gancho, de Vietto, isolou Tiago Tomás na área, que ouviu das boas de Nuno Santos por falhar o remate em vez de tentar acertar um passe para o extremo, então recém-entrada devido a uma lesão de Jovane (sem ele, a equipa perdeu uma opção de passe entre linhas, porque o ex-Rio Ave é mais amante de linha).

O Paços, mesmo sofrendo muito por ser tão ultrapassado na primeira linha de pressão, chegou algumas vezes à área, embora sem remates no alvo, porque os três da frente do Sporting recarregavam baterias se ultrapassadas na pressão assim-assim que faziam após perderem bolas. Desamparavam os médios, davam tempo e espaço a Stephen Eustáquio filtrar jogo e enviá-lo até às correrias com bola de Luther Singh.

Essa curta esperança média de vida do afinco, sem bola, dos três da frente, corrigiu-se na segunda parte e, com o tempo, o Paços murchou e o Sporting floresceu. Wendel e Mateus giravam sobre a bola e viravam-se para a baliza dos outros. Nuno Mendes e Porro eram os motores que transportavam jogo até à área. A equipa, em bloco, já anulava quase todas as posses de bola do Paços mal roçassem os 30 metros de relva à frente das redes de Adán.

E o resto, mesmo que sem oportunidades criadas, resumia-se à ressaca de um canto em que Tiago Tomás, após vestir uma cueca num adversário, voltou a colocar a bola na área, esta originou outra ressaca que, de novo cruzada, encontrou Feddal para o central tocar no vizinho Coates. 0-2 e conforto assegurado no jogo.

Depois o Sporting abrandou o ritmo com bola, tentou gerir, apoiou-se na presença pincelada de técnica de Daniel Bragança em campo, como falso 9, a despir os centrais de referência para marcarem e a recuar para receber passes. Foi o pouso tranquilo para a bola que a equipa precisava para acalmar, e muito, a velocidade das coisas, dado que só na quinta-feira começou a competir, em pleno surto que lhe chegou a infetar sete jogadores.

Este Paços a querer ter bola, a sair tanto curto em Eustáquio, como longo em Douglas Tanque, joga com boas intenções e valentia no estilo, mas esbarrou, sempre, nos três centrais do Sporting e nas segunda bolas que, depois, o adversário reclamou - com tranquilidade.

Este Sporting foi, sobretudo, isso, uma amostra tranquila de equipa em tempos conturbados.