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A cor é choque, rosa-choque

A realidade arrombou brutalmente a porta do Sporting, derrotado, em Alvalade, por 1-4 contra o LASK Linz que, de certeza, já saberia que iria jogar da forma como jogou. A equipa de Rúben Amorim sofreu dois golos após Coates ser expulso, esteve muito perto de sofrer mais e assim sofre a perda de um objetivo da época, ao terceiro jogo oficial: a qualificação para a fase de grupos da Liga Europa

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Quase um ano atrás, 363 dias para não haver calote com a exatidão, uns rosados austríacos entraram num estádio de Alvalade estranho, porque adeptos tinha, e não este normal, que pessoas é proibido de ter, e com o rosa a ornamentá-los pressionaram alto o Sporting, com a equipa e os jogadores muito avançados no campo, onde também muito apertaram mal perdiam a bola e bastante para a frente olhavam quando trocavam passes.

Este Linzer Athletik-Sport-Klub, ou LASK para os amigos, que traz o cor-de-rosa de Linz, era vertical no estilo, intenso na pressão, ousado nos sítios onde queria roubar o adversário e rápido a querer chegar à baliza. Foram coisas retidas deste rosa austríaco, perdoe-me a fixação cromática, mas raro é haver quem equipe com esta cor (o Palermo, em Itália, também o faz), como incomum é uma equipa rematar 22 vezes à baliza e acabar por perder.

O LASK perdeu assim, em Alvalade, na época passada, jogando quase como jogou agora, todo ele um bloco de pressão encostada à área, a salivar para que o guarda-redes Adán desse a bola a um dos centrais, lá iam os três da frente apertar e indicar a quem, como o Sporting, também partia de um 3-4-3, subisse para obrigar o Sporting a ter de decidir rápido. Mas este Sporting já não era o mesmo.

É um a quem apraz ainda mais a bola na relva e a construção com passes rasteiros e curtos, que deixou os alas próximos dos três defesas para apoiarem as constantes tentativas de se esquivarem da pressão e deixarem Wendel, sempre o brasileiro, com a bola, ele que embale com ela e ele teve-a mais do que costuma, correndo muito para tentar chegar perto da linha dos últimos defesas do LASK.

Aí tinha dois extremos a correrem para os muitos metros de ninguém à frente da área e Vietto a aproximar-se para tabelar. Vezes houve que resultou. Vietto rematou para o guarda-redes desviar, Nuno Santos tentou passar para o lado quando só tinha o rosado tipo das luvas à frente, mais uns fora-de-jogos ameaçadores. Grande parte dos primeiros 45 minutos, contudo, foram espinhosos e não, de certeza, pela surpresa das pétalas desta rosa.

O LASK pressionava alto sempre, iam sempre apertar logo o espaço a cada defesa, ala e médio adversário, cobrava sempre uma espécie de dívida de tempo ao Sporting e, se ainda for possível enfatizar mais isto, não havia jogador que recebesse a bola, de frente ou de costas, sem um austríaco a cair-lhe em cima, eles cheios de pulmão, resistência e agressividade na tarefa. E o Sporting a falhar passes porque os tinha de arriscar, dificultando a vida da receção a uns e a outros.

Esta asfixia constante, dadora de um certo caos ao jogo, arrastava a última linha austríaca quase para a linha do meio-campo e o Sporting gostava - se lá conseguia chegar -, mas, quando um canto desviado perto do primeiro poste acabou no terceiro poste que era a cabeça de Gernot Trauner, o gigante capitão, deixado sozinho na zona de Tiago Tomás e Porro para desviar o 0-1.

O Sporting até fez o 1-1 perto do intervalo, porque dois adversários foram a Mateus Nunes, o médio livrou-se de ambos, instaurou um desequilíbrio, acelerou a bola para longe, Porro esperou pela volta que Nuno Santos lhe deu nas costas para o canhoto cruzar com o direito e o adolescente Tiago Tomás aproveitar uma exceção - um remate de cabeça, na pequena área, atrás de uma das torres austríacas.

Gualter Fatia/Getty

O jogo voltou diferente. Humanos foram os jogadores do LASK, já não tão pressionantes, nem tão em cima, em cada posse de bola do Sporting, porque a energia esgota-se, e também humanos foram sendo os jogadores de Rúben Amorim.

Com mais tempo e espaço para tentar encontrar os três da frente, e mantendo-se a linha austríaca tão subida (e descoordenada), a equipa arriscou mais passes na profundidade, quis pô-los a correr e lá iam atrás de bolas demasiado ia puxadas, insistentes e, às tantas, previsíveis. O Sporting moía-os e desgastava-os, Wendel também por arrasto e por continuar a ser o brasileiro o único capaz de se livrar de adversários sozinho, sem ajudas. E o LASK, mesmo mirrando na pressão, mantinha o resto.

O princípio não matemático, nem físico, muito menos aritmético, mas simples e direto de procurar sempre o passe vertical, fez os austríacos marcarem o 1-2 quando recuperaram uma bola a meio de uma transição desorganizada do Sporting, com Wendel em parte incerta e todos os restantes encolhidos na área, à espera sem esperarem do cruzamento que deu o sétimo golo da época a Marco Raguz, nas costas de um Porro mal posicionado. O rosa começava a chocar.

E chocava mesmo, porque começou a chocar uma coisa séria quando outra perda de bola e os três centrais estáticos, sem apertarem o espaço, foram cortados por Husein Balic como faca em manteiga de verão e Coates, no desespero, o derrubou para, em troca, ver um cartão vermelho do árbitro. A bola parou mesmo à entrada da área e do parto do castigo saíram gémeos: livre, pé esquerdo de Peter Michorl e 1-3.

Se o Sporting já pouca bola tinha com calma, a matutar com ela, a jogar com o espaço e a tentar atrair adversários para libertar confrades, para tentar aproveitar a passividade que o LASK já evidenciara, ficou praticamente sem capacidade de a ter, mesmo que Pedro Gonçalves entrasse dois minutos após o terceiro dos austríacos. Tarde demais - e reativo demais.

Uma equipa feita para jogar com três defesas desde que Rúben Amorim a treina, de repente, teve de se alinhar lá atrás com quatro e, em três minutos, o desalinhamento com o hábito fez Neto perseguir a bola freneticamente, ser superado e Feddal, olhando só para a bola, foi pressionar o adversário que tinha à frente, abrindo a cratera na sua sombra onde Andreas Gruber recebeu um passe, correu para Adán e picou-lhe o 1-4 em forma de chapéu.

(Mais ou menos à mesma hora, um Carlos Mané ex-Sporting passava para o Francisco Geraldes, Sporting até há bem pouco tempo, mas já não, a fazer o 1-1 do Rio Ave contra o AC Milan e partir para prolongamento.)

TIAGO PETINGA/Lusa

O Sporting foi piorando, aos poucos, sem organização para jogar num sistema diferente e com menos um jogador, pobre em ideias, sem aparente capacidade física para mais e com sinais saídos do banco quando já era difícil mudar alguma coisa. Coates é expulso aos 63’, Sporar entra aos 72’ e aos 86’ até remata, na área, mas às mãos do guarda-redes Schlager. Tão inofensivo quanto a equipa desde o regresso do balneário.

Enquanto isso, Balic rematou contra Adán quanto estava isolado, Adán parou também um remate do isolado Plojer, e tenham eles falhado ou o guarda-redes defendido, não foram eventos isolados, mas consequências do estado em que o Sporting se deteriorava, delapidando-se aos poucos sem que o LASK lhe cortasse mais bocados e fizesse ruir ainda mais, ao terceiro jogo desta temporada.

É já nesta altura que o Sporting falha um objetivo da época, está fora da Liga Europa e chocado por um adversário conhecido, um rosa que agora é rosa-choque, por tão rosado de inferioridade ter deixado o Sporting na segunda parte, na última impressão vinda da casta das impressões que mais costumam ficar. Nessa impressão, o choque é este: o Sporting não teve equipa, nem jogadores, nem acerto, nem tino, para superar um LASK Linz que foi 4.º classificado da última liga austríaca.

(e, jogo terminado e estas palavras a serem debitadas, estava Gelson Dala, outro ex-Sporting a partir do momento em que o Sporting o incluiu no negócio por Nuno Santos, a fazer o 2-1 para o Rio Ave no prolongamento contra o AC Milan. Outro choque.)