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Tudo sobre Pedro e o Hail Mary que não valeu

Pedro Gonçalves marcou o (grande) golo que deu vantagem ao Sporting em Famalicão, mas acabaria expulso na 2.ª parte, num momento de maior aperto, antes dos leões sofrerem o golo do empate. Com este 2-2, o Sporting deixa dois pontos no Minho, mas ainda fica na liderança

Lídia Paralta Gomes

Octavio Passos/Getty

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Nestes tempos de pandemia, sem o barulho dos adeptos, habituamo-nos a ouvir coisas nunca antes ouvidas num estádio, todos os sons que pululam e constroem um jogo. Neste Famalicão - Sporting, nos primeiros minutos, houve uma novidade: ouvir chuva a cair em dolby surround.

Em noite fria e terreno em médias condições, aquela chuva ensurdecedora nos primeiros minutos foi como um sinal: vinha aí jogo intenso, incerto, nervosinho, faltoso, mesmo que a água até tenha parado de cair ainda na 1.ª parte, para deleite dos nossos ouvidos.

De regresso a Famalicão, Pedro Gonçalves era, naturalmente, um homem com um holofote com cima: depois de uma época a grande nível no Minho, o médio tem sido o catalisador do Sporting, talvez até o jogador em melhor forma do campeonato, e a história do jogo também se escreve pelo que o rapaz a quem também chamam de Pote fez.

De bom e de mau.

Foi de uma invenção sua que saiu o primeiro golo do jogo, aos 37’, provavelmente no pior momento do Sporting na 1.ª parte, ressentindo-se a equipa daquela grande penalidade falhada por Nuno Santos aos 22’. Nas alturas menos boas, são momentos de talento como aquele de Pedro Gonçalves, a serpentear entre jogadores do Famalicão e a rematar de pé esquerdo, em arco, para o cantinho da baliza de Luiz Júnior, que nos atiram à cara a importância de um craque numa equipa.

Mas também foi uma imprudência sua que deixou o Sporting coxo nos últimos minutos de jogo, expulso com um segundo amarelo aos 80’ quando os leões sofriam para segurar um 2-1 que estava longe de estar seguro. Nove minutos depois, o Famalicão marcaria mesmo.

Já será, tão prematuramente, Pedro Gonçalves uma espécie de alfa e ómega deste Sporting? É nos pés dele e nas suas decisões que poderá estar uma efetiva candidatura a qualquer coisa por parte da equipa de Rúben Amorim? Talvez seja exagerado: é muito sobre Pedro Gonçalves, é certo, mas não é tudo sobre ele.

Para o bem e para o mal.

Octavio Passos/Getty

Num terreno difícil, o jogo coletivo do Sporting ressentiu-se face a jogos anteriores e nestes encontros mais duros notam-se mais as individualidades, mas também aquilo que falta à equipa. Faltará na frente uma solução diferente de Sporar, apesar do trabalho incansável que sempre parece pronto a fazer na ajuda aos colegas - e por alguma razão, Coates foi lá para a área servir de ponta de lança nos minutos finais. E sem Nuno Mendes, Antunes parece também fisicamente uns furos abaixo, para mais num jogo sempre intenso - e mais intenso do que bem jogado.

De resto, o Sporting também terá de lamentar o erro de Adan, que permitiu o empate do Famalicão aos 43’, com o espanhol a sair muito mal a um livre lateral, permitindo o cabeceamento de Gustavo Assunção - e sem esse golo talvez o Sporting tivesse outra tranquilidade na 2.ª parte. Porque minutos depois, outro Pedro, o Porro, faria mais um golo de levantar estádios, tivessem os estádios adeptos por estes dias: um livre direto na esquerda, um remate forte e colocado, sem hipóteses para o guarda-redes.

Na 2.ª parte, a qualidade baixou, apesar de algumas iniciativas interessantes de Nuno Santos e Pedro Gonçalves, com as alterações de João Pedro Sousa, aos 60 minutos, a fazem efeito: o Famalicão tornou-se bem mais incómodo, mais rápido, mais pressionante e o Sporting não conseguiu controlar o jogo como havia conseguido na 1.ª parte. A expulsão de Pedro Gonçalves, deixando o Sporting com menos um homem, tornou ainda mais complicada a tarefa de conter a equipa da casa, que faria o empate em mais um livre direto, mais um grande golo, de Robert.

Logo a seguir ao golo do empate, Coates foi para a frente e assistiu-se em Famalicão a uma jogada digna das maiores emoções do futebol americano: Pedro Porro, em jeito de quarterback, lançou para o receiver Coates que, naquilo a que na NFL se chamaria de Hail Mary, atirou-se em desespero, na derradeira oportunidade, para o cabeceamento ao lado do guarda-redes Luiz Junior, sem deixar a bola cair no chão. A bola entrou mesmo na baliza do Famalicão, os jogadores do Sporting festejaram o lance exótico, mas Luís Godinho, com recurso ao VAR, anularia o lance, considerando falta do uruguaio.

E assim o Sporting deixou escapar dois pontos, tendo ainda assim assegurada a liderança no final da jornada. Na próxima ronda estará sem Rúben Amorim no banco, expulso nos protestos ao Hail Mary que acabou por não existir.