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Um entusiasmo trocado por miúdos

O Sporting está na final four da Taça da Liga graças à vitória (2-0) contra o Mafra, boa equipa da II Liga contra a qual demorou, mas se superiorizou quando a muita miudagem cresceu no jogo e fez a equipa jogar mais com eles. Eles, os miúdos a quem Rúben Amorim deu uma oportunidade e confessara estar entusiasmado para os ver

Diogo Pombo

Pedro Zenkl/Sporting CP

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A quem se pode chamar miúdo quando olhamos para o campo e são um e dois e três e mais caras larocas e jovens na mesma equipa, pergunto, porque é pergunta pertinente face à equipa em questão. É este Sporting, que está cheio de exemplos de um conceito que fora do futebol é relativo, afinal dizem que a juventude é eterna enquanto durar na alma que carrega o corpo, mas lá dentro, equipados e com uma bola à mistura, não é bem assim. Olhemos para Pedro Gonçalves.

Chegou descolorado e meio loiro ao Sporting, madeixas penduradas na cabeça, corpo baixote e dançante sobre a bola que cedo se encostou a uma ala, malandro, pois de jogo lateral não vive ele, mas sim de muito se mexer para o centro do campo e entre as linhas dos outros para receber e tabelar e ir buscar coisas ou posicionar-se para ser ele a terminá-las. Já ia com 10 golos em nove jogos, dir-se-ia que marca mais do que joga, como se isso fosse verdade.

Não é. Pote, como lhe chamam, é o destaque do Sporting no que se jogou desta época, mas tem 22 anos. Só tem 22 anos, o advérbio justifica-se na vida lá fora, mas não faz falta em futebolês, no campo, neste Sporting a que voltamos, onde ele voltou a ser titular contra o Mafra depois de cumprir castigo e miúdo não será com certeza, também pela real miudagem que o acompanha: Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Tiago Tomás, Gonzalo Plata, Daniel Bragança, Matheus Nunes..

Com estes teve o Sporting que se haver com a fiel saída de bola curta e em posse dos visitantes da II Liga, fidelizados ao uso do guarda-redes Carlos Henriques como um líbero distribuidor do passe-chave para ultrapassar a primeira pressão e deixar a equipa chegar a um dos três homens que encostava nos centrais, para os deixar em igualdade numérica. Nos 10 minutos iniciais caíram várias jogadas neles ou na profundidade atacada por eles.

Até ao Sporting assentar a sua miudagem teve de se adaptar, essa moldagem durou quase meia hora e encrencou, sobretudo, na forma como os extremos adversários cobriam as linhas de passe do central para o ala (abordavam quem ia receber a bola, antes de a receber, de fora para dentro), forçaram a iniciativa dos defesas e salivavam por bolas postas nos médios para lhes chatearem as receções.

E os 19 anos, os 18, os 19, os 20, os 21 e os 22 dos miúdos de dois parágrafos atrás tem qualidade, são intensos no jogo, mostram vontade em cobrar mais a si próprios e neles se descortina talento para ser a base de tudo o resto. Daniel Bragança resiste a pressão para fazer a bola mexer; Matheus Nunes idem, embora para correr com ela; o pé esquerdo de Gonçalo Inácio filtra muitos passes tensos e verticais.

Gualter Fatia/Getty

Mas, mesmo crescendo no controlo do espaço com a bola e conseguido ter mais passes recebidos dentro do bloco do Mafra para atrair adversários ao centro e, depois, acelerar por fora, o Sporting apenas consegue ligar transições para deixarem Plata em posição para cruzar três ou quatro bolas perigosas, ou Tiago Tomas a recolher passes apostados em castigar o espaço que o Mafra arrisca, várias vezes, deixar atrás da sua última linha.

Sairia o miúdo Tiago Tomas para entrar um extremo mais dado a bola no pé, mais íman para outros se aproximarem e tocarem. Sairia também o graúdo Antunes para dar lugar ao miúdo que lho costuma tirar. Bruno Tabata deu variação de jogo ofensivo (e logo um remate ao poste) por implicar um estilo distinto de atacar e, com Nuno Mendes, o Sporting ficou com a habitual força motora a esquerda, capaz de com poucos toques decidir bem - e rasgar a área contrária com cruzamentos que lhe parecem sair que nem passes de meros metros.

O 1-0 surgiu de um cruzamento seu, a que Sporar não chegou por pouco, que foi repescado a direita, reciclado com paciência e depois acelerado com um passe aéreo cortado por Daniel Bragança de novo para Nuno Mendes, que tocou a bola de primeira para o avançado eslovaco lhe chegar a segunda. O 2-0 de uma bola roubada por Plata na área e aproveitada pelo equatoriano para pular sobre uma rasteira e cruzar rumo à cabeça de Tabata.

Os miúdos cresciam no jogo, o Sporting madurava com eles, o futebol melhorava em campo.

A coesão sem bola do Mafra já falhava e colapsava com a quebra de Cuca e João Graça, os dois ladrões criteriosos do meio que sustentaram - com Camará e Rodrigo Martins, os extremos - a forma como a equipa muito condicionou o Sporting até a hora de jogo, mais ou menos quando teve um livre mesmo à beira da área. Só teria mais um remate de Andrezinho, já aos 80 minutos.

E já com Palhinha e João Mário, eles que são alguns dos mais adultos do Sporting, e também com Pedro Porro, outra costela de miudagem (21 anos) da equipa embora não o pareça, a equipa rendeu ainda mais, passeando a bola à direita, ao centro e a esquerda nas mesmas jogadas, passando-a curta e ao longo com critério e controlando o ritmo em associações curtas ou com acelerações na profundidade. Sendo mais completo, como tem tentado ser nas últimas semanas e Ruben Amorim disse que iam intentar neste jogo.

O treinador admitiu, também, que estava "entusiasmado" para ver um, dois, três e mais miúdos neste jogo, a miudagem que lançou e acabou por arranjar forma de solucionar problemas, atinar nas coisas que tinham de fazer bem feitas e fazer o Sporting crescer no jogo para o ganhar. Trocar o seu entusiasmo por miúdos é detalhar o porquê de, hoje em dia, o Sporting estar a jogar o que joga e, aos poucos, parecer ir crescendo sustentadamente.