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O fantasma de Natais passados demorou a ir embora

Contra um Farense que o anulou, sem bola, durante praticamente todo o jogo - e capitaneado pelo tramado Ryan Gauld, o mais rematador até ao intervalo - Sporting teve muitas dificuldades em atacar pelo centro do campo e criar oportunidades, mas ganhou (1-0) com um penálti já nos descontos. Ou seja, durante a maior parte do tempo sentiram-se os rastos de quadras festivas anteriores, em que a equipa de Alvalade não foi o que será neste Natal: líder do campeonato

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Abordemos o pequeno, pálido e loiro elefante na sala.

A trama e com Ryan Gauld, tramado em várias frentes entrelaçadas algures na sua historia, ele e escocês e quando chegou a Portugal, em 2014 e aos 18 anos, vinha já tramado da Escócia pela fatídica alcunha de mini-Messi nem ele, ou quem seja, teria estampa para aguentar; depois um treinador que não gostava dele tramou-o, empréstimos sucederam-se e quando um até estava a correr bem, as turras do Sporting com o Vitória tiraram-no de Setúbal por capricho e devolveram-no à irrelevância em Alcochete.

O tempo de jogo, um clube estável e a confiança do treinador, enfim, coisas que são a terra onde todo o futebolista precisa para ser regado e veremos no que dá, Ryan Gauld encontrou-as em Faro, onde capitães e treinadores adversários o elegeram como o melhor da II Liga passada e cá está ele, a capitanear o Farense em Alvalade em 2020, com 25 anos, a escorregar ao primeiro toque na bola. Mas isso não tramou.

Foi o escocês a desatar o primeiro par de saídas de pressão, em campo próprio, com toques simples e rápidos. Dele foi o remate inaugural do jogo, Adán a esticar-se na relva para desviar a bola que o seu pé esquerdo reclamou na área, desviou de pernas e rematou rasteira. Eram de Gauld as receções que o Farense procurava assim que recuperava a bola no seu bloco médio, apostado em ser compacto para não deixar Palhinha e João Mário terem segundos de frente para o jogo.

A agressividade em encostar nas costas desses médios, quase nunca os deixando receber orientadamente, com os extremos também ativos a fecharem a linha de passe para os alas, fez, aos poucos, com que o peso de Neto, Coates e Feddal aumentasse no tempo de bola do Sporting. E no estilo: tão eficaz era o Farense a defender que obrigou os de Alvalade a serem mais longos e diretos no passe, à procura de movimentos para as alas dos três jogadores da frente.

O Sporting conseguia ter algumas jogadas a roçar a área, nunca com o último passe a entrar, sempre com os de Faro a engolirem qualquer tentativa, muito por tomarem quase todos os duelos e logo partirem rápido em contra-ataques bem verticais. Com o tempo, roubaram bolas metros à frente, atreveram-se e soltaram-se e, nos descontos pré-intervalo, Ryan Gauld voltou a tentar tramar o Sporting, com um remate à entrada da área. Três dos quatro remates do Farense eram dele.

Gualter Fatia/Getty

Pareceu afronta, um afrontamento de quem lá andou e agora ousou tanto ameaçar, porque só na jogada seguinte o Sporting, fomentado pela técnica em espaço apertado de Pedro Gonçalves, ao centro, receber e soltar a bola na diagonal de Tiago Tomas área dentro, para o avançado rematar ao poste.

Toda esta trama em nada relacionada com a inicial viveu também durante a segunda parte, o Farense com as linhas mais recuadas e o Sporting, na mesma, sem ligar jogadas pelo centro, por lá só tinha meras devoluções de bola ou uma e outra falta sofrida, sintomas da falta de ideias que o coletivo padecia - e da falta de alguém que sozinho, pela força da técnica, forçasse coisas no individual.

Bruno Tabata podia sê-lo, saiu do banco quiçá para o ser, o brasileiro de facto desequilibrou aqui e ali ao tirar da frente um adversário, mas o Sporting apenas viu alguém a ver a baliza em dois passes aéreos e longos. Um não chegou por pouco a Tiago Tomas, o outro não foi amansado em cheio no pé por Pedro Goncalves.

Pela faixa do meio nada, nunca e nem ameaçava. O Farense já era todo um bloco baixíssimo de jogadores atrás da linha da bola, Ryan Gauld um deles, o escocês a correr atras de ressaltos e bolas despachadas da molhada até se ter que enfiar no meio da confusão, com o seu português imaculado, a falar com o árbitro sobre o penálti que apitaria aos 87’, numa de muitas bolas cruzadas para a área.

O guarda-redes Defendi terá chocado com Feddal, a bola parou com a decisão e Sporar picou-a na sua rendição de um panenka para o 1-0 aparecer já nos descontos, pela duração da paragem. O Sporting ganhou jogando pouco, porque não arranjou forma de jogar para desbloquear os problemas criados pelo Farense, que praticamente só defendeu durante uma parte, embora muito tenha condicionado a forma de atacar do adversário que, de facto, nunca soube dar-lhe a volta.

Mas, repetindo, o Sporting venceu e abrirá presentes, empanturrar-se-á de sonhos e passará a quadra festiva na liderança do campeonato por ter resgatado um jogo nas últimas, após tanto tempo em que o fantasma de outros Natais.

Os passados longe do topo, andou a pairar por Alvalade, transfigurada na incapacidade de a equipa arranjar caminhos pelo meio do campo, ligar jogo curto e tentar outras soluções (Daniel Bragança, retirar um central da construção) para ultrapassar um adversário que não deverá será o último a defender-se desta forma. E no final, ouviu-se no estádio a canção do "a todos um Bom Natal".