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Um réveillon em confinamento deve ser mais ou menos assim

O Sporting bateu o Belenenses SAD por 2-1, num jogo equilibrado e apertado, com algumas restrições leoninas e sem dedo de Pedro Gonçalves, e várias oportunidades de golo dos azuis que o guarda-redes Adán impediu. No final, a equipa de Rúben Amorim ter-se-á dado por satisfeita e aliviada por sair do Jamor com três pontos somados e com a certeza de passar o ano no primeiro lugar da Liga. Pouca festa, sim, mas objetivo alcançado

Pedro Candeias

Tabata foi pela primeira vez titular em jogos da Liga pelo Sporting. Não correu particularmente bem

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Um tipo pode considerar-se envelhecido quando já viu demasiadas coisas e o Belenenses SAD é um choque cru com esta realidade. Por exemplo, o médio Afonso Sousa é filho de Ricardo Sousa que é filho de António Sousa que tem um sobrinho chamado José Sousa, e eu vi os quatro a jogar futebol. O problema podia estar nos Sousa, que objetivamente são pais muito cedo e geram talento - mas não.

Bom, já que sou velho o suficiente para isto, também sou para vos recordar alguns dérbis Belenenses pré-SAD contra Sporting em que as coisas não se apresentavam assim tão desiguais: neste Belenenses SAD - Sporting estavam o pior ataque da Liga (apenas cinco golos em dez jogos disputados) e o segundo melhor ataque da Liga (24 golos marcados), o 12.º classificado a jogar numa casa emprestada com um relvado duvidoso contra o 1.º classificado que resistiu a uma maldição natalícia antiga.

Mas admito estar a ser traído pela memória.

Porque o que se viu no Jamor foram duas equipas que se equivaleram em vários momentos, nos bons, nos maus e nos assim-assim, assim que se torna difícil entender a distância entre o Belenenses SAD e o Sporting, analisando-os apenas à luz deste Belenenses SAD - Sporting.

Só que é para isso que aqui estamos.

Basicamente, Petit e Rúben Amorim foram a jogo com o mesmo desenho - 3x4x3 - e as mesmas ideias - trocar a bola, atrair o adversário e procurar rapidamente a profundidade - e ambos viram as suas equipas a criar várias oportunidades e cometer alguns erros.

O Sporting acabou por chegar ao intervalo a vencer por 2-1, mas aqui importa referir três defesas vistosas de Adán, que até parou uma grande penalidade ineficazmente batida por Miguel Cardoso, um dos futebolistas mais perigosos do Belenenses SAD. Juntamente com Silvestre Varela e, claro, com Afonso Sousa. Aliás, o filho de Ricardo e neto de António foi um quebra-cabeças para o meio-campo leonino que não conseguiu estancar o adversário como em ocasiões anteriores, sinal de que, provavelmente, o modelo de Rúben Amorim começa a apresentar falhas.

Ainda assim, foram do Sporting os golos que interessaram e para estes contribuiu Tiago Tomás, T.T., todo-o-terreno de Alvalade cuja velocidade e potência acabam normalmente por magoar os adversários. Mesmo num piso acidentado como o do Jamor: aos cinco minutos, rematou à primeira volta e fez o 1-0; aos 22, foi lançado por João Mário, correu vertiginosamente, foi travado em falta por Tiago Esgaio, houve penálti e João Mário fez então o 2-1. Do lado dos azuis do Jamor, Cardoso chutou para o golo aos 14’.

Lendo isto, parece óbvio que, na primeira-parte, aconteceu um bom jogo de futebol na ótica do adepto descomprometido, pois foi aberto e incerto, amiúde descontrolado; para os treinadores, sobretudo para Amorim, bom, a alternativa era sempre melhor.

Sucede que, na segunda-parte, foi precisamente isso que aconteceu: o ritmo baixou, as chances escassearam, e quando Tomás Ribeiro foi expulso por uma sucessão de cartões amarelos, o Belenenses SAD - Sporting ficou, em teoria, decidido. Porque os de Alvalade nunca pareceram confiantes na medida necessária para tentar o terceiro golo - o progressivo apagamento de Tiago Tomás e relativo impacto da entrada de Nuno Santos não ajudaram - e o Belenenses SAD não quis jogar o jogo do tudo ou nada com menos um em campo.

Portanto, o dérbi de antigamente foi-se encaminhando para o fim, com nervosismo do lado dos leões, bastante evidente num erro de Adán que poderia ter resultado mal. Ficou 2-1, o Sporting somou três pontos e não só ficou à frente no Natal, como dobra o ano na liderança muitos anos depois da última vez.

É a velhice, estúpido.