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Rúben Amorim: o Bebe-água “não sente pressão” e tem muito de Jesus. Mas “vai ser melhor do que Jesus”

De onde vem esta alcunha? Como é que é ele na intimidade? Porquê três centrais? Esta é a história de um miúdo com “uma personalidade forte e um grande sentido de responsabilidade” que como jogador se destacava pela “enorme cultura futebolística”. À boleia de um dos seus grandes amigos, o lateral Bruno Simão, conhecemos melhor o treinador líder do campeonato, que este sábado terá um dos maiores desafios da temporada: o reencontro com o Sp. Braga, este sábado, equipa que deixou em março num processo sinuoso para assinar pelo Sporting

Lídia Paralta Gomes

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Mano, só te peço uma coisa. Acima de tudo eu a ti vou exigir-te mais do que exijo aos outros. Se tiver de te dar dois gritou dou. Dentro de campo, comigo, é rigor máximo.

Bruno Simão recorda o aviso que Rúben Amorim lhe deixou quando o chamou para o Casa Pia, na época 2018/19, naquela que seria a sua primeira experiência num banco. Seriam então jogador e treinador, mas eles eram, e são, muito mais que isso: “Crescemos juntos. Além de ser um grande amigo, é meu compadre, padrinho da minha filha, já foi meu colega de equipa”.

O lateral-esquerdo, atualmente no Oriental, conta esta história para nos explicar quem é, afinal, o treinador Rúben Amorim. Bruno Simão, que conheceu o técnico do Sporting quando tinham nove anos e com ele partilhou balneário nas camadas jovens do Benfica, diz que o amigo mantém “aquele jeito dele, que já tinha quando era jogador, aquele jeito brincalhão”, mas que no trabalho é muito “rigoroso e exigente”. Não há borlas para ninguém, nem para quem é visita de casa e por isso Bruno Simão garante que o que está a acontecer com o companheiro "não é sorte ou estrelinha, é competência”.

Características que o jogador vê no Sporting que Amorim levou a passar o ano em 1.º lugar, algo que não acontecia desde 2001/02, na altura com o romeno László Bölöni. Essa foi também a temporada do último título dos leões e se a efeméride convida a entusiasmos, a verdade é que janeiro será a verdadeira prova de fogo para o Sporting de Rúben Amorim.

São, pelo menos, sete jogos, para três competições - o número pode subir para oito se o Sporting chegar à final da Taça da Liga. Tudo começa este sábado em Alvalade, frente ao Sp. Braga para o campeonato, com passagens pela Madeira, para a Taça de Portugal, a final four da Taça da Liga, com uma meia-final frente ao FC Porto e uma possível final com Sp. Braga ou Benfica, fechando o ano com o dérbi com o Benfica, para o campeonato. Muito do futuro dos leões para esta época será jogado nestes primeiros 31 dias de 2021.

Um reencontro emocional. Ou nem tanto

O Sp. Braga é o primeiro adversário de peso para o líder Sporting neste janeiro de correria. Há precisamente um ano, Amorim preparava o primeiro jogo à frente da equipa principal dos bracarenses, depois da saída de Sá Pinto dias antes do Natal. Promovido da equipa B, o treinador de 35 anos apresentar-se-ia com estrondo: frente ao B SAD, a 4 de janeiro de 2020, o Sp. Braga venceu por 7-1.

As demonstrações de bons resultados e futebol vistoso continuariam janeiro fora, com uma vitória para a Liga frente ao FC Porto e o triunfo na Taça da Liga, derrotando Sporting e novamente o FC Porto pelo caminho.

Ainda no banco do Sp. Braga, em janeiro de 2020

Ainda no banco do Sp. Braga, em janeiro de 2020

HUGO DELGADO

A 4 de março, apenas dois meses depois da estreia pelo Sp. Braga, o Sporting surpreendeu ao bater a cláusula de 10 milhões de euros para levar Amorim para Lisboa. A saída não foi exatamente parcimoniosa, não só porque Sp. Braga e Sporting disputavam então o 3.º lugar do campeonato, mas também porque os leões falhariam o pagamento da transferência do jogador, situação denunciada por António Salvador, presidente dos bracarenses, em julho - a querela, que motivou ameaças do Sp. Braga de queixas para a FIFA, só terminou em setembro, com os dois clubes a chegarem a acordo para o pagamento parcelar da dívida até junho deste ano.

Bruno Simão garante que o “Bebe-água”, alcunha que Amorim ganhou por em miúdo pedir sempre água em bares e restaurantes enquanto os amigos se atiravam às Coca-Colas, está mais do que preparado para enfrentar um encontro que poderá ter uma grande carga emocional.

Diz até que Amorim é “imune” a tudo isso.

“Não há pressão por ser contra o Sp. Braga, nada, mas mesmo nada, posso meter as mãos no fogo”, diz o amigo, que nunca viu o Amorim abanado com todo o processo de ida para Alvalade, mesmo que a mudança tenha tido os seus riscos, já que os minhotos estavam fortes e com ascendente sobre o Sporting por aqueles dias.

“O comboio pode não passar duas vezes e o Sporting não deixará nunca de ser um grande”, lembra o lateral. “Nós falámos quando ele foi contratado e a pressão que ele sentia era zero. Lembro-me que me disse: ‘Estou preparado, tenho confiança em mim, estou mesmo tranquilo’. Não é fácil. O certo é que para mim o Sporting é, neste momento, a melhor equipa do campeonato, é a equipa com mais personalidade e qualidade de jogo. E tudo aquilo é mão do Rúben, porque viu-se o que aconteceu em Braga e o que aconteceu connosco na altura no Casa Pia. Fomos fortíssimos até ao momento em que vieram questões extra-futebol. Mas ele, com a grande personalidade que tem, passou por cima”.

O rigor que vem de Jesus

A questão extra-futebol que Bruno Simão refere aconteceu também em janeiro, mas de 2019. Rúben Amorim era então, oficialmente, treinador estagiário do Casa Pia mas, na prática, treinador de facto da equipa lisboeta, então no Campeonato de Portugal. Por ter dado indicações para o campo, foi suspenso por três meses e impedido de se inscrever como treinador durante um ano, enquanto o Casa Pia viu-lhe ser retirados seis pontos, sanção à qual se juntaram cinco jogos à porta fechada. A situação motivaria uma carta aberta do plantel do Casa Pia à Federação Portuguesa de Futebol.

Em maio, o Tribunal Arbitral do Desporto daria razão aos recursos de Amorim e Casa Pia, mas logo em janeiro o técnico deixou a equipa, perante o impasse da sua situação.

Amorim e Bruno Simão, nas escolas do Benfica

Amorim e Bruno Simão, nas escolas do Benfica

D.R.

“Nós fizemos tudo para ele não ir embora e ele sofreu, quando se despediu estava emocionado, com lágrimas, mas disse que era para o nosso bem”, relembra Bruno Simão. Na altura, os bons resultados da equipa eram o reflexo do trabalho do treinador, que rapidamente foi assimilado pelos jogadores.

“Já estávamos rotinados, as coisas saiam-nos de olhos fechados. O meu irmão [o médio David Simão] na altura jogava na Bélgica e veio cá ver um jogo nosso. No final disse ‘Epá, esquece, vocês jogam à bola, dá gosto estar na bancada’”, recorda ainda o jogador. O gosto no treino era tão grande, diz, que quando Amorim saiu o plantel exigiu que o substituto fosse alguém que “não fosse mudar o sistema de jogo”.

Foi logo com o Casa Pia que Rúben Amorim começou a apostar numa linha de três defesas. “Nos dois primeiros jogos entrámos com quatro defesas e perdemos. E ele então mudou as coisas. Disse-nos que poderia ser confuso para alguns, mas que quando o sistema estivesse rotinado seria perfeito e ninguém nos ganharia. Foi quase isso que aconteceu”, conta o experiente defesa. Princípios básicos? Rigor defensivo, a bola a sair do guarda-redes para um dos dois centrais que abrem. “E não há cá chutão para a frente”, explica Simão.

“Pode-se até perder uma bola, aquilo até pode dar golo. É arriscado. Mas para mim foi mesmo bom, o processo, o tempo que estivemos com ele”, continua.

Bruno Simão diz que vê muito de Jorge Jesus em Rúben Amorim na forma como aborda a questão defensiva. “Ele transmite uma coisa muito importante, que é o rigor tático, rigor defensivo, porque é ali que começa tudo, na linha de três defesas que ele tanto gosta, o sair a jogar de trás”, diz.

Mas Bruno diz que Rúben Amorim “vai ser melhor que Jesus” porque entre ambos, diz, há uma diferença fundamental: “O Rúben tem o plantel todo do lado dele, porque ele tem uma relação muito humana com os jogadores. Que é algo que falta ao Jorge Jesus. E isso é muito importante”.

Rúben Amorim levou o Sporting à liderança da I Liga no final do ano, feito inédito em 19 anos

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FERNANDO VELUDO

Desde cedo, nas escolas do Benfica, Rúben Amorim demonstrava “uma personalidade forte e um grande sentido de responsabilidade” e Bruno Simão não se surpreende com o sucesso quase imediato do amigo, até pelas características que tinha como jogador.

“Ele já tinha uma cultura futebolística enorme, aliás, era conhecido por isso, pela inteligência, pela leitura de jogo, por saber ocupar espaços”, explica. "Ainda há dias falava com o meu pai sobre isto: não acredito que ele fique muito tempo no futebol português".

Um janeiro diabólico

Também Bruno Simão vê janeiro como o verdadeiro teste a este Sporting líder. “Um mês complicado, em que muita coisa pode mudar”, diz, sublinhando que o clube de Alvalade tem tido “a vantagem de não ter de disputar as competições europeias”. Ainda assim, o jogador que passou por diversos campeonatos europeus, da Roménia à Eslováquia, acredita que o amigo “não vai abanar”.

“Os adeptos do Sporting também estão à espera deste mês para ver, porque agora é que vai ser a doer e o primeiro jogo é já este sábado. Espero que o Sporting ganhe, de preferência a jogar bem. Nada ali é feito à toa, toda a gente sabe o que tem fazer em campo e dá gosto ver que as equipas por onde ele passa ficam a jogar futebol de qualidade”, frisa.

E quem o diz é um adepto ferrenho do Benfica.

“Eu quero que o Benfica seja campeão. E que o Rúben fique em 2.º. Mas vou aplaudir de pé se ele for campeão e não sendo o meu Benfica que seja o Sporting”.