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A chafurdar na lama também se ganha

O temporal não abandonou a Madeira, mas houve jogo na Choupana, não de futebol, de outra coisa qualquer parecida, ao qual os jogadores do Sporting se souberam adaptar e atuar em concordância num campo virado lamaçal. Ganharam (0-2) ao Nacional com muitos chutões diretos para a frente, duelos ganhos, disputas com raça e bolas paradas batidas de onde fosse para a área. Na prática, era a única forma possível

Diogo Pombo

HOMEM GOUVEIA/LUSA

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A carga de água caída do céu, chovendo cães e gatos que nem outras latitudes anglófonas, rajadas de ventania no monte dos vendavais que vira a Choupana quando um temporal aspira e expele a ilha da Madeira, assim num turbilhão, até pela televisão chega a cacofonia da intempérie no estádio, em dois dias seguidos, que nos põe a divagar sobre “condições climatéricas adversas”, assim resumidas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

É flagrante, ei-la ali mesmo, ‘futebol’ é a palavra que o dicionário tem quando “duas equipas, geralmente de 11 jogadores, se esforçam por introduzir uma bola na baliza do campo do adversário, sem intervenção das mãos, durante uma partida, em geral dividida em dois tempos de 45 minutos cada um”. Felizmente, repete o uso do termo ‘geral’.

Porque o Nacional-Sporting é rafeiro, mistura de variações do que é unânime ser futebol, que não é isto, ali força-se um jogo de qualquer coisa que envolve chutões constantes por cima e para a frente, duelos para disputar todas essas bolas que sobem e têm de cair e a bola a ser parada quando alguém julga que ela rolará tranquilamente se o passe for rasteiro.

Este jogo seria outra coisa pior na quinta-feira, se adiado não tivesse sido para esta sexta em que o vento sopra menos enraivecido, porém a chuva precipita-se furiosa no relvado e a bola não se futeboliza, é impossível - portanto, toda a gente se adapta e faz os possíveis. Cada jogada na primeira parte tem, pelo menos, um jogador do Nacional ou do Sporting pontapear a bola para a frente, para algures, para a bola ter um curso intensivo sobre o efeito da gravidade.

Toda a gente quer fugir ao lamaçal de campo piorado a cada minuto, nem pitons de alumínio garantem tração, bola vinda de longe é bola para devolver e todas as ideias que as equipas tivessem resumem-se a um par: apostar nos passes longos e cruzamentos para a área; ir forte e com garra para os duelos que as reclamam.

A analogia entre batalhas-futebol viveu sem vergonha na Choupana, qualquer jogada envolvia uma variação de chutão, duelo e desvio, o Sporting assim marcou ligando um cruzamento largo de Nuno Mendes, um toque perto de um poste de Pedro Gonçalves e o remate de Nuno Santos no outro. A outra oportunidade que teve, com Pedro Porro, foi irmã desta.

HOMEM GOUVEIA/LUSA

O Sporting nunca arriscou passes dos defesas para os médios, quis sempre voar até Nuno Santos ou Pote, lá chegando a bola ouviam-se gritos para a cruzarem área dentro e a restante estratégia eram os duelos, reclamar qualquer disputa. A equipa manteve-se muito junta, segura pelo demolidor Palhinha, ganhador da maioria das bolas que quis ganhar.

Com mais chutões recebidos, bolas conquistadas e ressaltos ganhos, o Sporting obrigou sempre o Nacional a encolher-se - só teve um remate na baliza -, mais ainda com cada lançamento lateral ou livre que tinha, momentos nos quais apostou, de caras. Podia ser dentro do círculo do meio-campo, se a bola parava era para bater longo e praticar o que terá sido certamente combinado, face ao lamaçal anunciado.

Neste jogo acastanhado, com chuteiras e meias enlameadas e tudo isto a pesar no corpo de quem jogava, em que a finta eficaz era ameaçar o chutão e simulá-lo, houve dois vislumbres de futebol sem lama em Pedro Gonçalves, em duas receções com que hibernou a bola nos pés, à entrada da área. Na primeira enganou dois adversários antes de não acertar com o remate na baliza; na segunda, rematou ao segundo toque e a bola bateu no poste.

Choveu duas vezes a Pote e nunca parou de chover água a potes, para lá da alcunha do seu goleador o Sporting nunca, por um segundo, se mostrou importado em desistir de sequer tentar, de vez em quando, ligar uns passes na relva e tentar jogar normalmente no lamaçal anormal. Os jogadores do Nacional nem sempre, e muitas correrias com bola e passes falhados tiveram.

Um pouco de futebol terreno ainda se veria, aos 90’, quando Lucas Kal se atrapalhou a cortar um cruzamento, Tiago Tomás fez do ressalto um cruzamento rasteiro e a linha madeirense só com olhos para a bola e em igualdade numérica ficou presa na lama, a ver Jovane marcar. Dois minutos depois, o apito e todos os presentes a fugirem para o abandono mais rápido de sempre no final de um jogo.

Com eles levaram o esforço e a raça, a garra e o sacrifício, tantas vezes tidos como os lugares comuns de refúgio, desta vez foram o que valeu ao Sporting, o líder do campeonato que também chafurda na lama e se impõe no temporal. Até o lacónico Emanuel Ferro o disse: "Iríamos fazer qualquer coisa para ganhar aqui hoje".