Nasceu uma estrelinha
Rúben Amorim conquistou a sua segunda Taça da Liga, num jogo que não foi bem jogado, mas em que a confiança, a competitividade, a solidariedade - e também uma palavrinha que dá título a esta crónica e que o treinador costuma repetir - prevaleceram sobre tudo o resto: um relvado lastimável e duas expulsões provavelmente inéditas
23.01.2021 às 22h34
CARLOS COSTA
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Por onde é que eu poderia começar? Pelos pontos de contacto, que eram muitos e iam bastante além da evidência de um se chamar *Sporting Clube* de Portugal e o outro *Sporting Clube* de Braga. Além de partilharem partes das suas respectivas designações, o SCP e o SCB tinham em comum o seguinte: dois triunfos na Taça da Liga; dois treinadores com um triunfo cada na Taça da LIga, precisamente ao serviço da equipa que hoje iam defrontar (Amorim, pelo Braga; Carvalhal, pelo Sporting); jogadores que passaram pelos dois clubes (Iuri Medeiros, Palhinha, Esgaio); e um jogador que vai-não-vai parece que sai de um para ir para o outro, mas entretanto não arreda pé de onde está (Paulinho).
E o que mais? Ah, sim, claro, o sistema, o 3x4x3 que é o novo 4x4x2 que já foi o novo 4x3x3 que também já fora o novo 4x2x4; além de tudo o resto, portanto, o Sporting CP e o SC Braga também tinham a mesma forma de se alinhar em campo, campo esse que se apresentou num estado lastimável para receber duas boas equipas de futebol, castigando a ambas por igual.
Especialmente na primeira-parte, em que a bola não rolou porque o relvado empapou, alagando os planos de quem, por decreto, quer sair a jogar do guarda-redes para o defesa e do defesa para o meio-campo.
No plano individual a coisa não correu melhor; qualquer tentativa de progredir com a bola no pé saiu frustrada de cada vez que os pés pisavam zonas pouco recomendáveis.
A única solução para tentar transformar a posse numa jogada perigosa - mais ou menos perigosa - era bater na frente, ganhar um ressalto e chutar à baliza numa segunda bola. A negação completa do conceito de bom futebol, restando perceber qual das equipas - e dos futebolistas - se adaptariam melhor a este campo que forçava a ir pelos piores caminhos para chegar a algum lado.
Por se ter submetido a uma experiência semelhante, na Choupana, talvez o Sporting soubesse de memória que este era o tempo era de jogar feio e compacto, sobretudo de resistir, à espera de um momento que abrisse caminho à baliza de Matheus. O SC Braga, por sua vez, mais poético e menos prático, talvez por ser esse o caráter do seu treinador, tentou manter-se fiel aos seus princípios, buscando qualidade e tabelinhas, mesmo que o piso não estivesse para adornos.
Visto de cima e de fora, os bracarenses estiveram um bocadinho por cima durante uma primeira-parte competitiva, intensa, com muitos duelos físicos e verbais e uma dupla expulsão: os pontos comuns entre Sporting e Braga acabaram quando Tiago Martins mostrou o cartão vermelho a Rúben Amorim e a Carlos Carvalhal, um episódio caricato e provavelmente inédito; depois disto, era estatisticamente impossível haver novas histórias cruzadas e parecenças, até porque alguém teria de sair de Leiria com o caneco.
Aconteceu ser o Sporting, num golo que chegou mesmo, mesmo antes do intervalo na única situação de perigo que criara até então: um grande passe de Inácio a bater um livre, uma descompensação de Galeno, Pedro Porro correu para a glória.
Depois, na segunda-parte, as circunstâncias do jogo foram-se alterando à medida que o relvado se tornou praticável. Quer isto dizer que a qualidade da final subiu para outros níveis e a partir do minuto 60’ - e após as substituições operadas de parte a parte - foram surgindo alguns remates perigosos.
Primeiro, por Iuri Medeiros (foi para fora); depois, pelo excelente Pedro Gonçalves (foi defendido por Matheus); a seguir, novamente por Medeiros, servido por Paulinho (Adan impediu) e, mais tarde, o próprio Paulinho chutou ao ferro.
É evidente que a entrada de Paulinho, ainda a restabelecer-se de uma paragem por lesão, trouxe outra objetividade e potência ao Braga, e que em cima dos seus ombros a equipa minhota forçou o Sporting a acantonar-se lá atrás. Foi nesses suspiros finais que Coates, pelo ar, e Adán, com as mãos, seguraram a vantagem magérrima, impedindo o Braga de chegar ao empate que decididamente merecia - e que resultaria noutro ponto comum entre os dois a acrescentar nesta crónica.
Não foi assim e Rúben Amorim desceu ao relvado para ser vitoriado pelos seus futebolistas, para cumprimentar os seus antigos futebolistas e celebrar a sua segunda conquista na Taça da Liga como treinador por dois clubes diferentes.
Nasceu uma estrelinha.
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