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Sem estrelinha, sem sorte, sem Palhinha

O Sporting superou o Boavista em quase tudo, ganhou por 0-2 com um golo de Nuno Santos e um golaço de Pedro Porro, mas, nos poucos minutos que o teve em campo, perdeu o médio que mais joga na posição '6' para o dérbi contra o Benfica, por ter visto o cartão amarelo que não poderia ver

Diogo Pombo

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As pessoas insistem na estrelinha desde que o próprio Rúben Amorim a convidou a sentar-se à mesa, cá esta ela, sem cerimónia, babete ao pescoço e talheres em punhos fechados sobre a mesa, pronta a regalar-se a qualquer refeição que são várias, é a cada conferência de antevisão ou rescaldo de um jogo que o Sporting vá fazer ou já fez, ou como tem sido costume esta época, vá ganhar ou já ganhou.

A badalada estrelinha não é uma estrela pequena, é outra forma de palavrear sorte, a sorte sem a qual equipa alguma ganha, tente-se apontar uma que o tenha feito sem ela e acaba-se de barriga vazia e isto - uma bola bater nos postes, um passe bater no adversário e isolar um jogador - nem se deveria ter como sorte, mas como as coisas incontroláveis que todo o jogo de futebol tem.

Sorte é nunca adoecer entre a primeira refeição desta vida e a última, sorte é esta pandemia passado e feito o seu repasto de vidas sem que tenha espetado o garfo num dos nossos, sorte não é algo que tenha acontecido neste Boavista-Sporting em que a equipa do Bessa, como várias que a precederam, responde ao 3-4-3 do líder do campeonato montando-se no mesmo sistema, que virava um 5-3-2 sem bola.

Mas tanto fez por recuar a última linha, a segurar um bloco baixo e com os cinco jogadores alinhados que nem pau de vassoura que ao Sporting bastou jogar com as dúvidas: projetou e muito Porro e Nuno Mendes para os laterais adversários terem de virar a cabeça e hesitarem, perdidos na indecisão entre ir fechá-los ou acompanharem Jovane, que ia oferecer-se ao centro do campo como opção de passe. Dava vantagem ao Sporting na luta de números a meio-campo e a equipa avançava no campo em posse.

Não tinha a profundidade descarada, o seu prato preferido. A paciência com a bola ordenada por João Mário chegava à beira da área e chocava as intenções contra o prato cheio de corpos azadrezados e o Sporting cedo começou a optar por curvar bolas tensas, das laterais para o espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes.

Muitas Nuno Mendes fez o outro Nuno desviar para golo, outra de Feddal foi amortecida por Sporar para, cheio de classe e calma, João Mário a amansar a bola na área entre os dentes do garfo, enganar um adversário fingido o remate, porém acertando em Léo Jardim quando, de facto, rematou sem antes olhar para a baliza a uns três metros dele. E o central Porozo ainda bloqueou, em cima da linha, uma bola rematada por Jovane.

Rematar, coisa não feita pelo Boavista na primeira parte (nem sequer um cruzamento), tão recolhidos no bloco estavam os seus jogadores que ficavam à mercê da pressão alta ou pós-perda do Sporting. Sem ter um pedaço de bola no prato, mas sentido-lhe o cheiro por tanto correr atrás dela, Jesualdo Ferreira moveu os ingredientes para o jogo lhe saber a algo.

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Nuno Santos e Benguché entraram para a segunda parte, um médio e um avançado para o Boavista alterar o sistema para um 4-3-1-2 e saborear o meio-campo, deixando Angel Gomes a deambular atrás dos médios do Sporting que pretendia atrair para perto dos seus. Os de xadrez, com bola, também muito foram subindo os laterais para impedirem os extremos do Sporting de darem ajudas ao centro e, aos poucos, foram tendo chegadas à área.

O Boavista já trincava receções de Angel entre linhas, o inglês virava-se com a bola e tentava lançar um dos avançados para corridas com um central exterior do Sporting. Também ganhou mais duelos que o adversário, ao relvado pesado juntou condimentos para contrabalançar a acidez do adversário, mas, mesmo jogando em muitos mais metros de campo, nunca foi capaz de ameaçar a baliza de Adán.

Apesar de esmorecido nas vezes em que chegou à área contrária com condições para molhar a colher na sopa, o Sporting logrou, em ataque rápido e com a profundidade aberta para Nuno Santos, ver Sporar, a um metro da baliza, a desviar uma bola para fora.

Ficou estendido, com cara parva e de mãos na cabeça, postura não muito diferente da que muitos adotaram quando Pedro Porro, de costas, inventou uma receção orientada para se livrar de um adversário enquanto dominava uma bola ressacada da área e, depois, a uns 30 metros da baliza, estourar um míssil que sobrevoou o guarda-redes. Disse o espanhol que teve a “suerte” de a bola entrar.

Sorte não é isto, nem azar é o que, com o jogo manso e resolvido, aconteceu à Palhinha que Rúben Amorim quis usar na bebida a 14 minutos do fim da refeição: na primeira disputa de bola que travou e subsequente falta apitada, o João que o treinador precavera ao manter sentado no banco de suplentes viu o cartão amarelo que ninguém do Sporting desejaria.

João Palhinha não poderá jogar contra o Benfica na próxima jornada, a 1 de fevereiro, até lá o Sporting guardará seis pontos a mais que o rival, que é 3.º, e quatro para lá do FC Porto, que é 2.º, sortudo pode ser considerado o clube pela condição que tem - por ser líder e sê-lo durante tanto tempo, passado tanto tempo da última vez.

Mas sorte, sorte mesmo, não é o incontrolável que sucede quando estamos a controlar o mínimo que seja, como num jogo de futebol decidimos como ou para onde passar a bola. Cruamente, sorte é o privilégio de nascer em família rica, azar será nascer e nunca conhecer os pais biológicos. Neste Boavista-Sporting não houve sorte, estrelinha ou azar.